Sobre latidos e partidas

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Ainda que não fosse um bichinho meu, o latido me comovia. Olhei pela janela, esperando ver a vizinha já de volta. A casa, contudo, estava escura – repleta apenas do lamento incansável do cachorro.

Hoje fiquei meio à mercê desse súbito companheiro de home office. Eu tentando me concentrar no trabalho, ele imerso em seu exílio de cachorro de apartamento. Em outro momento, talvez eu ficasse irritada. Reclamaria da vida de condomínio, sairia para comprar um daqueles protetores auriculares de farmácia. Em caso extremo, falaria com a dona. Mas hoje não. Saí para a área compartilhada – em meu traje short-chinelo-blusinha – buscando uma intervenção para aquele sofrimento.

Tá tudo bem, solidão é difícil mesmo. Logo sua dona volta! Fica tranquilo! E acariciei sua cabeça (a janela, por sorte, estava aberta). Ele silenciou e me ofereceu sua orelhinha de poodle para mais afagos. Se a síndica pegar as filmagens, serei reconduzida à função de a louca dos bichos – pensei, sorrindo. De frente para aquela fuça simpática e carente, eu lembrei inevitavelmente de minha cachorra Clara, que eu tinha acabado de perder para a cinomose.

Clara esteve presente na minha vida desde os tempos da primeira faculdade. Me recebia aos pulos quando eu ia visitar meus pais em São Paulo. Amava subir no sofá, sob os protestos da família, cuja coragem de tirá-la do trono acabava tão logo ela oferecia a barriga amarela. E então ela ficava dormindo por lá, calma como quem sabe-se parte da casa.

Perder um bichinho é difícil. Durante uma pandemia então, nem se fala. Os vírus, esses seres mínimos, nos tomando as certezas aos solavancos. O chorinho que me acompanhou nessa tarde de trabalho não foi o de Clara, mas a mão oferecida era minha. Aquele gesto era extensão do meu luto, agora eu sabia. Se não havia escolha senão aceitar o imperativo da perda, eu escolhi ao menos elaborar essa ausência em forma de acolhimento e respeito à vida.

Que Clarinha vá em paz e que possamos sempre abraçar um pouco mais os que ficam, sejam bichos, sejam gente.

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