Relacionamentos à distância através dos tempos

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Há vinte e nove anos, eu lia quieta na sala uma revista adolescente, chamada ‘’Carícia’’. Nela tinha matérias sobre puberdade, moda, fotos de celebridades. Em uma seção, achei o endereço de um rapaz de Minas Gerais. Era como um Tinder das antigas. Pessoas falavam sobre suas características, com um endereço para correspondência. Resolvi escrever. Seria legal conhecer alguém com uma outra realidade, de um outro estado. Falei na carta um pouco sobre mim r como era minha vida. Vou fazer umas aspas aqui.

Como era bom escrever e receber cartas. Você esperava ansiosa por dias, até que chegava o momento em que o carteiro gritava no portão ou apenas batia na caixinha de correios. Pronto, seu dia seria mais lindo a partir daquele momento. Você lia e relia a tal carta, olhava cada detalhe, e como era legal alguém se importar com você a ponto de escrever uma carta. Ou um telegrama,  mais rápido e tão lindo quanto.

Pois bem voltemos à paquera a distância.

Depois de uns vinte dias chegou uma carta. Abri, tinha pétalas de rosas e cheirava a talco. Me emocionei, era o menino da revista, Marcelo de Minas. Nela falava um pouco a seu respeito e como ficou feliz com minha carta. Terminava com uma poesia. Essa troca de cartas durou alguns meses. Ele me mandava fotos suas trabalhando em sua banca de jornal, eu mandava as minhas também. Ligava as vezes no fixo de casa e conversávamos um pouco, ainda tímidos. As cartas sempre vinham com as rosas e o talco. Era mágico. Mas por conta de nossa idade, falta de recurso e distância, não durou. Mas guardo ainda com saudade essas lembranças.

Hoje com o distanciamento social voltamos a nos relacionar à distância. Óbvio que não por carta. Tudo com a tecnologia se tornou mais rápido e prático. Chamadas de vídeos, mensagens de voz. Conseguimos nos conectar, abraçar e beijar uma pessoa do outro lado da tela, sem calor humano, claro, mas com carinho e saudade. E esse relacionamento é essencial para nos mantermos vivos e com saúde. É tão bom quando vemos uma pessoa importante mesmo que por vídeo. Saber que ela está bem e segura.

Enche o coração de alegria. Mas sinto falta do frio na barriga que a carta trazia. Da emoção do desconhecido, do cheiro de talco e das pétalas.

Um rímel, um café e um textão é a coluna semanal de Juh Hunzicker

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