Mealladh

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Artur pensou que estava aposentado quando o ilustre convite chegou. Letras douradas engomavam o palavreado chique que dizia nas entrelinhas nada mais e nada menos do que “Venha pegar o último item mágico para finalmente poder concluir sua modesta coleção, velhote.” Quase chorou de emoção. Esperou tanto para ver o reforçado casarão Rouxinol abrir as portas para o público que ser convidado pelos próprios donos para uma exposição de itens mágicos à fantasia soava como uma brincadeira de mau gosto. Mas ele não se importava, teria a chance de colocar as mãos na misteriosa espada Mealladh, cuja a lenda afirmava que sua lâmina havia sido forjada por Morgana para destruir Excalibur e mais tarde, de algum modo, empunhada pela bela Cleópatra. Cujo poder ninguém jamais teve certeza ou sequer pôde compreender. Única. Rara. O objeto de sua vida e alma. Perfeita para descansar no seu depósito, especificamente, no corredor D, estante 15 entre o ovo da fênix e as cinzas do Sherlock Holmes.

__ Ora! Ora! Ora! __ cantarolou enquanto checava se a tampa da garrafa do pequeno saci estava devidamente fechada. __ Preciso me preparar!

Sacudiu uma pixies para obter um pouco de pó de suas asas para ressuscitar uma velocidade que já não existia mais em sua carcaça. Então, juntou tudo que seria útil no roubo. Cuspe de gnomo, veneno de uma das cobras da medusa, uma fada azul muda, um dente de Dragão e outras coisitas. Não demorou nem um pouco para arrumar um traje assim como não levou nem uma hora completa para comparecer ao grande salão lotado de mesas cobertas com toalhas na cor prata, provavelmente, para destoar do dourado encontrado em cada canto.

__ Seja bem-vindo. __ disse o empregado ao vê-lo.

__ Muito obrigado, bom rapaz.

Aceita uma taça de vinho? Claro. Quer um petisco? Claro. Fique à vontade! Claro.

Era evidente que havia se adiantado, já que não via os proprietários em lugar algum e os funcionários não pareciam apreciar sua presença, porém, em compensação, não era o único. Uma maravilhosa banshee vestida de lince o observava.

__ Perdoe a indiscrição. __ começou ela sentando no banco ao seu lado. __ Seria muito rude da minha parte perguntar do que está fantasiado?

__ Não, senhora. __ grunhiu.  __ De um duende, é óbvio.

Na verdade não tinha muita opção uma vez que só havia o terno verde com os compartimentos necessários para sua empreitada. Felizmente, encontrou um trevo de quatro folhas na coleção e uma cartola de um duende real, mas não achou que a mulher quisesse saber disso. Não, seres como ela gostavam de uma boa piada amarga.

__ Ah, sim, combina com sua estatura. __ Ele mordeu um queijo bolorento oferecendo um tempinho para moça mudar de assunto. __ Viu o tamanho do cardápio de exposição? Não sei como os humanos não fazem ideia de que estes itens existem e ainda por cima são mágicos. São mesmo criaturinhas bestas…Oh, mil perdões! Por um momento me esqueci que é um deles!

Ela colocou a mãozinha sob a boca fingindo estar constrangida e Artur apenas queria falar que tinha as cordas vocais de uma banshee dentro de um pote dourado esperando por um par. Mas os senhores Rouxinol, vestidos de James Bond e de mãos dadas, adentraram no mezanino, como um lembrete de que o objetivo real desta chateação toda era realmente mais vindouro. O que se seguiu foi simples: boas vindas, piadinhas, informações básicas e a velha ladainha.

__ … há guardas em cada corredor e sistemas de alarmes nos quartos, portanto, por favor, sejam educadas, crianças. __ A plateia deu risadinhas nervosas. __ É um privilégio poder oferecer esta noite a vocês. Terão uma hora para se aventurarem…

__ Ah, querido, sem mais delongas! __ Eles trocaram um sorriso amável. __ Que a exposição comece!

Artur perguntou-se o que aconteceria caso ele gritasse Aleluia, no entanto, preferiu não chamar tanta atenção para si. Pegou um cardápio e conferiu rapidamente aonde a espada estava sendo exposta. Quarto 13. Quase poético. Quase agourento. Conteve a gargalhada costurando entre os convidados que ao invés de subirem as escadas empacaram em uma conversa. Idiotas, pensou ele, quando um Rouxinol te dá um hora para apreciar sua coleção deve aproveitar com afinco.

Ele aproveitaria.

Cada segundinho.

Subiu os degraus com pressa ignorando a decoração elaborada e rica de quem tinha dinheiro para jogar fora. Ficou feliz ao ver poucas pessoas no primeiro corredor, significava menos trabalho. Piscou para os dois guardas e continuou andando tranquilamente. Só precisava chegar até a segunda escadaria. Ao segundo corredor. Porta 13. E enfim, paz.

Mealladh.

Então houve aquela risada.

Aquela risada musical junto com o corpo magro vestido em um terninho de grife, cartola cheia de glitter e gravata borboleta. Ela sacudia sua varinha mágica para um garçom como costumava fazer com seus ursinhos. A tatuagem de serpente começando em sua têmpora e se perdendo a baixo da clavícula era uma mancha de palavras fúnebres na mente de Artur. Um tempo em que aquele mulherão era apenas uma garotinha querendo o contrariar.

__ O que faz aqui? __ pegou-se a indagando como costumava fazer.

__ Ora, o que você faz aqui? __ retrucou.

__ Pelo que eu me lembre esta exposição é só para convidados Encantados, Miranda.

__ E desde quando você é um Encantado?

Odiava aquilo. As perguntas. Sempre as perguntas afiadas prontas para perfura-lo sem aviso prévio.

__ Estão acostumados com a minha presença entre eles.

__ Pois bem, tal pai, tal filha.

Ela gargalhou de novo. Soava como um soco, o afundando para dentro de si. Sacudiu a cabeça, lembrando-se que não havia tempo para nostalgia. Tinha que se livrar de Miranda o quanto antes. Estava prestes a dizer até nunca mais quando a filha o interpretou feito um de seus livros favoritos.

__ Não faça bobagem, velhinho.

__ Estou aposentado. __ Desviou os olhos. __ Vim somente apreciar uma bela coleção.

__ Claro, claro. O que está louco para ver? __ sua voz se tornou um sussurro. __ Ou pegar?

__ Aposentado. __ recordou ele, acrescentando mais uma mentirinha. __ Quero muito ver as três joias perdidas da coroa da Rainha. Os rumores espalham que elas possuem propriedades de cura e longevidade. Nunca coloquei os olhos em tamanho item!

__ Incrível. Vou junto.

Ele se segurou para não protestar, xingar ou empurra-la para longe. Se manteve firme com seu maior sorriso de blefe. Talvez depois da visita precisasse ir ao banheiro. Sim, Miranda não poderia segui-lo até lá.

Mas, talvez, o esperasse na porta.

Cerrou os punhos. A maldita adorava atrapalhar seus planos, era sua sina.

__ Sim, vamos, é por aqui. __ disse, calmo. __ Está no quarto quatro.

__ Uau, eles não economizaram na tinta dourada. __ comentou ela ao entrar com uma pontinha de escárnio. __ Nem nas prisãozinhas brilhantes, provavelmente, feitas de diamantes.

Prisãozinhas. Eram domos, Artur quase a consertou. Entretanto, havia algo na filha que lhe dizia para não cometer tal burrice. Então, contentou-se em garantir que não se tratava de diamante. Se fossem nunca conseguiria pegar Mealladh.

Ah, Mealladh.

Precisava de um plano.

Observou com uma atenção fingida as belas joias da coroa, embora achasse que Miranda soubesse que estava fingindo. Ignorou isto também. Não tinha o dia todo para tentar compreender a filha, já que não havia conseguido realizar este milagre nem nos quinze anos que a teve em sua casa.

__ Esplêndida, não? __ perguntou ele apontando para uma pequena ninfa dourada encolhida no domo disposto no meio da sala. Tinha três daquela no depósito, eram difíceis de serem pegas, mas nada que uma armadilha bem elaborada não desse um jeito.

Miranda deu de ombros parecendo ofendida, quase enjoada. Artur bufou. A espada poderia esperar uns cinco minutos, afinal havia aguardado por ela uma vida inteira.

__ O que acha disso tudo? __ continuou o velho abrindo os braços para demonstrar que falava da exposição por completo.

__ As vezes tenho a ligeira impressão que as pessoas de hoje em dia perguntam a opinião dos outros somente para se oporem a ela.

__ Eu não sou uma pessoa de hoje em dia, querida.

__ Pois é, e, no entanto se encaixa perfeitamente a elas.

Quando foi que sua garotinha de olhos valentes havia crescido tanto?

Artur se virou pronto para perguntar a filha exatamente isso, porque era seu direito de pai saber a resposta. Porque almejava por ela. Almejava recordar o exato momento em que aquela pureza ingênua havia desgrudado dela feito band-aid somente para coloca-lo em um vidrinho junto com sua coleção.

Mas o quarto estava vazio.

Miranda não estava em lugar nenhum.

Soltou um suspiro incrédulo e juntou as mãos no peito como se fosse encontra-la ali. Milhões de pensamentos foram criados e automaticamente descartados em sua mente.

__ Miranda? __ chamou.

Chamaria três vezes.

__ Miranda? __ e logo depois: __ Miranda?

Três vezes.

Sentia muito. E nada.

Rodou nos calcanhares para se certificar de que ela não estava escondida atrás de algum item. Não, estava sozinho. Como sempre. Portanto, precisava continuar. Não iria entrar na dela. Não iria correr pelo casarão berrando seu nome. Não iria se desesperar. Tinha uma missão.

Tinha a espada Mealladh no bendito quarto 13.

Atravessou a porta, o corredor, a segunda escadaria. Estalou os dedos com o precioso anel do Houdini mandando a nova dupla de guardas para um sonho acordado provavelmente maravilhoso. Não pensou na filha. Não pensou nela encurralada, sequestrada ou morta.

Não pensou.

Apenas percorreu o pouco que o separava do triunfo de sua vida, parando somente para surrupiar uma moeda esquecida no carpete vermelho.

__ Você? __ murmurou uma voz distinta.

__ Sim? __ disse erguendo os olhos, surpreso, pois tinha certeza de que, tirando os caras nas nuvens, estava sozinho.

Deu um passo para trás.

Depois outro.

Havia alguém. Um homem embalado a vácuo em roupas pretas e usando a sombria máscara dos médicos da peste. Um homem que trocava os peso dos pés sem parar. Um homem estagnado em frente a porta 13.

Deve ser louco, pensou Artur, a loucura é comum nas pessoas de hoje em dia. Até mesmo entre os Encantados. Mas será que ele podia fazer o favor de exercer o árduo trabalho dos lunáticos em outro lugar?

__ Tudo bem, senhor?

O sujeito parou e, então, lentamente, virou-se para ele. Não houve segundos de silêncio amontoados de forma angustiante nem grunhidos metálicos ou algo assim. O louco simplesmente correu na direção de Artur como se estivesse atrasado para grudar em seus ombros e sacudi-lo. Em um milésimo frio os círculos de vidro vazios que eram os olhos da máscara refletiam o pânico que cobriu o velho e no outro ele não encarava nada além do gesso elaborado do teto.

__ Papai.

Miranda.

Não.

Não era ela.

Pezinhos chutaram sua perna. Pezinhos que logo ganharam um corpo, um vestido de algodão simples e cachos loiros volumosos escondendo um rosto.

__ Papai.

Artur fechou os olhos, porque não era real. Não podia, portanto, não seria. Fechou os olhos e os apertou com firmeza enquanto rezava baixinho para Mealladh.

__ Papai.

Algo puxou suas pálpebras. Sua carne. Algo queria que ele visse. Despertasse. Sentiu alguns cílios serem arrancados. Sentiu a urgência daquilo junto com a certeza de que se não cedesse acabaria danificado.

__ Papai.

De repente o velho teve que rir de si mesmo. Por que nutria tamanho medo? Ele era Artur, o infame colecionador de itens mágicos, que praticava o ato de caçar criaturas da mesma forma serena com que limpava os dentes. Era ridículo se preocupar, ainda mais quando tinha um presentinho para garota em um dos compartimentos do terno. Puxou o dente de Dragão do bolso esquerdo e quando finalmente abriu os olhos desejou não ter feito. O presentinho caiu no chão retumbando uma vez.

Não, três.

Talvez centenas e centenas de vezes.

Não importava.

Quatro íris leitosas moldadas por um rostinho decorado com veias grossas e negras analisavam Artur placidamente. No entanto, não foi o horror daquilo que o fez proferir todos os palavrões que conhecia e empurrar o treco para longe. Não. O que o cutucou verdadeiramente na ponta do estômago foi a estranha sensação de familiaridade. Mas como aquela aberração poderia ser familiar? Se lembraria de tê-la visto, não? E como algo do qual não se lembrava de fato poderia ser sequer familiar?

O velho não tentou preencher as lacunas, apenas aprumou-se como pôde e manteve uma distância segura do espécime.

__ Me deixe em paz! __ berrou, torcendo para soar corajoso.

A menina quase deu de ombros, caso este termo se aplicasse a convulsionar enquanto as garras de seus dedos finos agarravam a própria garganta.

__ Pare com isso. __ pediu __ Por favor, pare com isso.

O desespero era grande, pois ele sabia o que viria depois, embora não fizesse ideia do porque ou do como. Mas sabia. Não tardou para a pequena boca se escancarar, quanto menos para o líquido vermelho jorrar por ela feito uma fonte doentia.

Uma fonte de sangue cheirando a morte eminente.

Artur correu para porta 13, girando a maçaneta com tamanha força que temeu quebra-la. Ao conceder a curiosidade uma única olhada para trás antes de passar para o tão almejado cômodo, viu o que parecia a onda de um mar após um tsunami tingido na cor vinho intenso, faminto por cada metro quadrado que surgisse a frente. Alguém mórbido estava distorcendo o sonho secreto do velhote de encher o box do banheiro até o teto, porém ele não quis ficar para aprecia-lo. Fechou a porta e encostou-se nela por um mísero instante. Que inferno, pensou. Mas logo constatou que o inferno podia piorar. Outra porta 13 brilhava em meio ao breu a centímetros do seu rosto. Teve que soltar um muxoxo. Achava-se tremendo dos pés a cabeça e não era de medo.

Era raiva.

A mais pura e cintilante raiva.

Os céus, o destino, o universo ou o raio que o parta estava rindo da sua cara com gosto. No entanto, Artur não podia permitir que os acontecimentos mais bizarros de sua vida o impedisse de roubar a espada Mealladh. De empunha-la como Cleópatra e de sentir a lâmina fria forjada por Morgana sob a ponta dos dedos. A sensação de poder ter o cabo perfeito em suas mãos misturada a ambição que o devorava desde sempre o fez girar a próxima maçaneta.

E a próxima.

E a próxima.

E a próxima.

E a próxima.

__ Papai.

Estremeceu.

__ Miranda! __ permitiu-se dizer o nome dela como uma espécie de praga.

Porque a culpa era dela. Sua filha. Sim. Só podia ser tudo culpa dela. A menina que berrou que o odiava. A menina que fazia questão de quebrar suas regras apenas por diversão. A sua menininha. Sua. Tão sua e tão de qualquer um.

A culpa era toda dela.

maldita maldita maldita maldita maldita

Então a viu.

Do outro lado do batente. A faca fina apontada para seu abdômen. Um Rouxinol James Bond para cada braço. A maquiagem borrada pelo choro.

A sua maldita menina.

Ali.

Aos pedaços.

__ O que vocês pensam que estão fazendo? __ grasnou palavras que vieram tão fáceis que imaginou se já não as tinha proferido.

__ Nos dê a chave do depósito que soltamos sua filha.

Ele deixou a risada seca fugir livre pelo ar.

__ O quê? Acabei de presenciar um treco cuspir uma torrente de sangue depois de ter sido derrubado por um maluco! Sem contar as trezentas portas que tive que passar até parar aqui! Pelo amor, já chega! Chega! Não aguento mais! Suponho que colocaram alguma coisa nos meus petiscos, não? Ou será que foi no vinho? Estão ao menos achando essa merda divertida? __ Esfregou os olhos com as mãos querendo, em vão, se impedir de dizer o resto. __  Olhe, a ideia foi sua Miranda, não foi? Meu aniversário é semana que vem, portanto, provavelmente, deduziu que fazer do meu dia um inferno seria um ótimo presente! Pois bem, muito obrigado! Agora, chega, a brincadeirinha acabou.

Os senhores Rouxinol se entreolharam.

__ Está vendo alguém rir? __ perguntou um deles enquanto subia a faca para o braço de Miranda.

__ Acho que temos que mostrar que não estamos brincando, querido.

Houve um instante em que Artur desejou que largassem seus postos para gritarem Feliz Aniversário!, mas o que veio a seguir foi a lâmina cortando a pele macia do braço de sua filha libertando um pequeno lago de sangue para fora. Miranda soltou um soluço e cravou nele seus belos olhos ardentes, como se, por ser quem era, não pudesse parecer fraca. O velho, por sua vez, limitou-se a dar um pequeno passo para trás.

__ Nos dê a chave, velhote! Agora!

Aquilo era real, porém não parecia. Devia estar em um pesadelo vívido.

Quando acordaria?

__ Por que querem meu humilde depósito? São podres de ricos…

__ Já tentamos comprá-lo, mas o senhor nos ignorou.

__ Não tem nada de especial lá…Pelo menos, não em comparação com os itens que possuem.

Quando acordaria?

__ Acho que sabe que um colecionador nunca termina sua coleção, não é?

Ele terminaria. Era uma promessa. Assim que acordasse daquela loucura pegaria a espada e se aposentaria de uma vez. Para sempre.

Quando acordaria?

__ Nos dê a chave.

__ Não posso. __ e nunca soou tão sincero.

__ Tem certeza?

__ Não posso.

__ Não pode? __ Um brilho sombrio vibrou de um Rouxinol para o outro. __ Ou não quer?

Artur já tinha respondido essa pergunta quando saiu da sua casa para aquela exposição. A repetiu no exato momento que Miranda desapareceu. Depois só colocou o sinal de igual diversas vezes nas linhas a baixo. De modo que, naquela hora, faltava apenas traçar sua assinatura com sangue.

Tudo nos conformes.

Portanto, a faca desceu suave entre as costelas da sua garotinha que não era mais uma garotinha quanto menos sua. O pavor percorreu seu rosto, mas a dor crucial quem sentiu foi o velho. Ele jogou-se na direção dela, a pegando nos braços e dando de ombros para os pensamentos que lhe diziam que aquilo tudo não passava de um pesadelo cruel. Sangue vivo brotou do terninho de grife escorrendo pelo carpete como as ondas guardadas atrás de uma daquelas infinitas portas.

__ Criança. __ sussurrou. __ Minha criança.

Miranda não estava em lugar nenhum e desta vez não havia precisado sumir. Os olhos frios ainda desafiavam Artur, o que o obrigou a considerar sair dali a procura de Mealladh. Afinal, talvez ninguém notasse os estragos. Talvez pudesse ao menos coletar as lágrimas indecisas que percorriam sua bochecha para armazena-las em algum canto da estante. Talvez fosse melhor levar a faca como recordação, já que querendo ou não o cabo era de um cinza vistoso ponderado com intrincados dourados e na ponta uma pedra semelhante a um olho de tigre o encarava. Certamente seria agradável admira-la, embora jurou nunca se lembrar de como a havia obtido. Decidido, a puxou com força para superfície sentindo seu material rigoroso pressionar a palma da mão.

Então, a soltou junto com um gemido vindo das profundezas de seu ser.

__ Meu Deus.

Mealladh.

A faca era a espada.

Sua espada na sua menininha.

__ NÃO.

Olhou em volta desejando não ver o que sabia que veria. Estava no quarto 13, sabia que estava. Paredes douradas. Carpete vermelho. Domo no centro violado pelo cuspe ácido de gnomo. Sprinklers acionados pela fumaça do charuto francês. O som do alarme de incêndio se sobrepondo ao do alarme de roubo. A dupla no final do corredor provavelmente flutuando em suas próprias mentes. Todo o seu plano. Ali, acontecendo. No entanto, algo destoava feito um fiapo de pelo de gato em uma roupa preta.

Miranda. No chão. Sem respirar.

Artur afastou-se dela indo parar contra parede. Encolhido, pequeno, tentando raciocinar. – Você? – disse a voz e desta vez ele tinha certeza de quem ela pertencia.

__ Cale a maldita boca! __ berrou tapando os ouvidos.

__ Não seja infantil, Artur. Estou na sua cabeça. Na sua corrente sanguínea. Na sua alma, se é que você tem uma.

__ Não, não, não, não, não.

__ Você nunca aprende?

Balançou a cabeça rapidamente não querendo ver a lâmina dourada da almejada espada ganhar um brilho hostil. Predatório. Não querendo achar essa cena familiar. Não podendo colocar a última peça do quebra-cabeças.

__ Como se sente na minha estante?

__ Isso não é real!

__ Isso? __ sarcasmo fluiu de cada letra. __ Isso é real, Artur. Diferente das outras centenas de vezes que foi convidado para uma exposição a fantasia que acontece em um loop eterno e divertido.

__ Não entendo.

__ Você não quer entender, querido. É diferente. Vou te contar o que sempre te conto. __ O tom foi pincelado com uma nota de confidencialidade patética. __ Este é o meu poder. O meu legado. Sou Mealladh, a espada da ilusão e adoro exercer isso em um ser que merece tanto. A nossa brincadeirinha funciona da seguinte forma: Te deixo livre para opinar sobre uma mesma trama e você sempre acaba desse jeito. Prefere se apegar a sua ambição e egoísmo do que salvar a própria filha. Escolhi a mim, um simples item mágico misterioso. Por isso, pensei que se sentiria lisonjeado em saber pela vigésima quinta vez que é o último item da minha coleção…Acomode-se, velho bobo, o infinito é realmente muito grande e o seu se assemelha ao que os humanos chamam de Inferno!

Uau, eles não economizaram na tinta dourada. Nem nas prisõezinhas brilhantes, provavelmente, feitas de diamantes.

Artur engatinhou até Mealladh tocando o cabo com um certo carinho apressado e a muito esperado. Uma parte dele ainda afirmava que talvez uma porta o mandasse para fora dali. Talvez fosse realmente um pesadelo. Talvez. Podia empilhar os talvezes em um grande monte que talvez o levasse a uma dimensão paradisíaca.

Talvez eu esteja ficando louco como as pessoas de hoje em dia, pensou o velho.

Entretanto, as esperanças que nutria foram assassinadas sem piedade por uma risada frenética que ecoou pelas paredes. Pelo seu novo mundo. Pela sua nova estante. Pelo seu lar.

__ Pois é, Miranda estava certa, você se encaixa perfeitamente às pessoas de hoje em dia, Artur.

Viu o cansaço abraça-lo feito um amigo de longa data. Viu uma Miranda de nove meses no cadeirão falar Papa pela primeira vez. Viu a chama dourada na lâmina esplêndida de Mealladh forjada por Miranda, empunhada por Cleópatra e eterna carcerária do seu ser moribundo aumentar ao ponto de consumi-lo inteiramente.

Choveu no seu domo de diamantes.

Choveu gotas de cenas iguais.

Familiares.

Esquecidas.

Novas.

Jamais vistas.

Artur pensou que estava aposentado quando o ilustre convite chegou. Letras douradas engomavam o palavreado chique que dizia nas entrelinhas nada mais e nada menos do que “Venha pegar o último item mágico para finalmente poder concluir sua modesta coleção, velhote.” Quase chorou de emoção. Esperou tanto para ver o reforçado casarão Rouxinol abrir as portas para o público que ser convidado pelos próprios donos para uma exposição à fantasia soava como uma brincadeira de mal gosto.

Mas ele não se importava.

Thalita Cristiane da Silva

Thalita Cristiane da Silva

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