Primavera Árabe

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Eu estava em um antigo mosteiro, agora casa de retiro, dos Jesuítas em Itaici. Como passaria o final de semana por lá, entrei em contato com uma amiga que havia se mudado há pouco tempo para Indaiatuba. Ela foi me ver naquela noite. “Com receio”, disse ela. Talvez fosse mais do que justificado. Afinal, confesso que não poucas vezes fui galanteador, apesar de minha aparência pouco, ou nada atraente. Meu grupo estava em uma animada confraternização com direito a muitos petiscos, música e dança. Mas eu tinha outra coisa em mente… Levei-a até um mirante onde mal se ouvia qualquer coisa diferente do barulho das árvores que vez ou outra se balançavam com o vento abaixo de nós. Estávamos aonde eu queria estar e com quem eu desejava estar. Nada justo… Não para ela.

Creio ter me comportado bem. Falamos de muitas coisas. O tema “religião” parecia dominar o assunto. Mas houve um momento. Um ínfimo momento em que nossos olhos se cruzaram e foi como ver a constelação que enchia o céu naquela noite, sendo refletido naquele olhar. A respiração pareceu faltar-me, mas logo foi inflado novamente em meu peito por um forte vento que me despertou e fez surgir ali o que parecia um antigo pergaminho. Provavelmente escrito há muitos, muitos anos. Não estaria exagerando se utilizar o termo: “séculos”. Talvez estivesse cuidadosamente escondido em algum lugar daquele mirante. Tempo suficiente para ter sido esquecido lá. Sua origem e a trajetória até aquele local são e sempre será um mistério para mim.

Ao tomá-lo em minhas mãos, imaginei se tratar de rabiscos feitos por uma criança perfeccionista. “É árabe”- me informou ela, trazendo-me ao patamar mais lógico da realidade. Como ela conhecia pessoas de todo o mundo por conta de seu trabalho que exigia participar de diversos treinamentos na Alemanha, tirou uma foto e encaminhou-a para um colega da Argélia. O texto que se segue foi fruto da tradução de Mohamed para o alemão e deste para o português.

 

Na manhã de uma típica primavera Árabe, Zayn e Iasmin corriam entre as árvores de um bosque próximo ao vilarejo onde habitavam. Os raios de sol, que se projetavam sobre eles ao passar por entre as árvores, conferia um efeito quase mágico de fascínio e encanto que parecia inundá-los.

Numa idade ainda dominada por brincadeiras, mas não tão novos para evitarem sonhar um com o outro, divertiam-se como dois adolescentes cujo mundo parecia ter mais brilho e cor quando estavam juntos.

Em uma clareira naquele busque, onde inocência e encantamento se entreolhavam, o amor era uma singela rosa sendo cultivada no árido solo de um país dividido. Mas nada poderia perturbá-los. Aquele momento era o único a ser vivido.

Iasmin dançava ao impulso de seu coração e Zayn a observava como que em profundo transe, arrebatado pelos encantos da garota cuja simples lembrança tinha o poder de provocar em si, sentimentos que nenhuma palavra conhecida parecia ser capaz de abarcar.

Tudo estava em sua mais perfeita ordem e harmonia. E por um momento a terra se fez céu. Pelo menos, até que as árvores começaram a explodir, sendo substituídas por chamas que pareciam vir debaixo delas.

Na manhã daquela primavera, Zayn e Iasmin corriam entre as chamas do bosque. Os raios de sol foram tampados por uma espessa cortina de fumaça cinzenta que era apenas um palito sinal de tempos ainda mais difíceis pelos quais passariam. A primavera transformou-se quase que imediatamente em inverno. Um grande e interminável inverno.

No vilarejo baila as cinzas do bosque que cedeu lugar a um deserto quase sem vida. Como por milagre, há em seu centro, ainda relutante em seguir adiante, a rosa plantada pelos jovens adolescentes. Uma flor que clama por liberdade e pelo direito de viver. Uma imagem que só pode existir no coração dos fortes, na cabeça dos sonhadores e no olhar desafiador de quem não deixou de acreditar.

O demônio ainda dança na terra que um dia ousou subir aos céus e que foi lançada aos infernos por aqueles que aos jovens Zayn e Iasmin, tentaram matar. Mas os adolescentes, amadurecidos a força, seguem adiante, mesmo que cansados e torpes por uma espessa atmosfera contaminante que trás em si o cheiro e o sabor da morte.

Neste deserto árido é possível ver surgir ao longe um carro do ocidente conduzido por cavalos que não são daqui. Ao fundo está um homem velho e cansado. Ele sonha com a rosa do deserto superando seu inverno e desabrochando para os adolescentes encobertos de pó e sangue. Mas o carro parece ser guiado pela face oculta da indiferença de quem olha e diz: “lute, não desista. A vitória está próxima”. Mas suas atitudes parecem dizer: “não é um problema meu”.

Também é possível que a dama a guiar o veículo não seja total indiferença. Talvez ela seja o paralisante medo, por ver ao longe os cavaleiros da morte acompanhando com seu vil olhar o jovem casal. São como leões famintos em busca de sua presa, em uma caçada mortal. Se observar bem, talvez você possa reconhecê-los. São eles: Vlad e sua concubina Assad. Também é possível ver uma sombra escura, o vazio total, o abismo sem fim que deseja consumir tudo, engolindo a todos como um buraco negro revestido de uma insana religiosidade. Neste cenário se vê a imagem de uma enorme torre cujo cume sustenta uma bandeira que é o símbolo da liberdade para seus veneradores. Ela mantém a perigosa sobra em seu lugar, ao mesmo tempo em que protege os cavaleiros da morte. A aparente contradição é fácil de explicar. O rei que nesta torre vive, o rei que a esta bandeira trai, é filho de Vlad… Filho cativo, servo leal.

 

——– CORTE ——–

Há dois ou três parágrafos tão comprometidos que Mohamed só conseguiu traduzir algumas palavras desconexas. Por razões óbvias não as colocamos aqui. Palavras soltas ao ar são incapazes de formar uma imagem, uma ideia, uma mensagem. Felizmente a conclusão do documento estava em satisfatório estado para compreensão do mesmo.

———————–

 

Ó jovens amantes! Não deixem que a flor murche. Se ao alvorecer ela não existir, o inverno nunca cessará. Cultive a rosa, cultive-a onde posa florescer, onde seu marcante perfume não passe por despercebido. Cultive-a onde o inverno possa enfim ceder e onde, a partir daí, a Primavera Árabe possa enfim acontecer.

 

“Por favor, envie-me o pergaminho”. Solicitou-nos Mohamed após traduzir-nos o texto. “Quero estudá-lo melhor se me permitirem”.

 

Minha atenção voltou-se para aquele achado que estava em minha mão. Mas não havia nenhum sinal dele. Simplesmente pulverizou-se. Pode ter sido o contato com o ar após tanto tempo; ou quem sabe, pelas condições do local onde esteve ocultado; ou ainda, pela minha inabilidade em manuseá-lo. Seja lá como for, gosto de pensar que o pergaminho não desapareceu, mas sim se libertou. Foi ao encontro daquela flor que só pode existir no coração dos fortes, na cabeça dos sonhadores e no olhar desafiador de quem não deixou de acreditar.

Claudio Luiz Ferreira

Claudio Luiz Ferreira

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