Anjinho de procissão

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É complicado descobrir, aos sete anos e morando numa cidade de 3 mil habitantes, o sonho de ser atriz. Nessa situação, o caminho mais fácil até o palco passa, inevitavelmente, pelo altar. Então, minha mãe me olhou surpresa quando pedi: quero ser anjinho na procissão. Primeiro, porque minha mãe não era de igreja e eu mesma havia atravessado poucas vezes por aquela portona de madeira no fim da escadaria da pracinha. Segundo, porque, de acordo com ela, eu já era grande pra isso. Sete anos, sendo que os anjinhos da procissão são quase bebês, devem ter no máximo seis, os maiorzinhos.

Eu tinha todos os argumentos: sou miudinha, a mais baixinha da sala, tem uma menina da minha turma que é anjinho, me falou até onde buscar a roupa, é ali na rua de trás, e a igreja fica no quarteirão de baixo, posso ir sozinha para os ensaios.

Minha mãe levantou os olhos da pilha de provas de geografia e, por cima dos óculos, lançou um olhar que me deixou com a sensação de que a liberdade tem seu preço. Hoje, tendo visto aquela expressão tantas vezes, entendo a mensagem: quer ir, vai. Eu não vou me envolver. E soltou a frase que me levou ao dicionário em busca do significado da palavra cafona.

Inabalável, fui até a casa da beata guardiã das roupinhas dos querubins. Ela me deu um copo de suco de limão, apontou o sofá e sumiu corredor adentro. Bebi em dois goles e aguardei fuçando os bibelôs da estante. A mulher voltou segurando uma fita métrica. Mediu pescoço, braço, de um ombro a outro, do chão ao queixo, desapareceu outra vez e voltou com a má notícia. Para o meu tamanho, não tinha mais túnica, só um vestidinho branco que ela estendeu na frente do meu corpo, me fazendo tossir com a fumaça do cigarro preso num dos dedos finos com unhas pintadas de cor de rosa.

A saia tinha duas camadas e da gola descia um babado até o meio do peito. Dá certinho, põe por cima da roupinha mesmo, bem, pra gente ver. Quem inventou a expressão “vestido de bolo” pensando num bolo de casamento, acertou. Colocassem uma vela na minha cabeça, eu poderia sentar numa mesa entre docinhos, flores e taças de champanhe.

Não tinha mais asa, também. Aceitei a fantasia de anjo decaído como uma oportunidade incrível de caprichar na interpretação. Enquanto as outras crianças, aladas em suas túnicas, elevariam as ruas aos céus, eu me garantiria no talento para transmutar, diante dos olhos do público, o excesso de babados em pureza e simplicidade.

Nunca me tornei atriz profissional e, além disso, a procissão me foge à memória. Nos ensaios do coral — porque os anjinhos cantavam — antes de iniciar o aquecimento das cordas vocais, quando a beata mandava jogar no lixo o chiclete, outro anjo me ensinou o truque de grudá-lo no cantinho da camisa, um pouco acima do coração. Terminado o ensaio, enfiava de novo na boca, já um pouco endurecido, e voltava pra casa cantando e mascando chiclete. Isso eu nunca esqueci.

Carolina Bataier

Carolina Bataier

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