Uma oficina de poesia

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  1. Como é uma oficina de poesia? Eis a amostra de uma das minhas:

 

  1. Mostro o poema “Crepúsculo” de meu primeiro livro “O Emparedado”, 1975:

 

O sol queima árvores e nuvens no horizonte,

queima o poema, e teus olhos são candelabros

 

(a paisagem viril tateando o teu dorso)

onde serpentes erguem-se em volutas quentes.

 

Teus seios fremem sob a aragem do crepúsculo.

(Por entre esse êxtase, os desejos desatados.)

 

As palavras rolantes nas espiras rubras

das gargantas e suas febres sem assombros

 

(nesses fogos funâmbulos, achaques cavos)

enquanto o poema perde-se entre fel e escombros

 

e nos óleos da noite apaga-se o teu corpo.

 

  1. Mostro como escolhi algumas palavras (crepúsculo, êxtase, queima, olhos, seios, serpente, candelabros).
  2. As mesmas que trabalhei no poema “Êxtase”, de meu quarto livro, “Poemas de amor”, 1999:

 

Você olhava o sol poente.

Eu a abraçava por trás.

Você queimava.

Os seus ombros estavam em chamas.

Os seus cabelos eram labaredas

que o vento balançava.

Os seus olhos eram um poço de fogo.

Eu não olhava os seus olhos,

seria a perdição.

Eu segurava os seus seios,

queimavam.

Maçãs encarnadas

pulsando, derretendo os meus dedos.

Uma cobra se enrodilhava no mato,

coivara!

Deslizou, sumiu.

Nós ficamos, candelabros,

iluminando a noite.

 

  1. Estou mostrando que um poema se faz com palavras. O primeiro em versos alexandrinos, mais fechado, negativo; o segundo em versos livres, e ideias mais livres, otimista; mas que não foram feitos, nenhum dos dois, para expressar essas ideias mais livres ou mais fechadas; as palavras foram trabalhadas, a experiência do poeta, a sua vivência levaram-no a escolhê-las, a torná-las mais leves ou mais pesadas.

 

  1. Um outro poema, “Nigthmare”, de meu segundo livro, “Exílio”, 1983, é formado da sugestão que o desdobramento etimológico (mare, égua, e nigth, noite) me forneceu, ligado a seu significado, pesadelo, e o terror do maior dos pesadelos, a cova, e todo o universo por cima.

 

  1. Trabalhando com essas palavras, escrevi:

 

Desaba sobre mim, ó infinito.

 

Terror êxul: espelho e labirinto,

as árdegas estrelas e a esfinge.

 

A potranca da noite me devora,

quem me sonha adormece em minha cova.

 

  1. Talvez bons decassílabos, mas que incomodam. Imagens fortes, sem explicação. Não é preciso que se saiba explicar o que diz um poema. O poema pode não ter explicação, e certamente não foi feito para dizer algo.

 

  1. Por último mostro o poema “Construção”, também de “Exílio”. Quero mostrar que o poema é uma construção. As palavras-chave são pedras, edifício, muralhas, correntes, cordas, limites, forma, perícia, rigor, ordem, apesar de mistério, noite, fábula, música, e outras referências subjetivas. Repiso a ideia: construção.

 

  1. O poema é construído, ainda que um edifício de música e sugestão:

 

Escolho as pedras do poema frágil.

Quero compô-lo com perícia tal:

sua noite ordenada, na palavra

à palavra ajustada, com rigor.

Edifício de música e mistério.

A fábula criada se contempla

voltada para dentro de si mesma.

Conceito circunspecto no declive

da paixão, em sigilo resguardada.

Muralhas rubras guardam a garganta,

correntes se erguem contra as cordas pobres.

Minha voz se contrai em seus limites.

Eu componho a forma, alta, concentrada.

 

  1. Mostrei mais os meus poemas porque naturalmente o autor sabe mais do seu próprio processo. E porque os leitores gostam de ouvir o autor, que tem, porque é o autor, uma certa credibilidade.

 

  1. Passo a uma demonstração mais prática. Peço que me deem meia dúzia de palavras. Concretas. Que eu ligarei usando verbos de movimento, que animarão essas palavras. Ou as ligarei sem verbos.

 

  1. Sugeridas, ao acaso, as palavras relógio, céu, bola, prédio, árvore, sapato – junto-as:

 

Tenho um relógio no meu sapato

caminho para a árvore

para o alto céu

e sou apenas um prédio

que não deu certo

uma bola fora.

 

Um bom poema? Um poema.

 

  1. Sugeridas as palavras olhos, água, caminho, pássaro, flor, mesa – escrevo-as na lousa, em duas colunas, acrescento artigos ou contrações de preposições e artigos, sem nem mudar a ordem:

 

Os olhos

na água

 

no caminho

um pássaro

 

uma flor

sobre a mesa

 

Título: Paisagem.

 

  1. Ou usando a palavra que vem logo abaixo da anterior:

 

Os olhos

no caminho

 

uma flor

na água

 

um pássaro

sobre a mesa

 

Quase dois delicados haicais, não?

 

  1. Os aprendizes escolhem, aleatoriamente, as palavras árvore, mar, sol, porta, montanha, terra – e já começam a ligá-las. Já estamos fazendo uma criação coletiva. Construindo juntos o poema Caminho:

 

Corto a árvore

lanço-me ao mar

ao sol da tarde

através da porta vermelha

subo a alta montanha

sou engolido pela terra.

 

  1. Eu diria que é um belo poema. Como eu queria demostrar: é assim que se faz um poema.

 

  1. Com as palavras pedais, sombra, flor, pássaro, luzes, água, vestido, boca – fazem o poema:

 

Os seus pobres pedais

sob a sombra de uma árvore

a flor do pássaro selvagem

tantas luzes tanta água

o vestido rasgado

a boca aberta.

 

  1. Tem sentido? São versos fortes. E quem disse que o poema precisa de sentido? É um belo poema surrealista.

 

  1. São lições que vamos aprendendo.

 

  1. Um outro processo é escolher palavras-chave de um poema, misturá-las, tentar depois ligá-las montando um outro poema.

 

  1. Ou: um aprendiz dá meia dúzia de palavras para o outro, cada um tenta montar um poema com as palavras que o outro escolheu.

 

  1. Mais um processo, que eu chamei, brincando, de Saco de Pandora. Pegamos uma sacola de plástico, escolhemos, escrevemos e recortamos várias palavras de vários poemas, misturamos na sacola, tiramos ao acaso, tentando montar um poema. Eu mesmo acho incrível: são criados poemas.

 

  1. É preciso treinar muito, teimar em fazer poemas apenas com palavras, montar palavras, depois, só depois vem o sentido (ou não).

 

  1. Assim o Poema no Bosque, que seria no quarto dia dessa oficina, e os aprendizes fariam poeminhas, como haicais. Peço apenas que passeiem no bosque, e tomem nota do que observaram, em forma de poemas com o mínimo de palavras. Não porque eu ensine a fazer poemas pequenos, e sim economia verbal.

 

  1. Insisto em que não deve haver inspiração. A inspiração mata a poesia. A empolgação é quem comanda, destrói a poesia, que é trabalho com a palavra, até chegar à síntese da imagem.

 

  1. Escolham um tema ou assunto, escolham algumas palavras importantes, trabalhem com essas palavras, até fazer um poema com elas.

 

  1. O resultado sempre é surpreendente. São criados excelentes poemas.

 

Noite de Verão

 

A casa de pedra

na beira do rio

 

os cabelos ondulam

ao vento

 

refletem a luz

do verão

  • José Francisco Aires Júnior

 

Mulher na porta

esperando a morte.

  • Antonio Florindo

 

Inverno

 

O sol na serra

sob a neblina.

 

Árvores balançam

flores secas ao vento.

 

Caem das cachoeiras

águas de cristal.

  • Sueli Santos

 

Tristeza

 

Na mesa vazia

o choro do mangue

 

uma maçã verde

contempla a noite.

  • Márcia Ferreira C. Del Vecchio

 

Presságio

 

Os pássaros

 

dentro da neblina

no limite da tarde

 

o silêncio

de uma serpente.

 

A gota cai na torneira,

o sol perde o brilho.

O dia finda.

  • Elisabeth Sampaio

 

Lírios bebem

o orvalho da manhã.

  • Ligia Prado Ignacio Nunes

 

A formiga para:

será que atrapalho

seu caminho?

  • Denise Maria Ofenboeck

 

 

 

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