Diário da Angústia

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Fiz as bolsas de valores esfacelarem-se. Obriguei limites. Reconfigurei abraços e apertos de mão. Estabeleci fronteiras. Suspendi aulas. Oficializei a calamidade pública. Infectei 60 milhões. Ceifei 1,4 milhão de vidas. Paralisei atividades. Desmantelei postos de trabalho. Alterei o fluxo fixo da economia. Comoditizei suas finanças. Agiotei suas necessidades. Inquietei seus dias. Condicionei seu ir e vir a álcoois em gel. Ar livre? No ar, ar live. Enquanto famílias protocolavam fé ao Criador, fiz você ruminar ansiosos e depressivos transtornos. Suas esperanças, azinhavradas estão. Possibilitei-lhe reflexões. Idosos chorando futuros. Jovens aglomeram-se, gritando bocas e narizes à mostra. Viralizei um vírus. Tornei o abstrato concreto.

Fi-lo atafulhar armários afoitos com sabão, arroz, óleo, feijão, farinha, açúcar até a brutalidade. Divorciei datas de casamentos. Sou a pauta, a foto, a manchete. Sou a fala congestionada e nervosa de uma sociedade que subestima fins, inícios e meios. Sou a nova perturbação social. Sou a solidão incontornável da solitude, a disponibilidade dilatada da segunda onda.

Protagonizo o silêncio retilíneo dos tímidos em apelos e orações. Tornei o plural singularmente arriscado. Catastrofizei pensamentos. Interrompi sua noite de sono. Abreviei sua rara paz. Sou sua angústia visitante que, tal qual um pássaro descontente por apenas sobrevoar seu corpo, pousa em sua cabeça adotando-a como um ninho. Graças a Deus, fiz os ateus buscarem seu deus. O mundo em convulsão. Tal qual o quadro de Pieter Bruegel, em O Triunfo da Morte, pintei o medo e o caos num enterro coletivo na Itália. Espirrei ansiedades do desemprego em achatamentos salariais. Tossi dúvidas, especulações. Revelei-lhe um presidente mascarado. Expus-lhe óbitos sob a alergia estúpida de quem me subestimou à gripezinha.

Agora, há quem diga ter o controle sobre mim com vacinas, antissépticos. Suas virtudes caladas enxergaram o impossível. Se sou pandemia ou sindemia, pouco importa. Como redemoinho em dia quente, deixei-o em estado de proparoxítona: atônito. Pudera. Trouxe-lhe a distopia. O novo normal. Por tudo isso, você que, neste momento, constrói catedrais de fés renovadas, saiba mais sagrado que ser o que fazemos, é o que fazemos para ser e mudar nós mesmos.

Alexandre Benegas

Alexandre Benegas

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