Uma percepção filosófica dos cringe

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Até uns dias atrás, nunca tinha ouvido falar a palavra cringe. Tá certo que não sou lá um conhecedor do vernáculo anglo-saxão, mas cringe ganhou um significado muito particular a partir de um meme, em que uma boneca descolada diz ser jovem por gostar de k-pop, mas é desmascarada por conhecer coisas que revelam que… jovem, jovem como ela pensa ser, ela já não é mais.

Tenho pensado muito sobre ser cringe. Sou igual a essa boneca descolada do meme: quero sacar o que os jovens fazem e pensam, mas já não sou um deles. Há uma pequena ruptura em alguns casos, uma erosão em tantos outros. Uma boa proporção de velhice se apossou do meu corpo, e dessa possessão não há padre exorcista que dê conta de expulsar.

O tempo é sagaz, produz essa dicotomia entre o que somos (uns véio bobo) e o que queríamos ser (uns jovem descoladão). Ao mesmo tempo que procuramos o movimento de ser algo diferente, o próprio movimento sinaliza bem onde estamos. Parmênides e Heráclito, cada qual a seu modo, adorariam observar essa dualidade em nossa existência. E, certamente, também iriam achar muito engraçado o meme da boneca.

Se pudesse dar um conselho pra boneca estilosa, diria: tudo bem amiga, não precisa chorar, faz parte. A gente é fruto das nossas experiências. As gerações passam, e nós também. Já reproduzimos o riso ao observar os mullets, ombreiras, saias balonê, calças boca de sino.

Hoje, são eles que nos riem.

Haverá de chegar a vez deles, e só espero que as próximas gerações que caçoem de vocês possam produzir moda e mundo bem melhores que os nossos (os millenials e da geração z), que ainda pouco fazem de efetivo pelo meio ambiente e pela pobreza humana. Talvez, lá pela frente, ser cringe nos fará verdadeiramente ter vergonha da nossa anterior condição, e iremos viver (quem ainda vivo estiver) uma experiência humana bem melhor. E eu espero, honestamente, não estar sendo otimista demais.

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