O Jogo dos Amantes

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O Era uma vez foi afetuosamente dilacerado e lançado ao fogo nesta história. Não precisamos de tamanha pompa. Apenas aproxime-se, puxe uma cadeira e escute o estalo ambicioso sempre presente no início de uma boa partida. Imagine como queira, apenas tenha em mente que em uma época antiga, antes da televisão e dos políticos, o Castelo do tirano Rei de Aretusa abria as portas para um formoso baile de máscaras. Lá dentro, desviando das fitas coloridas irrelevantes e dos criados frenéticos, acontecia o derradeiro espetáculo.

Agora, espero que esteja a vontade, porque as peças foram devidamente dispostas no tabuleiro.

Agora, senhoras e senhores, é a última chance de fugir.

Corra. Vá, corra.

Para você que ficou, sim, você mesmo, lhe entrego um termo mais adequado para situação:

Que os jogos comecem!

Então, silêncio. Por favor, silêncio.

Lá dentro do grande Castelo as irmãs Alibert, unidas feito unha e carne, trocavam uma conversa animada.

– Como está encantadora! – exclamou Alethea. – Aliás, você sempre está.

A jovem Amélie analisou o próprio reflexo no espelho. Tinha que discordar da irmã, embora fizesse isso apenas em pensamento. Para ela, a combinação entre seus cachos negros volumosos enroscados em um penteado complicado e o vestido estilo bolo de casamento na cor dourada que mais parecia glacê não era nada encantadora.

– Ah, minha cara, é você que está maravilhosa.

– Se eu tivesse sua cintura estaria com certeza – Ela deixou-se cair sobre a cama do modo que uma dama respeitosa deixa-se cair em uma cama.

Alethea sempre havia sido assim. Preocupada com a aparência, ligada a moda, bons vestidos e outras futilidades, como se dependesse destes itens para respirar. Por ser a mais velha, tecnicamente, já deveria estar comprometida e a quilômetros dali vivendo sua própria aventura. No entanto, como a mãe adorava lembra-la quando ainda era viva, não existia na menina a formosura rara que cavalheiros procuravam. E patinhos feios, por mais ricos que fossem, jamais encontravam um par. Amélie, louca por contos de fadas, costumava dizer a irmã que ela simplesmente deveria esperar, pois, certamente, o Príncipe encantado surgiria um dia desses e que a mãe resmungava bobagens demais para um ser tão pequeno.

– Já tem um par para o baile de hoje? – perguntou Alethea estreitando os olhos.

– Não… – Ela ajeitou a máscara vermelha escarlate no rosto e deu de ombros ao continuar. – Quero dizer, posso tomar coragem para convidar aquele belo cavalheiro que conhecemos no verão.

– Oh, Amélie! Você sabe exatamente de que estirpe o sujeito pertence. – grunhiu a irmã sustentando uma expressão dramática. – Além disso, não estamos em Albion. Este é o Reino de papai. Um druida não ousaria comparecer neste baile para correr o risco de ser queimado amanhã.

A Princesa teve que suspirar. As vezes a falta de espírito aventureiro de Alethea soava como uma pedra em seu sapato de salto favorito.

– Bem, estarei disponível caso ele apareça… Não posso negar que há algo extremamente fascinante nele…

– Sim, deve ser o modo fascinante com que ele pode te levar para ruína.

Ela sorriu.

– Alethea, com toda certeza é isso! – ironizou a garota. – Muito obrigada por descobrir!

– Senhoritas. – chamou Sra. Durant, a governanta, aparecendo na porta. – O baile de máscara irá começar.

– Iremos em um segundo. – resmungou Alethea enquanto colocava a máscara negra polvilhada de cristais. – Amélie, por favor, não se esqueça de comportar-se feito uma dama.

– Ora, irmã, sei me comportar! – disse a moça fingindo estar ofendida.

Saíram um momento depois para aquilo que Amélie costumava chamar de turbilhão de vozes, gostos e falsidades. Uma festa nunca a alegrava. Tirando pelo fato de que a mansão estava adornada com enfeites belíssimos e que as mesas se achavam fartas das melhores comidas, ela poderia se retirar naquele exato instante.

Após tentar conversar com cinco moças que mantinham opiniões mesquinhas em relação a livros e rejeitar prontamente dois rapazes infelizes que a pediram em casamento, a princesa o viu. Mil vezes mais lindo do que a última vez, trajando um smoking preto e usando uma máscara cinza que proporcionava um brilho extra para seus olhos azuis gelo. Cheirava a encrenca de um jeito doce, como se implorasse para alguém por em risco um reinado inteiro apenas para lhe dar um entretenimento.

Dizem que coragem era algo que se devia ter caso quisesse viver momentos únicos. Então, Amélie buscou no fundo de suas entranhas toda a coragem que tinha para convidá-lo para uma dança.

– É muito lisonjeiro de sua parte! – Ele a olhava intensamente, devorando seu ser por inteiro. – Mas não é o cavalheiro que costuma fazer esse pedido?

– Me desculpe se estou sendo um pouco vulgar, senhor. Não quero lhe obrigar a nada, mas também não poderia esperar que tal convite viesse.

– Não precisa preocupar-se, milady! Adoro seu atrevimento. O mundo seria um lugar mais justo caso metade das damas agisse como a senhorita. – O cavalheiro estendeu a mão que não foi hesitada em ser segurada com firmeza. – Será uma honra conceder esta dança.

Quando a Princesa deu por si estavam no pátio junto a milhares de casais balançando ao som melodioso de uma harpa. O rodopiar da saia dourada de seu vestido parecia incendiar o salão com uma atmosfera mística. Ou, talvez, a sensação estava apenas sendo causada pela proximidade de seus corpos. De perto, os cabelos negros do parceiro brilhavam por conta do reflexo das chamas das velas dos candelabros e seus olhos funcionavam como magnetismo a puxando ainda mais em direção a ele.

A dança durou cerca de minutos, mas a moça tinha a impressão de que havia sido uma eternidade. Uma boa e leve eternidade. Assim que se soltaram, ou seja, assim que o mundo voltou a sua pesada realidade, a primeira coisa que o rapaz fez foi perguntar o seu nome.

– Amélie. – falou ela sentindo a face corar. – Amélie Alibert.

– Boa família a sua. – murmurou ele, deixando evidente o tom irônico na voz.

Dizer seu nome foi um erro, a Princesa sabia. O pior dos erros. A Cinderela tinha saído prontamente a meia-noite e seu único erro era o sapatinho de diamante, não algo cruel como o que havia cometido naquele momento.

A revanche entre os druidas e o Sr. Alibert era infindável. Vinha do tempo do expurgo. Da grande limpeza. Rumores sussurrados aos quatro cantos afirmavam que o Rei confiou em uma Sacerdotisa poderosa que acabou lhe traindo marcando como lembrança a perda eterna da visão de seu olho esquerdo. Depois deste incidente misterioso foi decretado a execução de todo ser que ousasse praticar ou sequer pensar em magia. Para Amélie, como em toda coletânea de ações, opiniões e rixas do pai, aquela decisão era uma tolice tamanha e extravagante ligada exclusivamente ao medo de perder o controle. – Sou Sebastian Vettel. – disse o rapaz para surpresa da jovem. – Já havia te admirado em outros bailes. Pode me informar como consegue ser a mais bela dama em todos eles, Amélie? Porque este encanto certamente não é de família.

Ele ofereceu uma piscadela a ela no exato instante em que as chamas das velas tremeluziram feito as batidas de seu jovial coração. Tremeluziram e tremeluziram. E, enfim, apagaram-se de vez seguido por um burburinho espalhado pelos convidados. Amélie respirou fundo diante do breu frio a sua volta. Então houve uma explosão de luz colorida que percorreu o salão inteiro antes de se extinguir.

– Guardas! – gritou o Rei da escadaria.

No final, pensou a garota, até que uma festa poderia ser divertida.

As paredes pintadas de um leve carmesim tinham ganhado uma decoração singela. Letras garrafais negras feito carvão ostentavam a sentença “Tirem as máscaras das máscaras, hipócritas. Cordialmente, S.V.”.

Sebastian Vettel.

Sebastian Vettel possuía um estilo único para saídas dramáticas.

A Princesa não conteve o sorriso, embora as cambalhotas em seu estômago de outra hora haviam se transformado em uma falta dolorida que a consumia de maneira assustadora.  Os dias que se passaram foram intensamente longos. Porém, pelo menos, as noites eram regadas pelas cartas de Sebastian que chegavam furtivamente por meio de um corvo encantado que pousava no parapeito da janela do quarto da jovem. Esta regalia, encontros rápidos no jardim e trocas de peças românticas de Shakespeare tornavam aos poucos a singela fascinação uma paixão genuína digna de seus queridos contos de fadas. Entretanto, como nas histórias de amor, era de se esperar que nem tudo fosse flores.

Além do constante desejo reprimido de estar com o amado, Amélie tinha que lidar com os recentes comentários de que uma aliança entre reinos iria acontecer em breve. Seu ilustre pai desejava veementemente que ela se casasse as pressas com um Príncipe nojento para, segundo ele, selar um pacto para continuação do reinado próspero que havia criado. Por próspero, o Rei queria dizer sem magia, com sentenças de mortes, perseguição e súditos controlados de perto. A Princesa preferia cair morta no chão duro do que participar daquela trama ridícula. Felizmente, foi neste cenário caótico que ela recebeu a última carta de Sebastian. Nela o rapaz sugeria uma fuga e acrescentava ainda trechos lindos de Romeo e Julieta, como uma forma de dosar o pedido surpreendente. Um misto de pavor e alegria assolou a jovem que viu-se confrontada por um dilema digno de um romance. Fugir com o druida colocaria um fim em seus problemas e significaria a traição para com a própria família, no entanto, não praticar tal ato quebraria seu coração em dezenas de pedaços irreparáveis.

– Que cara é essa? Parece que viu um fantasma. –  disse Alethea ao entrar na sala. – O que é isso? Uma carta! Tem um admirador?

Ela apertou o papel contra o peito para protegê-lo dos olhos ingênuos da irmã.

– Seria melhor se eu tivesse visto um fantasma, minha cara.

– Por quê? O que houve? Sabe que pode confiar qualquer coisa a mim.

Aquilo era verdade. Sempre contava seus maiores segredos a Alethea, mas pegou-se com medo dessa vez. Não era um simples segredo. E não era somente dela. Por outro lado tinha que confessar para alguém. Precisava trazer suas dúvidas a realidade palpável do universo.

– Céus! – exclamou a outra assim que ela acabou de contar o que se passava. – Você enlouqueceu?

– Temo que não. Entenda que jamais achei possível amar alguém como eu o amo…

– Mal o conhece, Amélie. E o que conhece já não é bom.

– Por quê? Somente pelo fato dele praticar magia? Quando foi que virou uma cópia de papai? Devo simplesmente virar as costas para o meu amor verdadeiro por causa do preconceito ridículo que vocês insistem em sustentar?

– Deveria. É o correto. Você com certeza está sob um feitiço. Ele está te usando bem de baixo de nossos narizes!

– Isso é ridículo, Alethea. Ele me ama tanto quanto eu o amo. Sinto que é recíproco, nem todo druida é movido a ódio como pensam.

– Vejo que já tomou sua decisão.

A Princesa encolheu-se. Não imaginou que seria tão difícil. Mas no fundo de sua alma sabia que seguiria seu desejo e aqueles olhos azuis gelos para qualquer lugar. Iria ao inferno, voltaria e iria de novo caso fosse necessário.

– Sim.

– Vou informar ao papai sobre essa barbaridade. Precisamos salvá-la e nos salvar enquanto há tempo.

Alethea virou as costas, determinada, no entanto, não foi muito longe. A moça agarrou o braço da irmã com força. Houve um misto de surpresa e ódio dançando nos olhos dela que logo foi substituído por uma rápida ação. Ela se desvencilhou de Amélie com um puxão e pegou um velho busto na escrivaninha para afasta-la. A Princesa recuou, as mãos para cima em rendição temporária.

– Por favor, não faça isso. Permita que eu vá. Permita que eu seja feliz.

– Estou te fazendo um favor, querida. Agora, não se mexa.

– Vai machucar sua própria irmã? Teria essa coragem?

– Está enfeitiçada, precisa ser detida. Não se mexa, Amélie!

Ela não podia obedecer. Tinha que sair dali. Tinha que executar seu plano. Não pensou muito ao alcançar a lança decorativa e explodir a arma improvisada da outra em mil pedacinhos de gesso. Surpresa passou mais uma vez pelo rosto de Alethea seguido por uma careta estranha quando a lança traçou o ar terminando seu percurso com força na cabeça dela, a levando a inconsciência na mesma hora.

Amélie respirou fundo e admirou o delito aos seus pés com uma culpa feroz.

– Sinto muito. – sussurrou.

Infelizmente, não podia se dar ao luxo da autopunição, precisava ser rápida caso quisesse obter êxito.

Trancou a porta ao sair e cuidou rapidamente dos últimos preparativos para sua própria sentença de liberdade.

– Rita, posso levar o chá de meu pai hoje? – perguntou para criada ao entrar na cozinha de supetão, eufórica.

– Temos quem faça isso, criança. Não se preocupe.

Mas ela já estava preocupada. Era preocupação de mais para um pequeno corpo. Sucumbiria se tivesse que insistir muito.

– É que eu preciso ter uma conversa com meu pai sobre o casamento.

Não deixava de ser uma verdade, isso ninguém poderia negar.

– Ah. – Ela lhe ofereceu um sorriso gentil. – Tudo bem, aqui está…Boa sorte.

Até mesmo os servos achavam o casamento uma ideia ridícula. Por que ela tinha que aceitar com alegria?

Era terça-feira, dia de reunião com os líderes, seu pai estaria uma pilha de nervos. E ela estaria pronta. Passou no escritório para pegar os pergaminhos antes de caminhar decididamente para o salão real. Suas pernas tremiam embaixo do vestido. As aventuras não eram tão magnificas quanto imaginava ao ler os livros. Havia medo demais para achar qualquer coisa magnífica. No entanto, era tarde para seguir o pavor. O grande Rei já estava na porta ávido por sua taça de chá de camomila e seus pergaminhos.

– Por que demorou tanto? – grasnou ele.

– Desculpe. Rita teve alguns imprevistos. Me ofereci para vir… – Ela não conseguia encara-lo nem formar as palavras certas.

– O que foi, Amélie?

Sr. Alibert era seu pai. Foi ele que lhe ajudou a dar os primeiros passos. Que a pegou no colo quando ela caiu nos degraus do Castelo. Que um dia leu os contos de fadas a luz de velas até a menina pegar no sono. Mas aquele, lembrou-se ela, também era o Rei. Um Rei tirano, assassino e preconceituoso de quem tinha nojo.

Não trairia seu pai.

Trairia seu reinado.

Trairia o grande Rei.

– Acha mesmo que tenho que me casar? – perguntou a moça.

– Não se preocupe. Príncipe Charles é um rapaz honrado e cavalheiro. Os boatos sobre suas andanças são apenas boatos, querida. Além disso, uma aliança será bom para nosso legado. Quem tomará meu lugar quando me for? Sua irmã é que não vai ser. E por mais que eu acredite em você, não gosto de imaginar uma mulher com tanto poder em mãos. Por isso, o melhor a se fazer é este casamento.

A cabeça de Amélie girava. Precisou apoiar-se discretamente na mesinha para não derrubar a bandeja em suas mãos na cara daquele homem ignorante.

– Não pretendo de jeito nenhum me casar com ele.

– O quê?

– Nem sequer o conheço.

– Também não conhecia sua mãe, no entanto, formamos uma família incrível.

– E nunca foram felizes.

– Felicidade não é tudo, minha menina. É passageira.

Ele fez uma careta e bebeu do chá de uma vez como que para ajudar a conversa descer goela abaixo.

– Eu amo outro, pai. – disse ela sentindo o peso das palavras.

– Amor, ah, o amor! Um jogo dos amantes, é isso do que o amor se trata. Apenas uma sequência de jogadas lançadas com tamanho fervor que uma hora ou outra torna-se puro tédio e um pesadelo total. Nada acaba bem neste jogo, querida.

– Pois bem, Lorde. Se o amor é um jogo, devo te informar que estou trapaceando.

Era um aviso. A última tentativa de que alguém a impedisse.

– Por favor, Amélie. – esbravejou o pai, a ignorando. – Tenho mais o que fazer do que ficar escutando suas criancices.

O Rei apanhou os pergaminhos e retornou para a reunião. A jovem deslizou para a fresta da porta não mais receosa para ver o show e, sim, ansiosa. Não perderia o declínio daquele larápio por nada neste mundo. Não podia perder a execução triunfal de sua trapaça.

Era isso que faltava nos contos de fadas. As princesas salvando a si mesmas.

Do lado de dentro do cômodo os líderes dos cinco reinos receberam os pergaminhos trocados por Amélie. Choque simultâneo balançou nos rostos dos homens ao ver os planejamentos do Sr. Alibert contra eles minuciosamente estampados naqueles papéis.

Uma risada baixa rompeu da moça.

O melhor foi deixado para o final, pensou ela.

– Que ultraje é este? – berrou um dos velhos mostrando o motivo de sua ira a um confuso Rei.

– Eu… – gaguejou. – Amélie… foi… ela…

Ele nunca terminou a acusação. Caiu sobre a mesa em um sono profundo que segundo o frasco de valeriana que Sebastian havia pedido para a menina entornar no chá duraria tempo o suficiente para fuga.

Os guardas ergueram-se em uma confusão de espadas, porque era isso que guardas faziam quando estavam sendo ameaçados. Os de seu pai, ao notarem a traidora na porta, tentavam passar pelo salão disparando agilmente suas lâminas nos outros. Entretanto, Amélie não era tão boba quanto muitos pensavam. E também, como seu amado, adorava despedidas dramáticas. Deu uma piscadela para ninguém em especial antes de puxar as portas e sela-las com o candelabro de ferro que segurava uma vela solitária.

Então, correu. Correu livre pelos degraus da escadaria apagando com a respiração acelerada as chamas crepitantes. Chegaria a Sebastian em minutos, podia sentir. Cada parte de seu belo corpo sentia. A distração foi perfeita, o restante era apenas o verdadeiro deleite.

Combinaram de se encontrarem no jardim e de lá começariam a viver uma nova vida em algum vilarejo afastado que os respeitasse do jeito que eram. Sem vestidos de bolo, festas ridículas e, o mais importante, sem magia banida. Seriam felizes para sempre, ela sabia.  A noite estava excelente para uma fuga. As sombras brincavam com os reflexos dos vidros decorativos pendurados nas árvores destacando tudo ao redor inclusive seu cavalheiro e o cavalo branco que a esperava. Derrubando as reservas, Amélie se jogou nos braços de seu amado tendo como única testemunha a lua cheia que adornava o céu noturno.

– Tem absoluta certeza de que esta é a sua decisão? –  perguntou ele com os lábios colados em seu ouvido.

Não havia outra decisão a ser tomada. Poderia rodopiar cem vezes e acabar, de olhos fechados, encontrando o caminho até ele. Porque o amor os ligava. Um tipo de amor que doía em cada célula e sacudia cada átomo sem parti-los. Um amor, cria ela, capaz de vencer o jogo dos amantes.

– É a minha escolha. – A moça sorriu. – A melhor escolha que já fiz.

Ele a beijou suavemente preenchendo seu corpo de um calor estranho, mas delicioso. Estava em meio as nuvens quando escutou o estampido grosso que obrigou o alazão a sair em disparada. Amélie estremeceu, tendo um mal pressentimento. Um pressentimento que logo ganhou forma.

Alethea.

Um montinho de vestido vinho em contraste com a capa de veludo negro, cabelos cor de areia em uma cascata de tranças e a velha espingarda da família apontada para eles.

– Aonde pensa que vai, milady?

Sebastian fez menção de erguer as mãos para usar magia, porém a princesa o impediu no mesmo instante. Uma coisa era trancar a irmã em uma sala a outra era mata-la a sangue frio.

– Me deixe ir… não precisa fazer bobagem nenhuma… só me deixe ir.

– Passei a vida inteira ouvindo o quanto você era isso e aquilo. O quanto eu era inútil. Mas, agora, Amélie, eu serei deveras útil. Quando eu acabar com você, o trono será meu!

– Fique a vontade para toma-lo. Eu fugirei, irmã. Já acabei com o mandato de papai, portanto, alegue que ele perdeu suas faculdades mentais. Depois de hoje, irão acreditar. Então assuma seu lugar como Rainha.

Alethea soltou uma risada seca que lembrou uma gralha em leito de morte.

– Você é tão ingênua que nem parece que o crédito pela ideia de destruir essa barbaridade que papai chama de reinado foi seu.

– Que seja! – sussurrou a jovem querendo acabar com aquilo. Apertou a mão do amado procurando conforto. – Permita que ambas sejam felizes. Por favor, me deixe ir! Diga a papai que a culpa foi toda minha. Diga que o trai. É a verdade.

– O papai está morto, Amélie. Você o matou.

Não, pensou ela, não, não, não, não!

– Eu… eu não entendo… está errada! Ele está dormindo. Coloquei um calmante em sua bebida…

– Que eu adulterei há dias, queridinha.

– Por que está sendo má comigo? Está mentindo! – Ela balançou a cabeça sentindo as lágrimas amargas ricocheteando em seu rosto. – Não faz sentido, Alethea. Você não queria que eu fugisse! Disse que ia contar para o pai…Além disso, eu confessei tudo somente hoje. Não tinha como fazer uma coisa dessa há dias.

– Gostou da minha atuação? Você tende a tomar decisões opostas quando alguém quer que faça algo. Considere aquilo como um empurrão, embora eu não esperava que apelaria para violência. – A irmã afagou o local machucado. – Mas foi fácil abrir aquela tranca velha. Tão fácil quanto tramar contra você e papai. Foram bonequinhos de ventríloquo nas minhas mãos, mas agora é hora de finalizar o show. O último grande ato! Havia sido traída. Pela própria irmã. Por quem a menina colocaria a mão no fogo sem hesitar. Porém, o fardo da traição ainda parecia leve. Faltava uma peça que estava guardada em um baú lacrado dentro dela própria, pois não queria enxerga-la. Não podia. Não naquela altura.

– Eu não me importo… – Ela soltou um suspiro. – Só me deixe viver meu contos de fadas.

– Ah, querida, sinto muito. Quem foi que te disse que este contos de fadas é seu? Deveria saber que trapaceiros nunca vencem quanto menos possuem o famigerado felizes para sempre.

Sentiu a lâmina perfurar seu pulmão por trás. Arquejou, entretanto, não era por causa do ferimento. Não. Seu coração quebrava em milhões de pedaços que nunca poderiam se juntar novamente e cada um deles cutucava sua pobre alma.

Sebastian a virou em seus braços fortes, como fez enquanto dançavam pela primeira vez no salão de baile.

– Desculpe, milady. Foi divertido brincar com a senhorita. Mas até brincadeiras divertidas devem chegar ao fim, não é mesmo?

Ele a largou como um pedaço de nada. E como um pedaço de nada ela caiu no chão onde, quando menor, costumava fazer palácios de areia. Naquele instante se desfazia como eles.

A dor lancinante que sentia não era tão profunda comparada ao seu amor sendo calcificado aos poucos. O pai estava certo, Amélie permitiu que este último pensamento a consumisse, o amor era um jogo cruel. E ela havia sido pega na trapaça por trapaceiros mais experientes e espertos. Era um mero blefe quando achava que era uma peça especial no jogo dos amantes.

– Sua irmã me prometeu no verão em que nos conhecemos duas coisas valiosas. – continuou Vettel. – Um reinado de magia livre e uma coroa. Finalmente eu e os meus seremos reconhecidos. Você foi um meio para este fim, alegre-se!

Tirem as máscaras das máscaras, hipócritas!

Amélie nunca viu os olhos azuis gelo do rapaz tão frios. Ou talvez eles sempre haviam sido assim e ela, cega pela paixão, jamais reparou. Não importava. Concentrou-se neles com afinco. Concentrou-se neles mesmo quando a beirada de sua visão começou a embasar. Depois que Sebastian afastou-se para tomar Alethea nos braços e beija-la ardentemente, a jovem inventou os malditos olhos azuis gelo ainda a fitando para poder concentrar-se neles. Porque apesar de todos os grandes e pequenos pesares ela sabia que tinha aprendido a viver livremente quando fascinou-se por aqueles olhos azuis gelo e que morreu no momento em que teve a coragem ingênua de se entregar a eles.

 

Thalita Cristiane da Silva

Thalita Cristiane da Silva

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