Eu sou a cobaia

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Abri meus olhos com dificuldade, a luz que vinha do teto era ofuscante. Eu me sentia zonza, mas aos poucos meus sentidos foram voltando. Olhei ao redor e percebi que estava em um quarto branco, onde só havia a maca em que eu estava deitada e um aparelho que parecia monitorar meus batimentos. Não conseguia me lembrar de como havia chegado ali, se eu estava em um hospital, então devia ter sofrido algum acidente.

Percebi que o único som que eu escutava vinha dos bipes do monitor ao meu lado, o que era muito estranho. Procurei ao meu redor pelo botão onde poderia chamar uma enfermeira, mas não encontrei nada.

Me sentei na cama e avistei uma mesa pequena perto da porta, com uma prancheta em cima, que imaginei ser meu prontuário. Ele me ajudaria a descobrir o que tinha acontecido comigo.

Me estiquei para fora da cama e arrastei o suporte do soro junto comigo. Cambaleei com dificuldade até o lado da mesa e, quando minha visão se esclareceu, peguei a prancheta. Dei de cara com uma foto do meu rosto desacordado, corri meus olhos pela página, mas não encontrei meu nome. Ao invés disso, em letras bem grandes se lia: Cobaia Y16. E logo abaixo dizia que a causa do óbito era morte encefálica.

Um arrepio percorreu toda minha espinha e a prancheta escorregou das minhas mãos, aquilo não fazia o menor sentido. Decidi ir atrás de um médico para avisar que havia um erro no meu diagnóstico. A porta do quarto dava para um corredor comprido, mas não havia ninguém nele. Me lembrei que já tinha sido voluntária na ala de pediatria do hospital quando estava no ensino médio, mas não reconheci aquela parte. Segui pelo corredor e fui olhando pelas janelinhas dos quartos para ver se havia algum outro paciente, mas todos estavam vazios. Ouvi um barulho vindo do final do corredor e continuei andando, esperando encontrar pelo menos uma enfermeira. Assim que parei na frente da última porta daquele corredor, olhei através da abertura de vidro e não consegui entender o que via.

Lá dentro, pessoas estavam amarradas em macas, com as cabeças ligadas ao que pareciam capacetes, de onde saíam vários fios e cabos que se conectavam a um computador. Alguns eram adolescentes e outros adultos, todos aparentavam estar inconscientes, com a pele de todo o corpo extremamente pálida. Percebi dois médicos em pé segurando pranchetas parecidas com aquela do meu quarto e analisando algo em um dos monitores. Logo uma mulher entrou na sala por uma porta lateral, ela tinha metade do rosto tapado por uma máscara e empurrava um carrinho de mão com várias seringas enfileiradas sobre uma bandeja. Um dos médicos apontou para o homem desacordado na primeira maca, ela esticou e vestiu um par de luvas azuis, pegou uma das seringas e, sem hesitar, aplicou aquele líquido amarelado no pescoço dele. No mesmo instante ele começou a se debater como se estivesse levando um choque. Sem perceber, deixei que um grito de horror escapasse dos meus pulmões. Eles olharam imediatamente em minha direção.

 

HORAS ANTES

Preciso falar com você urgente!

Dizia a mensagem que Mike havia me enviado enquanto eu tomava café da manhã na cozinha. Eu estava sozinha em casa, meu irmão já estava no trabalho e meus pais tinham ido ao supermercado. Mandei mensagens perguntando o que tinha acontecido, ele visualizou, mas não respondeu. Fiquei nervosa e preocupada que alguma coisa pudesse ter acontecido com ele, então corri para me trocar e dirigi até sua casa, que não ficava muito longe da minha.

Estacionei o carro na entrada da garagem e entrei pela porta lateral que sempre ficava destrancada. Subi direto para seu quarto, onde ele provavelmente estaria. Quando abri a porta, o vi sentado na beirada da cama mexendo no celular. Ele se assustou com a minha chegada repentina, mas logo fechou a cara.

— O que você precisa falar urgente comigo, Mike? Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Posso saber quem era o cara que você ficou desfilando por aí ontem? Meus amigos viram e ficaram me enchendo depois, o que afinal vocês foram fazer lá no café?

Bufei sem acreditar que ele tinha me deixado nervosa a ponto de correr até sua casa por uma bobagem daquelas.

— Mike, eu estava fazendo um trabalho, ele é da minha sala na faculdade, seus amigos por um acaso me viram fazendo algo de mais?

Eu e Mike tínhamos nos conhecido no ensino médio, quando nosso professor de química o escolheu como meu parceiro de laboratório, então acabamos nos conhecendo melhor e depois de um tempo nos apaixonamos.

Tudo ia muito bem até entrarmos na faculdade, foi aí que os amigos dele começaram a fazer de tudo para tentar nos separar, inventando coisas para que ele ficasse bravo comigo, pois achavam que eu era apenas uma distração que tirava o foco dele nos treinos de futebol.

— Então que trabalho é esse que vocês fizeram? — Mike me perguntou com os braços cruzados sobre o peito.

— Foi sobre um escritor de poesia da era medieval. O trabalho ficou muito bom, posso te mostrar depois se quiser, o arquivo ficou com o Denny porque tinha que fazer mais alguns ajustes.

— Por que vocês tinham que ir justo no café onde sempre vamos? Não tinha um lugar melhor?

— Você queria que eu o chamasse para fazer o trabalho na minha casa? Ou que eu fosse na casa dele? O café era o lugar mais próximo para nós dois.

— Tudo bem, Wendy, que seja! Eu não quero mais falar sobre isso.

— Eu também não, você está sendo imaturo de novo, eu já disse que esses amigos seus ficam colocando coisas na sua cabeça pra você terminar comigo. Querem que você fique abitolado igual a eles que não tem vida além do futebol.

— Talvez eu faça isso mesmo, você está muito diferente de quando eu te conheci — ele disse olhando para a parede.

— O único que mudou foi você, desde que entrou no time. Eu não tenho culpa que você deixe que eles te influenciem tanto.

— Eu não queria mais continuar aquela conversa, sabia que não acabaria em lugar nenhum. Saí e fechei a porta atrás de mim.

Entrei no meu carro e enquanto dirigia de volta para casa, várias coisas passavam pela minha cabeça. Lembrei do meu último aniversário, em que ele organizou uma festa surpresa para mim junto com nossos amigos e do sorriso que estampava seu rosto só por me ver feliz naquele momento, logo me vi lutando contra as lágrimas que encharcaram minha visão. Passei direto pelo cruzamento me esquecendo de parar no semáforo, mas quando pisei no freio já era tarde demais.

 

 

A primeira reação que tive depois do que vi foi arrancar o soro do meu braço e sair correndo para escapar dali imediatamente. Entrei na primeira porta que vi para tentar despistá-los, mas congelei quando me deparei com fileiras de macas por todo lado, cada uma coberta por lençóis brancos que pareciam esconder mais corpos. Minha respiração começou a acelerar. Se não conseguisse sair logo dali, a próxima poderia ser eu.

Os ouvi se aproximando, então passei por entre as macas e corri para a outra porta no fundo da sala. Dei de cara com uma mulher velha que apareceu do nada e esbarrei no carrinho de limpeza que ela empurrava, seus produtos e utensílios se espalharam por todo lado, escorreguei no chão molhado e os médicos gritaram para que ela me segurasse, mas agi primeiro e a empurrei contra eles. Não sabia mais para onde correr, até que ouvi o som de uma trava. Outra mulher usando fones de ouvido ia entrando, ela se assustou ao me ver, mas antes que pudesse me impedir de sair, eu avancei correndo para o lado de fora.

Me vi em um estacionamento quase vazio, corri então o mais rápido que pude, os médicos ainda estavam atrás de mim e gritavam que eu me arrependeria de ter feito aquilo. A saída do estacionamento dava para uma rua de terra, mas ao invés de seguir por ela corri por uma trilha em meio ao mato que cercava tudo ao redor. A trilha era muito fechada e parecia pouco utilizada, muitos galhos e pedras no chão machucavam meus pés descalços. As árvores arranhavam meus braços, mas não desisti, eu precisava sair daquele lugar e encontrar meus pais para entender o que tinha acontecido. Só parei de correr quando não ouvi mais o barulho deles me procurando e seus gritos desesperados me chamando, parecia que a perseguição tinha durado horas, mas eles finalmente haviam desistido. Me sentei em um tronco de árvore que estava caído no meio do caminho, cansada e com sede. Abracei os meus joelhos e comecei a chorar.

Não sei quanto tempo fiquei sentada naquele tronco, mas ouvi de repente um som que aparentava não vir de muito longe, pareciam carros passando. Avancei em direção ao som e aos poucos uma estrada se formou a minha frente. O tráfego era pouco, mas me escondi atrás de uma árvore para que ninguém me visse.

Esperei até que os carros passassem e avancei na direção em que todos estavam seguindo. Depois de alguns minutos correndo, saí da estrada e entrei no que parecia ser um centro comercial, logo percebi que não teria como me esconder das pessoas que estavam ali, então decidi perguntar para alguém onde eu estava e como fazia para chegar até minha casa.

Entrei em uma mercearia e segui para o caixa onde um senhor estava fazendo palavras cruzadas em um jornal, ele me olhou espantado por cima dos óculos.

— O que houve com você, menina? De onde você veio? Eu provavelmente estava toda suja e desgrenhada por ter passado entre os galhos para chegar até estrada, meu corpo e meus pés doíam muito, então me apoiei no balcão para poder descansar.

— Por favor, me ajuda, onde eu estou?

— Mas o que aconteceu? Como chegou até aqui?

— Por favor, senhor, eu preciso de ajuda para chegar até minha casa, eu me perdi. — Optei por uma mentira razoável para explicar o meu estado, mas tinha esperança de que ele não percebesse minha camisola de hospital.

— Pai, o que está acontecendo? Quem é essa garota? — perguntou uma moça que veio de um dos corredores segurando uma etiquetadora de preço na mão.

— Ela disse que se perdeu — respondeu o senhor. — Venha, sente-se aqui e descanse enquanto eu busco um pouco de água para você.

Os dois atravessaram uma porta para os fundos da loja. Depois que me sentei percebi o quanto estava cansada, as solas dos meus pés estavam machucadas e eu tremia. Quando eles voltaram, o senhor me estendeu um copo com água que bebi em segundos, ele também deixou um par de chinelos perto dos meus pés para que eu pudesse calçar.

— Agora me conte o que houve com você, menina — ele disse pegando o copo da minha mão e entregando a sua filha que me olhava de um jeito desconfiado, eu teria que pensar em um jeito de conseguir que eles me ajudassem sem envolver a polícia, porque eu poderia acabar sendo levada para um hospício ou de volta para aquele lugar.

— Eu só preciso chegar em casa, meus pais devem estar preocupados comigo, por favor, me ajudem! — Comecei a chorar e a filha do senhor o puxou pelo braço, eles se afastaram de mim e começaram a cochichar. Alguns segundos depois, eles voltaram e o senhor me entregou um papel e uma caneta.

— Anota seu endereço aqui, minha filha vai ligar para um táxi. — Escrevi meu endereço no papel com dificuldade, pois as lágrimas não paravam de rolar.

— Muito obrigada por me ajudar, não sei mais o que eu poderia fazer, preciso ir para casa ver meus pais, com certeza eles vão saber o que fazer.

— Tudo bem, menina, só vai para sua casa, fique junto de seus pais e não se meta em problemas.

Depois de uns minutos o táxi chegou e a filha do senhor me ajudou a entrar, eu o ouvi dizendo para o taxista me levar ao endereço que estava escrito no papel e em seguida lhe deu algumas notas de dinheiro. Então o taxista seguiu pelas ruas sem dizer nada sobre meu estado. Aos poucos fui reconhecendo a paisagem lá fora quando ele entrou em meu bairro, e quase desmaiei quando vi minha casa.

— Esse é o endereço certo, moça? — perguntou o taxista me olhando pelo espelho retrovisor.

— Sim, essa é minha casa, muito obrigada por me trazer.

— Tudo bem, tome cuidado ao sair. — Ele realmente não parecia se importar com meu estado porque assim que fechei a porta do carro, ele arrancou e me deixou sozinha no meio-fio.

Fui para a entrada de casa, mas a porta estava trancada, toquei a campainha várias vezes, mas não houve resposta. Eles não estavam em casa. Decidi ir até a casa da vizinha que era muito amiga de meus pais e perguntar se ela sabia onde eles tinham ido, mas ela também não estava em casa. Percebi então que a rua toda estava silenciosa demais, como se todos tivessem saído ao mesmo tempo.

Onde será que estavam todos?

Então me lembrei que meus pais costumavam deixar uma chave de emergência dentro de um dos vasos de flores na varanda e fui até lá procurá-la. Para minha sorte, ela ainda estava lá. Tranquei a porta novamente e fiquei totalmente aliviada assim que entrei e senti o conforto de estar em casa. Chamei por meus pais, mas a casa estava realmente vazia. Caminhei até a cozinha, bebi mais um pouco de água e fui para o sofá esperar por eles. Se eu não estivesse tão cansada, teria ido tomar um banho, mas adormeci logo em seguida.

Acordei assustada quando senti algo molhado me cutucando, não sabia quanto tempo tinha dormido, a casa estava escura e escutei barulho de chuva. Me sentei depressa e vi que meu irmão segurava o enorme guarda-chuva do papai, ele parecia estar um pouco molhado e estava branco como se tivesse visto um fantasma.

— Bryce, o que aconteceu? Onde você estava? — Ele derrubou o guarda-chuva no chão e foi se afastando de mim, levantei do sofá e vi que meus pais estavam com a mesma expressão que meu irmão. Lágrimas escorriam pelo rosto de minha mãe que parecia estar muito abatida. Todos usavam preto. Olhei para eles sem entender o porquê de eles estarem me tratando assim, eu tinha passado por maus bocados para chegar até aqui, esperava que eles estivessem preocupados comigo.

— Mãe, pai, o que houve? — Eles não chegavam perto de mim, e se eu dava um passo, eles recuavam. — Por que estão agindo assim? Vocês não sabem o que passei para chegar até aqui.

— Você não é minha irmã, minha irmã morreu! Acabamos de chegar do enterro dela.

Não acreditei no que tinha acabado de ouvir. Meu irmão disse que tinha acabado de chegar do meu enterro, mas por que pensavam que eu estava morta? Me lembrei do prontuário que vi quando acordei naquele lugar, dizia que eu havia sofrido uma morte encefálica.

Será que isso era mesmo verdade?

— Como posso estar morta, se estou bem aqui? Eu acordei em um lugar estranho, vi médicos torturarem pessoas e corpos para todo lado. Se eu fosse um fantasma, as pessoas não me enxergariam, aquele senhor não teria pagado um táxi para me trazer até aqui.

— Me diga quem é você e como chegou aqui — disse meu pai apontando o dedo para mim.

— Eu já disse, pai, sei que parece loucura, mas é a verdade, confiem em mim! — Eu estava começando a acreditar no que meu irmão disse sobre eu ter morrido. Meus pais nunca agiriam assim de brincadeira, eles sempre foram compreensivos e muito amorosos comigo e meu irmão, mesmo assim ainda restava dentro de mim um resquício de esperança de que tudo aquilo não passasse de um mal entendido.

— Se você é mesmo minha filha — disse minha mãe saindo de trás de meu pai e meu irmão. — Como eu te chamava quando você era pequena? — Eu podia ver todo o desespero que ela sentia naquele momento através de seus olhos, eu estava com muita vontade de abraçá-la, mas temia que isso a assustasse.

— Você me chamava de estrelinha, porque eu ficava no meu quarto deitada no tapete que a vovó fez para mim, olhando as estrelas coloridas que o papai colou no teto quando eu tinha seis anos. Você continuou me chamando assim até minha adolescência, quando eu brigava com você, porque me sentia velha demais para aquele apelido. — Naquele momento todo o desespero que ela sentia se dissipou e eu só vi alívio, então ela abriu os braços e eu corri e me aconcheguei no seu abraço. Aquele foi o melhor momento do dia, ela acreditava que eu estava ali, que era sua filha, independentemente das circunstâncias.

Não me lembrava por quanto tempo nós quatro ficamos conversando na cozinha, eles me fizeram sentar e descrever, nos mínimos detalhes o que tinha acontecido. Contei tudo o que conseguia me lembrar enquanto minha mãe preparava algumas torradas, só depois que senti o cheiro percebi o quanto estava faminta. Eles ficaram aterrorizados com meu relato, mas logo quis saber o que tinha acontecido para eu ter ido parar naquele lugar.

Eu não estava pronta para ouvir aquilo.

Depois que saí da casa de Mike onde havíamos discutido, eu passei em um sinal vermelho e um caminhão que fazia o cruzamento bateu no meu carro. Fui socorrida pelos paramédicos, mas morri a caminho do hospital, e quando meus pais chegaram lá, eu já estava no necrotério. Os médicos disseram a eles que eu deveria ser enterrada às pressas, pois meu corpo estava muito frágil pela pancada que havia sofrido. Então eles tiveram que fazer meu funeral o mais rápido possível e me enterraram no dia seguinte logo pela manhã.

— Espera. Se você nunca esteve naquele caixão, o que era aquilo que enterramos? — Bryce disse e todos ficaram alarmados, como se só agora tivessem se dado conta daquele fato. — Pai, mãe, nós fomos enganados! Isso que a Wendy acabou de nos contar sobre ter visto os médicos torturando pessoas naquele lugar não faz muito sentido, e se ela presenciou outra coisa? Nós vimos como ficou o estado do carro depois do acidente, vocês acham que ela estaria assim tão inteira só com alguns arranhões? Como em tão pouco tempo ela pode ter se recuperado dos ferimentos do acidente? Eles devem possuir algum tipo de tecnologia avançada capaz de curar, senão como explicar essa recuperação tão rápida que ela teve? E todas as lesões e fraturas que o médico nos disse que ela havia sofrido por causa do impacto?

“E se eles se deram o trabalho de curá-la depois do acidente, eles não iriam matá-la. Com certeza pretendiam usá-la desde o início para alguma coisa, por isso não nos deixaram ver o corpo dela quando chegamos ao hospital.”

— Eu não acredito que tiveram coragem de fazer isso — disse minha mãe desacreditada.

— Acabei de me lembrar que já li um artigo sobre esse assunto há alguns anos, na época achei que era tudo ficção, não acreditei ser algo real. Me lembro de que esses pesquisadores injetavam algum tipo de droga na pessoa, e depois davam choques nela para que desenvolvessem sentidos mais apurados ou até poderes sobre-humanos, mas não eram todos que sobreviviam a esse procedimento. Não acredito que realmente existem pessoas capazes de cometer um ato tão desumano, e que você estava prestes a ser usada por eles, Wendy. Nós temos que chamar a polícia imediatamente!

— Espera, Bryce! — Ele puxou o celular do bolso e estava prestes a discar o número da polícia. — E se eles vierem atrás de nós? Se vocês contarem isso para a polícia e exporem o que aconteceu, vamos ficar totalmente vulneráveis! As pessoas vão soltar isso aos quatro ventos, mas se continuarem fingindo que eu estou morta vai despistá-los, porque eles sabem que esse seria o primeiro lugar em que eu viria, e se virem que vocês ainda estão de luto, podem pensar que eu ainda estou perdida por aí, então nós esperamos um tempo e vemos o que podemos fazer.

Meus pais e meu irmão ficaram me olhando de boca aberta, aquele com certeza era um plano estupidamente brilhante! E eles sabiam disso, então meu irmão colocou o celular de volta no bolso e coçou a cabeça, coisa que ele sempre fazia quando estava pensando seriamente em algo.

Meus pais e Bryce ficaram na sala discutindo uma forma de me manter longe das pessoas, então subi para meu quarto para finalmente tomar um merecido banho e tirar aquela roupa de hospital. Parei na porta e corri os olhos pelo meu quarto, ele estava do mesmo jeito que eu havia deixado, meu pijama estava do avesso em cima da cama onde o coloquei quando fui à casa de Mike para conversar com ele.

Mike! Como eu pude me esquecer dele?! Ele devia estar achando que eu estava morta.

— Vocês precisam contar para o Mike que estou viva!

— De jeito nenhum! — disseram meu pai e meu irmão quase ao mesmo tempo. — Você acabou de nos dizer que temos que te manter em segredo de todo mundo e isso inclui o Mike também.

— Mas pai ele é meu namorado! Como ele estava no enterro?

— Como todos nós, tristes pela sua morte.

— Pai, mas ele pode estar achando que a culpa é dele por eu ter sofrido o acidente, porque ele que me chamou para ir até lá.

— Ele não está se sentindo culpado. — Não sei por que, mas não acreditei no que ele disse. — Nós conversamos durante seu velório e claro que ele estava triste, mas não se culpou pelo acidente, ele só disse que se arrepende por vocês terem brigado por uma bobagem.

Meu pai ficou me olhando, para ver se eu havia acreditado em suas palavras, mas com certeza eu não iria deixar isso de lado, tinha que pensar em um jeito de contar a Mike que eu estava viva, mas sem que eles descobrissem. Infelizmente tinha levado meu celular comigo quando fui à casa dele, então com certeza estava perdido dentro do carro, e se perguntasse a meus pais eles desconfiariam.

Quando consegui pegar no sono naquela noite, tive um pesadelo horrível. Sonhei que estava de volta naquela trilha sentada no tronco da árvore e aqueles médicos apareceram e me pegaram de surpresa, mas dessa vez eu não consegui fugir deles. Os dois me levaram de volta para a clínica, dizendo que iam me fazer pagar por ter fugido. Acordei toda suada e ofegante, resolvi fazer uma coisa que já não fazia há anos, fui dormir com meus pais, mas mesmo deitada entre eles os sonhos ruins não me deixavam.

“Eu estava na casa de Mike, no corredor que ia para seu quarto, quando entrei o vi deitado em um canto escuro em posição fetal, me aproximei dele, toquei em sua perna, ele levantou o rosto todo vermelho e disse: ‘A culpa foi toda minha, eu matei a Wendy’. ”Ele ficou me encarando com os olhos vidrados e aquilo me assustou muito, então senti que estava sendo chacoalhada por alguém.”

— Wendy, acorda. Você está bem? Teve outro pesadelo, querida? — perguntou minha mãe, ela estava visivelmente preocupada, passava a mão pelo meu rosto para ver se eu estava com febre.

— Tive sim, com o Mike. — Fiquei contente em despertar daquele sonho, mas ele me deixou mais empenhada em contar a ele que eu estava viva, mas ainda não tinha pensado em um plano adequado.

— Minha querida, isso vai passar, sei que deve estar com saudades dele, mas é melhor o mantermos longe desse impasse que estamos passando.

— Impasse, mãe? Isso é uma calamidade! Eu amo o Mike! Vocês não podem me manter longe dele! — Meu pai que estava no banheiro saiu de lá com uma expressão nada agradável.

— Wendy, você mesma disse que deveríamos mantê-la em segredo de todos.

Lembrei que aos cinco anos de idade eu conseguia tudo de meus pais se começasse a chorar, e pensei que talvez funcionasse, e as lágrimas logo começaram a brotar em meus olhos.

— Wendy, pare com isso agora! Chorar não vai adiantar nada, você acha que aquele garoto vai conseguir guardar segredo? Se deixarmos você contar para ele que está viva, com certeza ele vai querer ficar enfiado aqui, as pessoas vão achar isso muito esquisito. Sem contar que ele pode querer falar para os pais dele, e os pais dele podem acabar contando para outras pessoas e assim por diante, e de repente a cidade toda vai saber que você está viva, inclusive os jornais locais e até a TV. Nós vamos colocar a mão em um vespeiro se divulgarmos tudo aquilo que você nos contou, vai ser muito difícil provar já que somos apenas cidadãos e existem autoridades a cima de nós, que com certeza não vão gostar de ter seus segredos revelados, o que você acha que aconteceria com essa família? Poderíamos ser presos, poderiam falar que você forjou a própria morte, entre outras coisas.

Meu pai estava bem triste e eu me senti mal por pensar só em mim esse tempo todo, eles também estavam tendo que mentir para todo mundo fingindo estarem de luto por mim, e ignoravam a campainha quando ela tocava para evitar que alguém me visse, com certeza eu não era a única com problemas.

 

 

Alguns dias se passaram após a conversa que tive com meu pai, mas ainda estava refletindo sobre as coisas que ele tinha me dito e cheguei à conclusão de que ele tinha razão. Eu deveria pensar mais nas consequências que meus atos trariam a toda família, então por mais que doesse em mim o fato de que não veria mais o Mike, eu estava disposta a fazer isso pelo bem deles.

Naquele dia durante o café da manhã, a campainha não parava de tocar, e as batidas na porta também não.

— Pai, não dá para aguentar mais — falou meu irmão meio irritado. — Essa pessoa não vai embora.

— Wendy, vai lá para cima e não faça barulho, fique no seu quarto com a porta trancada — disse meu pai. — Vou ver quem é.

— Tudo bem.

Sempre que a campainha tocava eu ficava com um pouco de medo de ser um dos médicos daquele lugar vindo me procurar, mas meus pais disseram que se isso acontecesse eles tinham como se defender, mas deixei uma fresta na porta para poder ouvir.

— Olá, senhor Collins, desculpe incomodar, mas preciso devolver algumas coisas da Wendy que ficaram na minha casa, não achei certo ficar com coisas dela sem sua autorização, mas se o senhor concordar eu gostaria de ficar só com o broche que dei a ela no nosso primeiro encontro.

Estava um pouco difícil de ouvir a conversa que acontecia no andar de baixo, mas quando reconheci aquela voz não pensei duas vezes e saí correndo, quase caí descendo as escadas e meu irmão tentou me agarrar para que eu não fosse até a porta, mas consegui desviar dele.

Tudo parecia estar em câmera lenta, ele estava lá parado na porta com uma caixa na mão, e quando me viu ficou sem expressão, então eu o abracei bem forte, e senti o cheiro do perfume que dei para ele há alguns meses no nosso aniversário de quatro anos de namoro. Comecei a chorar, sentia como se meu peito fosse explodir, então meu pai nos agarrou pelo braço e nos puxou para dentro. Eu não queria soltá-lo nunca mais, ele deixou cair a caixa que estava segurando e me afastou para me olhar nos olhos.

— Wendy? Não pode ser, como você está aqui? Devo estar ficando maluco.

— Não, eu estou aqui mesmo.

— Mas como? Você sofreu um acidente.

— Sim, mas eu não morri de verdade, é uma longa história e prometo que vou contar tudo, eu estava com tanta saudade de você. — Esqueci que meus pais e meu irmão estavam ali e beijei Mike, no começo ele hesitou, mas depois correspondeu e me abraçou forte. Senti que seu rosto estava molhado.

— Wendy, pensei que tinha te mandado ficar no quarto! — Meu pai estava muito bravo e me afastou de Mike interrompendo nosso beijo. — Você fez exatamente o que eu disse para não fazer. Pensei que nossa conversa tinha feito você criar juízo! Mas estou vendo que não. Você não dá a mínima para essa família!

— Thomas, se acalme! Os vizinhos podem escutar — disse minha mãe chegando perto de meu pai e afagou suas costas para que ele se acalmasse.

— Pai, me desculpe, eu não pensei direito, quando percebi já estava aqui embaixo, você sabe que desde que eu voltei, sinto muita saudade dele e que faria de tudo para vê-lo outra vez.

— Espera! — Mike disse se colocando entre mim e meu pai. — Você fingiu que estava morta todo esse tempo?

— Pai, já que o estrago está feito e esse garoto não vai sair daqui sem uma explicação, é melhor deixar que a Wendy conte tudo pra ele. — Percebi que até ele estava decepcionado comigo.

Depois que todos se acalmaram eu e Mike ficamos a sós na sala para que eu tivesse a chance de esclarecer tudo. Eu queria namorar um pouco antes de começar, ele até correspondeu por um tempo, mas me afastou e disse que precisava de uma explicação, então não tive escolha e contei tudo.

Ele ficou em silêncio enquanto eu falava tudo o que tinha acontecido na clínica, também falei sobre a conversa que tive com meu pai, e o alertei de que era muito importante que ele guardasse esse segredo para que ninguém descobrisse sobre mim, caso contrário algo de ruim poderia acontecer.

— Eu vou guardar segredo não se preocupe, eu entendo que podem tentar fazer mal com você de novo, não vou desperdiçar essa segunda chance que estou tendo. Quando vi você correndo em minha direção eu travei, não consegui acreditar nos meus olhos. Quando minha mãe foi me dar a notícia, pela expressão dela eu já sabia que algo ruim tinha acontecido, mas não imaginei que fosse com você. Me arrependo muito por ter brigado com você e ter ameaçado terminar por causa de uma bobagem. E não faço mais parte do time e não sou mais amigo de ninguém, você tinha razão, eles só queriam nos separar.

— Que bom que finalmente percebeu isso.

— Sim, me desculpe por todas as vezes que briguei com você por causa deles.

— Claro que te desculpo.

— Eu sei que estava agindo como um completo idiota ultimamente, e é porque não estava indo nada bem na faculdade, engenharia não é minha área, mas não tive coragem de contar para os meus pais e acabei descontando tudo em você.

— Está tudo bem, Mike, vamos tentar esquecer tudo isso, e seguir em frente.

Depois que conversamos eu me senti mais leve, como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros, conversamos por mais um bom tempo, ele me fez várias perguntas sobre como eu me sentia, se eu achava que os médicos tinham feito algo comigo, e como seria para mim viver isolada, mas essa era uma situação em que eu não tinha muita escolha, e aos poucos teria que aprender a lidar com tudo isso.

Os médicos com certeza possuíam algum tipo de tecnologia ou método revolucionário, pois eu não tinha nenhum ferimento nem osso quebrado, eu apenas senti dor nas costas no dia em que fugi da clínica, depois não senti mais nada, e pela gravidade do acidente eu deveria ter ficado com várias sequelas pelo corpo. Querendo ou não eles tinham me salvado.

Voltamos à realidade quando a mãe de Mike ligou preocupada em saber onde ele estava, e minha mãe conversou com ela, tranquilizando-a de que ele estava bem, que ele estava ajudando a separar coisas minhas para a doação. Naquele momento entendi muito bem o que meu pai quis dizer quando falou que se não tomássemos cuidado toda a cidade saberia que eu estava viva. A mãe de Mike era uma pessoa ótima, ela gostou de mim desde o início de nosso namoro, e seu pai também. Se não estivéssemos correndo tantos riscos eu contaria a eles que ainda estava viva.

Depois que Mike foi embora percebi que todos estavam chateados comigo, e com toda razão, então eu disse que não estava me sentindo bem, e fui para meu quarto. Deitei em minha cama e comecei a chorar, não sabia bem por que, mas poderia ser por estar começando a sentir os efeitos do meu novo estilo de vida.

Eu já estava me acostumando a ter que me esconder na garagem cada vez que meus pais recebiam alguém em casa, mas ficava muito triste ao ver como eles ficavam por ter que mentir e fingir na frente das pessoas que ainda estavam tristes com minha morte, mas Mike me distraia mostrando fotos e me trazendo coisas para me lembrar do mundo lá fora. Ele havia inventado uma desculpa para seus pais de que teria aulas com Bryce — já que ele era professor de cursos complementares para passar nas provas da faculdade, e estava de férias —, para ir sempre a minha casa, mas como ele tinha largado a engenharia e teria que começar um novo curso, Bryce realmente deu algumas aulas para ele.

Por mais que tudo parecesse estar funcionando, não estava fazendo bem a ninguém, porque nós estávamos mentindo para todo mundo, e por mais que Mike se esforçasse, eu me sentia cansada de ter que ficar me escondendo.

DOIS MESES DEPOIS

Tudo ia razoavelmente bem, meus pais estavam conseguindo manter o papel de parecerem que estavam se recuperando da minha morte e meu irmão tinha voltado a lecionar na escola preparatória, já Mike estava escolhendo quais faculdades se inscreveria no outono, pois ele finalmente escolhera que queria estudar astronomia que era seu sonho de infância.

Em uma tarde onde meus pais, Bryce, Mike e eu estávamos na sala jogando um jogo de tabuleiro enquanto a TV estava ligada no canal do noticiário, houve uma interrupção na programação normal para uma notícia de última hora ir ao ar.

A âncora do jornal anunciava que havia chegado uma matéria sobre a descoberta de uma clínica clandestina onde eram realizadas experiências com humanos, e que as autoridades começaram a investigar devido a uma carta anônima que chegou ao departamento de polícia da cidade. Ela passou para um jornalista que estava no local e quando reconheci as imagens do lugar fiquei completamente paralisada ao ver tudo aquilo novamente. Mike veio para perto de mim e me abraçou, ficamos olhando para a tela alarmados. O jornalista dizia que cada uma das pessoas que trabalhavam lá seriam presas, todas as vítimas seriam levadas ao hospital e o lugar seria isolado para uma investigação mais aprofundada. No decorrer da matéria, mostraram um homem que estava lutando com os policiais que tentavam algemá-lo. Ele encarou a câmera e disse espumando de raiva:

— Eu sei que foi ela! Quando eu puser minhas mãos em você, você vai se arrepender do que fez!

— Ele só pode estar falando de mim, pela quantidade de corpos que eu vi, fui a única que conseguiu fugir de lá.

— Calma, vai ficar tudo bem — disse Mike tentando me confortar, mas eu sabia que ele também duvidava disso.

— Temos que fazer alguma coisa, conseguir reforço policial, ou alguma proteção! — Meu pai estava com as mãos na cabeça, parecia muito desnorteado e todos começamos a discutir a melhor maneira de resolver a situação. Bryce que até então estava quieto pediu para que todos escutassem o que ele tinha para dizer.

— Eu enviei a carta para o departamento de polícia. — Todos ficamos sem saber o que dizer, então me lembrei que ele havia me feito várias perguntas sobre o lugar onde ficava a clínica e o mercado onde eu tinha pedido ajuda.

— Não acredito que fez isso! Olha o que você fez! Eles vão vir atrás de mim! Eu sou a cobaia que fugiu.

— Não tive escolha, eles não podiam sair impunes depois do que fizeram com todos nós!

— E desde quando você toma as decisões por aqui, Bryce? — disse meu pai muito bravo. — Você colocou em risco a vida de sua irmã, está contente com seu feito?

— Não pensei que eles a ameaçariam.

— Claro que não pensou, mas sempre tem consequências para todos os atos, principalmente quando você faz pelas costas de alguém. Não pensou no que poderia acontecer?

— Não, desculpe.

O clima em casa piorou depois do que aconteceu, eu tinha voltado a ter pesadelos e meus pais não conseguiam dormir de tanta preocupação.

Em uma manhã meu pai chamou a mim e meu irmão para conversarmos na cozinha, e nos deu uma notícia que eu não estava preparada para ouvir.

— Acho que a única coisa que temos que fazer nesse momento é nos mudarmos para bem longe daqui.

— Eu concordo — disse minha mãe, ela estava com olheiras profundas nos olhos e parecia alguns anos mais velha do que realmente era, a falta de sono estava afetando todo mundo.

— Mas, pai, e o Mike? Não posso me separar dele!

— É a única forma de mantermos você segura.

— Pai, por favor, deve ter outro jeito! — Me apoiei na mesa e comecei a chorar, estava me sentindo tonta, pois não comia bem há alguns dias.

— Não tem outro jeito, Wendy, temos que nos mudar o mais rápido possível, vamos colocar a casa e os carros a venda e talvez até alguns móveis. Não podemos levar muita coisa, partiremos para bem longe daqui. Está decidido.

Depois disso, tudo aconteceu muito rápido, meu pai conseguiu vender a casa, o carro dele e o de Bryce, também tivemos que nos desfazer de muitas coisas e só ficar com o necessário. Eles também queriam se certificar de que não precisariam mais voltar, então cancelaram todos os cartões, pagaram todas as contas e cancelaram nossas linhas de celulares, pois quando chegássemos nesse novo país iríamos precisar de tudo novo. Minha mãe apenas separou as coisas mais importantes e o resto foi doado ou vendido.

Quando Mike soube da notícia ele tentou convencer meu pai a desistir, mas claro que ele não conseguiu. Os vizinhos e amigos dos meus pais ficaram sem entender o motivo da mudança tão repentina, eles disseram que não conseguiam mais ficar na casa, pois havia muitas lembranças minhas e que eles iriam realizar um sonho de juventude indo morar no exterior.

Um dia antes da viagem, os pais de Mike vieram se despedir, e fiquei muito contente por poder vê-los pela última vez, mesmo que por uma fresta da porta, eles apoiaram muito meus pais e disseram que poderiam contar com eles para tudo.

Eu e Mike aproveitamos todo o tempo para ficarmos juntos, ele me ajudou a empacotar as poucas coisas que levaria para esse novo lugar, meu pai nos avisou que só poderíamos levar uma mala e uma bagagem de mão, então resolvi levar apenas minhas roupas e sapatos que mais gostava, alguns livros e itens do meu quarto que tinha muito apego, também os presentes que Mike havia me dado ao longo de nossos quatro anos juntos. E quando o dia da mudança chegou, eu estava completamente entorpecida, não havia realmente percebido que iria me mudar para sempre. Mike veio à minha casa para se despedir e me trazer um último presente.

— Queria te dar uma coisa que você pudesse usar sempre, então encontrei esse medalhão em uma loja de antiguidades, espero que você goste.

O medalhão era redondo e banhado a ouro, tinha uma rosa gravada na frente, no interior havia uma foto de nós dois tirada em meu aniversário de dezenove anos quando eu estava prestes a assoprar as velas do bolo. Na outra metade havia apenas uma frase: Você estará sempre em meu coração.

Eu sabia que daqui para a frente seria muito difícil, mas a minha segurança e de minha família me dava forças para continuar, eu também estava fazendo isso por Mike, mesmo que eu quisesse que ficássemos juntos, não queria que ele permanecesse preso a um relacionamento sem futuro, e tivesse que mentir sempre para seus pais. Contudo, fiquei feliz por poder me despedir do jeito adequado, e por termos a chance de nos desculparmos pelos acontecimentos passados. Queria que ele fosse muito feliz e esquecesse de tudo isso que eu o fiz passar, e só se lembrasse dos vários momentos bons que compartilhamos juntos.

— Eu te amo — sussurrei em sua orelha enquanto o abraçava.

— Eu também te amo.

Para que eu não corresse o risco de ser vista nem reconhecida por nossos vizinhos, meus pais compraram passagens para viajarmos de madrugada, eles também acharam que eu deveria usar um disfarce, então Bryce encontrou uma peruca castanha com algumas mechas loiras intercaladas em uma loja de fantasias no shopping, assim eu não ficaria muito diferente da foto do meu passaporte — já que meu cabelo era castanho —, também usaria um óculos sem grau de armação preta.

Depois que estávamos prontos para ir, meu pai chamou um táxi para nos levar até o aeroporto, e enquanto percorríamos as ruas, aos poucos fui digerindo que nunca mais poderia voltar para aquele lugar onde pensei que passaria toda a minha vida. Mike me prometera sempre manter contato, mas por mais que o amasse muito, não queria que ele ficasse preso no passado, desejava que ele seguisse em frente.

No aeroporto fizemos todos os procedimentos e esperamos que nos chamassem para o embarque, eu não queria saber para onde iríamos, porque não queria ficar medindo a distância entre mim e ele, mas eu sabia que pelo menos um oceano existiria entre nós. Enquanto estávamos na sala de espera meu irmão me emprestou seu mp3 para que eu pudesse me distrair, deitei em seu ombro e decidi dormir um pouco já que não vinha dormindo bem desde a notícia da mudança. Acordei com ele me chamando, e percebi que várias pessoas já faziam fila para entrarem no avião.

Tinha chegado a hora.

Pegamos nossas coisas e fomos para fila, quando estávamos em nossos assentos e o avião estava prestes a decolar, aumentei o volume da música para não ouvir nada, e quando decolamos, a última coisa que vi antes de minha visão ficar embaçada pelas lágrimas, foi a cidade onde cresci ficando cada vez menor abaixo de nós. Porém uma coisa me consolava, minha família e eu estávamos indo rumo a um novo começo.

Os Collins não sabiam, mas fiquei escondido do lado de fora para vê-los partir. Precisava ver Wendy indo embora para que pudesse realmente acreditar. Nunca mais conseguiria olhar para o mundo da mesma forma depois de toda a crueldade que presenciei, teria que guardar o segredo dela pelo resto da minha vida. Quando o taxi virou no fim da rua senti que uma etapa de minha vida tinha acabado para uma nova começar.

Nos meses seguintes a sua partida recebi a carta de aceitação da faculdade e fiquei muito contente por poder estudar algo que realmente queria. E quando dei a notícia a meus pais eles ficaram muito orgulhosos.

Eu e Wendy sempre nos falávamos, apenas por um e-mail que ela havia criado com um nome falso, mas percebi depois de um tempo que ela estava distante, não queria me contar onde estava morando, mas disse que era um lugar que fazia bastante frio, ela nunca me contava muitos detalhes, mas sempre me perguntava como todos estavam e sobre a nova família que morava em sua antiga casa, também insistia para que eu arrumasse outra namorada. Até que um dia ela me enviou um último e-mail dizendo que eu deveria seguir em frente e não ficar pensando nela, mas quando tentei responder, o e-mail voltou dizendo que o endereço não havia sido encontrado.

A investigação sobre a clínica ainda continuava e aos poucos as novas informações iam sendo divulgadas. Ao longo do tempo os investigadores descobriram tantas violações das leis dos Direitos Humanos, que provavelmente as pessoas que faziam parte daquilo passariam a vida toda na cadeia. Felizmente as vítimas que estavam sendo mantidas lá se recuperavam no hospital e logo voltariam para suas famílias que pensavam que haviam as enterrado.

Não se passava um dia sem que eu pensasse em Wendy, mas tinha a esperança de que ela estivesse segura.

Ana Paula Hillary

Ana Paula Hillary

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