A Profecia das Eras

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O cheiro pungente de mofo nem afetava mais a pobre garota, quanto menos a escuridão profunda do calabouço. Lá fora a situação estava pior. Quente como uma fogueira gigantesca. Era engraçado que mesmo com o mundo ardendo em chamas os seres humanos insistiam em queimar suas bruxas. Informaram que amanhã ela seria a próxima. Nesta altura da sua existência deplorável já não lhe restava esperanças de que algum milagre a atingisse.

Mas milagres costumavam acontecer sorrateiramente.

A bela Princesa de vestido engomado entrou na cela com a expressão de nojo brilhando no breu. Parecia prestes a desistir da ideia de ter ido até ali.

__ Soube que fez alegações a respeito de uma Profecia ser a causa da situação atual da nossa natureza. __ disse, direta. __ Na verdade, ouvi falarem que gritou aos quatro ventos que sabia o motivo e o trocaria por sua liberdade.

A bruxa se encolheu diante de tais palavras. Aquele momento constrangedor havia sido uma última tentativa de sobreviver. Infelizmente, tudo que realmente tinha sobre a Profecia eram histórias proferidas pela amiga Tutti. Histórias que ela nem sequer deu a devida atenção.

__ Está disposta a organizar trocas, vossa majestade? __ provocou.

__ Tem a informação que desejo?

__ Não vejo qual diferença faria eu tê-la ou não. __ A bruxa se espreguiçou. __ Sua mamãe, a Rainha, jamais permitiria que a senhorita corresse riscos atrás de uma lenda boba, não?

A pomposa se aprumou levemente feito um pavão querendo impressionar. No tempo em que ainda existiam pavões.

__ Estou te oferecendo uma missão em troca de sua vida. __ Ela sorriu __ O que acha?

__ Blasfêmia é uma boa palavra.

__ Acredite quando digo que alguém do seu calibre é o único que poderá resolver este caos. Somos meros humanos brigando por um pouco de ar. Músculos, cérebro e armas elaboradas não farão as árvores pararem de queimar ou os rios encherem. __ Os olhos cinzas da menina reluziram. __ Magia, nossa salvação está na magia. Em você.

__ Suponha que eu aceite, o que te impediria de me capturar depois?

Houve silêncio. O tipo de silêncio impaciente e inoportuno que sobe pelas paredes do seu cérebro te induzindo a pensamentos ruins.

__ Terá que confiar em mim.

Um sorriso brotou nos lábios da pobre bastarda. Não se esperava que a realeza descesse de seu patamar para implorar confiança a uma bruxa que seria cinzas em breve.

Desespero. Era o puro desespero. Ela já não gostava deste sentimento antes. As pessoas faziam qualquer coisa por desespero, entretanto, não significava que conseguiam sustentar tal coisa por muito tempo.

__ Não. Eu não aceito.

__ Pois bem. __ A princesa levantou-se com soberania. __ Então, não se incomodará de saber que sua pequena filha será uma ótima criada, não é mesmo?

Criaturinha suja, pensou a jovem, criaturinha suja da realeza.

__ NÃO TOQUE NELA! NÃO TEM ESTE DIREITO!

__ Faça o que te pedi em troca de sua liberdade e da sua filha. __ A voz dela era uma pasta de tranquilidade. __ Aproveite que os soldados estão concentrados em um novo foco de incêndio e saía o mais rápido possível. Acho que não é necessário dizer para ter discrição, não é?

O corpo da bruxa ergueu-se sendo preenchido de um poder forte e raivoso. O que a impediria de cometer um crime? As finas algemas forjadas em ferro, acônito e sangue de hereges que brecava seus poderes? Não. Era o rostinho corado de Giselle pairando no fundo da sua mente. Pensou que livraria a filha dessa vida, que a deixaria intocada e segura, mas neste mundo ninguém estava a salvo.

__ Quero provas de que tem minha menina!

Um cordão balançou nos dedos da pomposinha. Ouro e prata. Promessa e sangue. Era a pedra de proteção que deu de presente a Giselle em seu nascimento.

__ Estamos de acordo?

__ Sim, vossa excelência.

Após as algemas serem tiradas e as grades abertas seria ela por ela mesma. No entanto, havia sido sempre assim.

Vestiu uma capa que encontrou para lhe camuflar dos reais apressados em tirar água do único rio que ainda restava na tentativa de apagar as chamas intensas. Era irônico, pensou a bastarda, ao quererem impedir o fogo estão extinguindo o único elemento que mata a sede.

Faca de dois gumes.

Morte por dois gumes.

__ Ei, bruxa!

Ela continuou andando. Ignorando. Sentiu os olhos do real a perfurando enquanto a seguia. Cada vez mais próximo. Cada vez mais perigoso.

Não era uma boa hora.

Não.

Ele a puxou pelo braço virando um soco certeiro no seu plexo solar. Dor, a genuína dor, devorou a jovem instantaneamente lhe roubando o ar. Gemeu baixinho ao se inclinar em direção ao chão. A secura afiada sob as palmas da mão agitou uma ideia no fundo da sua mente.

__ Aonde pensa que vai, vagabunda? Não sabe que vocês bruxas possuem uma única serventia? __ houve uma pausa, como se fosse haver uma resposta saindo da boca dela. __ Queimar, queridinha, foram feitas para queimar.

Será que não tinha assuntos mais interessantes do que este? Será que era mesmo tão importante queima-la por estar procurando cogumelos na floresta com a amiga, ao invés de estar executando um ritual como a acusaram, simplesmente por ser o que ela era?

Certamente, como uma responsável condenada, precisava dar motivos melhores à eles. Então, sussurrou um feitiço simples para as raízes fracas, porém prontas para atenderem um pedido urgente de uma bruxa. Fechou o punho no mesmo segundo que uma raiz enrolou-se no tornozelo de seu oponente o arrastando para longe.

Ergueu-se, a capa voando ao seu entorno feito a adrenalina que aplacava o atordoamento que queria surgir. Adrenalina bem-vinda. Afinal, precisava manter-se firme. Guardas com armas de laser paralisante fabricadas especialmente para gente como ela a esperava sustentando expressões impassíveis nos rostos bronzeados.

__ É melhor se render, garota. __ gritou um deles.

Inconscientemente ela olhou para as labaredas alaranjadas consumindo a vivacidade dos pinheiros ao seu redor. Acabaria como eles caso permitisse ser pega naquele momento. Porém, o que faria? Era dotada de magia como a pomposa ressaltou, no entanto, eles eram muitos. E muitos violentos e insatisfeitos. Ligados à uma raiva desumana que frequentemente os impedia de contemplar o limite.

Mas houve um grito.

E mais gritos seguido pelo tremeluzir do ambiente ao som de cascos e um berrante. A bastarda girou nos calcanhares e quase sorriu diante da cena. Trufulos. Enormes, com chifres afiados e pelagem cinza embromada balançando enquanto corriam em alta velocidade contornando ela, pois jamais machucariam um místico, e indo de encontro aos seus captores com uma sede assassina por sangue. Atrás deles o celeiro achava-se curiosamente aberto e, curiosamente, a princesa descansava ali perto com um berrante em uma das mãos e um sorriso cínico brincando em seus lábios.

Terá que confiar em mim.

Infelizmente, a notável jovem não tinha tempo para ficar apreciando o show. Portanto, esgueirou-se entre os brutamontes até poder pular agilmente a cerca mal feita que separava o Vale de seu lar.

A primeira coisa que a surpreendeu ao avançar pelo caminho de Encantamento era que estava pior do que recordava. A terra seca reclamava ao toque dos pés e o ar havia ganhado uma consistência densa que prendia na garganta causando tosse. Animais corriam desesperados de um lado para outro a procura de um abrigo que não existia. Não. Não havia lugares seguros no inferno e era exatamente nisso que o Planeta Terra tinha se transformado. Um calabouço imundo que cabia comicamente a ela soltar os prisioneiros.

A ela.

Esta foi a segunda coisa que atormentou seus nervos.

Afastou os pensamentos intrusos que lhe açoitavam ao ver o prédio acinzentado utilizado como enfermaria pelos místicos. Entrar ali fazia com que lembrasse dos sussurros da tataravó sobre um tempo em que estruturas como aquela, e até mais altas, jaziam em meio as escassas árvores. Uma época de democracia, direitos e deveres, e de magia substituída por o que chamavam de tecnologia. O oposto da Terra atual, palco de caos e somente caos. Restavam apenas destroços dessa existência. O destroço em que estava em questão se encontrava cheios de acamados, sangue, gazes e curandeiras andando de um lado para o outro como os animais acuados na floresta.

__ Nunca esteve tão lotado. __ comentou uma senhorinha ninfa sentada perto da porta.

Lotado era efêmero.

Os olhos da bruxa caçaram Tutti pela multidão. A fada tinha o costume questionável de se enroscar no meio de doentes e moribundos para, segundo ela, acalmar sua culpa interior servindo a uma causa justa.

__ O que faz aqui, bastarda? __ indagou uma inimiga de infância propensa a ataques.

__ Estou procurando…

__ Não temos nada para você.

__ Se deixasse eu concluir…

__ Achei que morreria amanhã.

__ Somos duas, mas pelo…

__ É uma pena, na verdade! Me preparava para uma celebração fúnebre, não que eu ache que você ganharia uma.

Uma adaga foi rapidamente conjurada na mão da jovem cheia de raiva reprimida por anos. Não pensou duas vezes antes de apontar a arma para os vastos peitos da pária.

__ Que tal ir na sua celebração fúnebre?

A mulher engoliu em seco, muda do jeito que deveria.

__ Pois bem. Procuro Tutti, você a viu?

__ Vai encontrá-la em uma cova comunitária lá atrás. Foi atacada por reais. Fizemos o possível, mas a pobrezinha não resistiu. Sinto muito. __ disse a inimiga com a voz pingando uma coisa chamada vingança.

A adaga esvaiu-se assim como a raiva que a garota sustentava. Caminhou entre os leitos feito uma louca. A culpa era dela. Atravessou as portas duplas quase tropeçando nos mortos. Eram muitos. Enfileirados ali como lixos prontinhos para irem ao aterro. Observando para sempre o céu condenado a uma vasta negritude sem estrelas. Sentiu um calafrio ao reconhecer o cabelo cor de rosa da amiga emoldurando um rosto frio.

Tutti, a preciosa Tutti, mutilada como um pedação de carne.

Antes da natureza arder em chamas os reais não fariam uma coisa dessas a um místico, pois um acordo bobo, mas eficiente, os protegiam. Ninguém ia para Encantamento. Nenhum místico ia ao Vale. Simples. No entanto, quando os seres humanos contemplam o fim eles apenas pensam em si próprios. E geralmente isto envolve uma camada grossa de violência.

__ O que fez…? Eu mandei você se esconder dos guardas… mandei ficar segura! Por que não me ouviu?

E ela própria se ouvia?

Dedilhou a bochecha da amiga delicadamente. Fez uma prece silenciosa para que os Deuses a recebessem com uma festa barulhenta do jeitinho que ela sempre gostará. Fechou seus olhos por um segundo e sussurrou um sinto muito apressado. Afinal, precisava continuar. As lágrimas manchavam seu rosto, mas ela tinha que continuar. Giselle dependia dela. Os animais dependiam dela. O povo dependia dela, mesmo que nunca a quiseram de fato por se tratar de uma filha de um bruxo com uma humana. Não suportaria ver mais Tutti’s em valas como essa, sejam elas mortas por reais ou pela condição do mundo.

__ O coloque ali. __ disse uma garota para uma espécie de copeira à uma certa distância da bruxa.

Um corpo foi despejado ao chão com um baque. O rosto da garotinha se contraiu. Devia ter uns treze anos, idade suficiente para não estar em uma cova.

__ Espero que a Profecia das Eras esteja errada…

__ É bobagem, pirralha! __ repreendeu a copeira. __ Não acredite em tudo que a vaca da sua irmã diz.

Profecia.

A velha esgueirou-se pelas portas do fundo esbarrando no ombro da bastarda no processo. Esta por sua vez seguiu até menina em silêncio não ousando olhar para trás e ver o estado em que amiga estava novamente.

__ Olá. __ murmurou.

__ Oi. Posso ajudá-la com algo?

Pobrezinha, pensou ela, tão jovem e já acostumada a dar a alma, corpo e carne a qualquer um.

Tudo que quiserem em troca de tudo que quero.

__ Ouvi você falar sobre uma Profecia… minha… minha amiga também era adepta à ela. __ A bruxa amassou uma grama seca com a ponta da bota. __ Mas eu nunca a escutei de verdade. Agora…ela está perdida.

Não ia dizer morta. Não podia.

__ Oh, sinto muito!

__ Não, não sinta, pequena. Só… só me conte o que sabe em relação a essa Profecia das Eras.

__ É o fim… __ Suas mãos se agitaram. __ Minha irmã mais velha contou que o jardineiro mostrou um pergaminho com escritos do fim, mas ela não sabia ler então teve que acreditar no que ele falou. Não voltou a mesma depois disso.

Nenhuma jovem moça voltava ela própria após uma visita ao jardineiro. Ele cultivava inocência do mesmo modo que cultivava flores. Um ódio repentino assolou o coração da bastarda ou melhor não tão repentino já que ele esteve sempre ali a espera para ser despertado de vez.

Tinha um motivo gigantesco para bater na porta do projeto de imundice e não poderia estar mais feliz ao executar esta tarefa.

__ Onde posso arranjar uma locomoção? __ perguntou.

__ Acho que a única que sobrou foi Sombra, o unicórnio.

__ Está lá na frente?

__ Sim, mas é da copeira…

__ Que maravilha! – A bruxa lhe deu um sorriso amarelo. __ Escute aqui, pequena, jamais permita que alguém te rebaixe, está bem?

Um balançar de cabeça vacilante foi proferido pela garotinha seguido por um forte suma daqui, senhora.

Ela obedeceu. Montou em Sombra no caminho e saiu cavalgando rápido contra a noite escura acompanhada de destruição e o fedor da morte.

Parou assim que o sol quente e cruel nasceu cobrindo a paisagem de um alaranjado doentio. O casebre do jardineiro aparecia nada convidativo entre os galhos secos. Quase uma cópia da reputação de seu dono. Escorregou para fora da cela e se livrou da capa que, conhecendo o velhote, dificultaria a entrada. Ajustou os trapos ao redor das curvas afim de obter um convite dourado.

Seguiu a trilha cercada por uma mistura de flores murchas e semimortas com um nervosismo crescente na boca do estômago. Ela já não era tão magnífica quanto menos pura, caso algo desse errado teria que apelar para magia. Não que seria desagradável. Bateu os nós dos dedos levemente na porta preparando-se para encarar o papel de necessitada. Abaixou os ombros, sustentou o desespero no rosto e puxou os cachos rebeldes para longe do pescoço. Assustou-se ao ver o rapaz com uma cicatriz extensa na têmpora lhe encarando quase entretido. Parecia familiar, embora Perdidos sempre pareceram familiar a ela. Presos entre o Vale e Encantamento, vendendo qualquer coisa para qualquer um. Sem sangue real para estar do lado dos seus. Sem magia para ser abraçado pelos místicos. A mãe os chamava de traiçoeiros desgraçados.

Naquele instante, ela quase proferiu o termo.

__ Quem é? Quem é? Quem é? __ disparou o proprietário ultrapassando a barreira humana entre eles.

__ Se me atender serei sua humilde serva. __ dramatizou.

O pequeno gnomo com cabeça de cogumelo quase jogou o homem de cara no jardim diante daquelas palavras.

__ Entre, minha flor. Seja bem-vinda ao meu lar. Como posso ser útil?

Assado, talvez.

Os aposentos estavam em completa ordem e ela estava o sujando de lama. Infelizmente, não havia sinal evidente da presença de uma certa profecia ilustre. Móveis bem dispostos. Prateleiras lotadas de porta-retratos de garotas jovens demais para serem troféus. Uma flor moribunda ali outra aqui. E o chafariz no meio da sala: malas prontas para serem levadas.

__ Minha filha, senhor. __ mentiu. __ Está muito doente! Ia pedir para preparar um chá, mas não quero atrapalhar. Vejo que deve estar de saída.

__ Ah, não se preocupe. __ Ele deu uma risadinha. __ Quais são os sintomas de sua menina?

__ Não quero ser rude, Lorde. __ interrompeu o Perdido sendo rude e se posicionando na frente do jardineiro. __ Mas poderia me integrar o que vim buscar.

Se fazendo ser visto.

Ótimo, pensou a bastarda, me dá um tempo maior para inspecionar o casebre em silêncio.

__ Seja um cavalheiro, meu caro. Os problemas de uma dama vêm sempre em primeiro lugar.

O gnominho arrastou-se para longe do rapaz com um ar afetado de quem foi interrompido em uma caça. Chegou mais perto da bruxa fazendo menção de toca-la. Ela, por sua vez, sentiu que o teatro não seria sustentado. Não quando havia outra pessoa na casa que o impediria de fazer o possível e o impossível para conquista-la.

Cerrou os punhos com força os fazendo arder em chamas escuras. Os olhos de sua caça ficaram esbugalhados de pavor. De reconhecimento.

Belas moças com poderes não são bem-vindas.

Belas moças com poderes se vingam.

__ Garanto que minha filha melhorará caso me diga aonde está a Profecia.

De repente o pequeno espaço entre eles não parecia mais agradável ao velho. Ele encostou na mesa feito um rato acuado. Já o jovem rapaz preferiu fazer uma mala de escudo. Era normal, ninguém esperava que uma mulher enlouquecesse, porém quando faziam ninguém ficava por perto.

__ Eu… eu não sei do que está falando!

__ Ah, não? __ Ela ergueu as mãos brincando com o fogo que crepitava. __ Um passarinho me confidenciou que o senhor anda mostrando a Profecia para donzelas. A Profecia das Eras… não queria ser útil para mim? Então, me mostre o que peço antes que minha mão escorregue sem querer e acabe queimando alguma parte importante do seu corpo.

Naquele momento surgiu algo estranho nos olhos do velho. Algo além do medo. Uma inconstante. Um triunfo que a bruxa nunca esquecerá. Assim como nunca esquecerá do que se seguiu depois disso. Ele inclinou-se, estrebuchou, rangeu os dentes e, por fim, caiu sem vida no chão da sala quase impecável.

__ O que você fez? __ acusou o rapaz recobrando uma coragem meio plastificada.

__ Nada. __ A bruxa soou cansada. E estava de fato. __ É veneno de fada. Seres deste tipo costumam enfiar uma cápsula entre os dentes, pois nunca sabem quando serão pressionados ao ponto de preferirem suicídio.

Por que ela? Por que uma bastarda infeliz que não dava a mínima para muitas coisas da vida tinha que salvar a vida? Não fazia sentido, entretanto, sua vontade de revirar o casebre a procura de um papel antigo com uma baboseira escrita era grande demais. Culpou a princesa por ter confiado nela para ser a heroína. Por ter lhe dado este senso de Boadiceia com toda aquela ladainha de se não você quem irá nos libertar deste inferno.

Viva a magia!

Estalou os dedos fazendo cada compartimento no cômodo voar pelos ares. Olhou em gavetas, quebrou os quadros, revirou baús e procurou dentro de vasos esquisitos. Estava prestes a desarrumar as malas quando o da cicatriz estagnou na sua frente.

__ Eu ouvi falar dessa profecia. Não acreditei, mas a senhora parece convicta em acha-la. Posso ajudar? Gosto de pessoas convictas.

__ Faça o que quiser, só não me atrapalhe.

Retomou a procura esbanjando magia para tirar tudo do lugar. No fundo estava apenas descontando a raiva que sentia de si própria naquele instante. Ficava contente ao contemplar a ordem quebrada. Nada estava limpo, por que aqui estaria? Cabelos humanos em caixas, jarros de sapos, sementes de erysimum, velas, olhos de vidros e uma imagem controvérsia de Anakias, o príncipe das trevas, cuja existência foi tão pecaminosa que até o mais leve toque de seus restos mortais em um solo encantado era capaz de desvanecer de imediato quaisquer ligações com a natureza. Tudinho ia parar no chão. Poderia acrescentar a parede? Ou talvez pedacinhos picotados do telhado? O céu era o limite.

__ Sua filha é real? __ perguntou o traiçoeiro de algum lugar no meio da bagunça.

__ Sim.

Papéis. Papéis voaram a sua volta. Mas nenhum útil. Nenhum o certo.

__ E o pai dela?

Talvez o Perdido também queira fazer parte do caos à seus pés.

__ Não vejo como isso te interessa.

__ Bem, é que eu gostaria de saber se posso corteja-la?

Ela virou-se sentindo o sangue ferver, no entanto, suavizou no exato momento em que viu o que o rapaz tinha em mãos.

O pergaminho.

O maldito pergaminho.

__ O senhor pode tentar. __ provocou arrancando o pergaminho dele.

Esperou chegar do lado de fora para abrir o papel amarelado com o poder da mente. Queria luz para apreciar o que tanto buscava, embora soubesse que o cenário ao seu redor possuía uma paleta de cores febris. Ao menos o significado dos desenhos em  dourado e a escrita elaborada em uma língua pouco usada combinavam perfeitamente com ela. Detalhes belos para descreverem cinicamente uma destruição completa e iminente. Quase autoexplicativo por si só.

__ O que diz aí? __ perguntou o pretensioso ser que não largava do seu pé.

__Em 3500, o ano da anarquia final, no fundo do Terreno Neutro, protegidas por fortes guardiões espelhados, as Eras dormirão o sono dos justos pincelados de sonhos com máquinas de vingança e o fogo cintilante da justiça que recairá sob o lar dos perversos como chuva de verão no inferno. Incessantemente. Um por um finalmente pagará pelas excentricidades causadas ao longo de suas vidas podendo somente serem libertados pelo renascer.”

Um palavrão manchou a mente da bruxa assim que se calou e enrolou a Profecia com um estalo. Quando seria fácil para ela?

__ Sempre achei essas metáforas um ultraje! __ exclamou baixinho para ninguém em especial. __ Se existe uma chance de salvarem o lar dos perversos por que não deixaram especificado? Não! Agora tenho que imaginar que merda significa renascer para a merda do profeta que previu isso!

__ Eles gostam de um drama. __ Traiçoeiro estreitou os olhos. __ Acalma-se. Tenho certeza que já está pensando no próximo passo.

Ignorou o irritante enviando uma mensagem de fogo. O próximo passo seria simples se você pensasse somente na onde iria e não no que faria. Era óbvio que precisava de uma passagem para Terreno Neutro, se é que ela existia realmente. As duas regras para abertura de um portal eram: um local que fedia a feitiço e quatro elementos. Não abriria nem um átomo sozinha, por isso necessitava das amigas, embora não tinha ideia se os frívolos acontecimentos do passado não as impediriam de comparecer.

Retornou para Sombra que a aguardava com uma carranca impaciente típica de quem estava prestes a sair correndo dali. Ela não o culpava. Fugiria de bom grado caso houvesse algum lugar para ir. Por enquanto restava-lhe apenas colocar a capa cobrindo seu corpo e agradecer o ímpeto de tê-la roubado, pois seria um grande alívio para sua pele não ser castigada pelos raios solares escaldantes.

__ Ei. __ chamou o rapaz de quem ela já havia se esquecido. __ É um tanto indelicado me deixar falando sozinho…Ainda mais quando disse um dia que eu era da família.

A bruxa o encarou, incrédula. Não recordava de ter dito tamanha asneira para aquele asno.

__ Foi em um jantar. Naquela época eu não tinha a cicatriz nem cabelo comprido e estávamos um pouco bêbados, então, dou um desconto…Sou Atlas, o ex da Tutti, lembra?

Estremeceu. Seu corpo encostou no dorso da unicórnio para manter-se firme. Sentiu um calafrio percorrer sua espinha e congelar cada nervo no processo.

Ia explodir.

A qualquer segundo explodiria pelos mil cortes na sua armadura.

Tutti.

__ Sim, me recordo. __ Mas não queria. __ Ela…Tutti está morta.

Dizer em voz alta doeu mais do que torturar sua mente com as imagens da amiga.

__ Oh, céus! __ Ele sentou-se no chão, chocado. __ Imagino como você deve estar…Eram tão próximas. Nunca se espera que uma coisa dessas aconteça com quem é importante para gente. E Tutti era importante, sabe. Especial. Tinha uma alma perspicaz e rara.

__ Sim, estou aqui em grande parte por causa dela. __ Seus dedos enroscaram inconscientemente na crina de Sombra. __ Talvez seja o destino ou a própria Tutti brincando de destino em algum lugar…Você, quero dizer. O fato de estar no jardineiro ao mesmo tempo que eu.

__ Isso significa que devo te ajudar em seja lá o que está tramando?

Sabia que o que fosse dito por ela naquele instante seria como uma promessa gravada em sangue, porque era deste modo que Perdidos funcionavam.

__ Estou trabalhando com a ideia de que o que li no pergaminho é real.

__ Certo. Então o que são as Eras e qual o motivo delas quererem ferrar o lar dos perversos, o que presumo ser a Terra? E este tal de Terreno Neutro fica aonde exatamente?

__ Faz parte de uma lenda folclórica. As Eras seriam seres anciãos dotados de uma magia poderosa e antiga que os possibilita ditar o equilíbrio do universo. Terreno Neutro ficaria em uma dimensão fantasma que basicamente é um local escondido no espaço-tempo.

Ele levantou-se, agitado, e começou a andar de um lado a outro.

__ O equilíbrio do universo. Agora faz sentido o motivo de quererem ferrar os seres humanos e as referências à justiça, vingança e excentricidades. Eles realmente usam e abusam da natureza sem cogitarem que um dia ela poderá reclamar ou acabar. Se prendem ao ilimitado. Mas o carma chega para todos, não?

__ Eles? É muito fácil colocar a culpa neles. __ A bruxa chutou uma pedra com força. __ Somos nós, Perdido, todos nós causamos a ira da natureza. Cada um. E mesmo que diga que não, saiba que cruzar os braços e assistir não te faz inocente.

__ Então por que quer parar o fim se concorda com as Eras? Deixa-as dormir o sono dos justos. Devem estarem cansadas de tanta merda.

__ Tarde mais. __ disse ela enquanto observava um pontinho virar a esquina. __ Caso não quisessem que alguém agisse não teriam acrescentado um modo de deter o fim em toda aquela lengalenga.

O pontinho virou rapidamente uma bela carruagem, sem cavalos ou cocheiro, brilhando em um azul escuro pronta para eles. O brasão de serpentes tremeluziu quando ela estacionou. A porta abriu com um rangido, agitando Atlas que empertigou-se e arrancou o canivete do bolso.

__ Relaxe, é a minha carona. __ Ofereceu um sorrisinho. __ Caso ainda queira vir comigo depois dessa conversa, sugiro que prenda a respiração ao entrar.

Deu um adeus breve a Sombra e pediu que voltasse para casa. Jogou-se dentro da carruagem preparando-se para o zumbido que afetaria os ouvidos seguido pela vontade repentina de vomitar. Escuro. Depois cor de rosa choque e brilhante. As poltronas ainda eram macias e ainda cheiravam as flores. Atlas sentado a sua frente quebrava o clima de nostalgia. Levantou-se, evitando a tontura, e puxou as maçanetas das portas duplas revestidas de couro. Sentiu o rapaz soltar um suspiro diante da visão. Era para ali que os místicos vinham quando queriam fingir que estava tudo razoavelmente bem. A carruagem era enfeitiçada e barulhenta desde que a bruxa se entendia por gente. Consistia em paredes de veludo negro contrastando com ladrilho branco no chão que por sua vez contrastavam com o teto de céu estrelado, um bar de madeira lotado de bebidas de aspectos duvidosos e gente, muita gente, espalhada pelos cantos.

__ O que aconteceu com você? __ perguntou Lilitih a devorando com os olhos de cima a baixo.

__ O fim do mundo.

__ Justo, queridinha. Venha até aqui, mas deixe o Perdidinho aí.

__ Como sabem da onde venho? __ resmungou o traiçoeiro. __ Tem relação a aura? Sexto sentido?

__ Suas roupas. __ respondeu Morgana erguendo-se de trás do bar com uma garrafa de licor. __ Somente vocês usam sacos de batatas como roupas.

Cambaleou de encontro as amigas carregada de frases prontas.

Desculpas.

__ Cadê ela?

Sabia que tratava-se da Profecia e indagou-se por um segundo se elas vinham a procurando também. Faria sentido. Teriam vindo por isso, não porque a perdoavam. Estendeu o papel a Lilitih de bom grado.

Jade a olhava em silêncio como sempre. Os doces tons de azuis de suas íris a corroendo por inteiro.

__ Deixa ver se eu entendi. __ disse Morgana batendo nas lentes dos óculos. __ Passou em cima de todas as nossas brigas para vir até aqui nos pedir ajuda para abrir um portal para Terreno Neutro? Nada mais, nada menos.

__ Isso não é o mais ridículo, Morg. Ela acredita na Profecia das Eras. Está aqui porque uma princesinha pediu e…

__ E Tutti morreu, os reais a mataram… Ah, esqueceu de ler na minha mente que essa princesinha está com Giselle.

Este era um dos motivos das discussões frequentes. A bruxa não acreditava que tinha sequer imaginado que as três pudessem estar querendo ajudar qualquer coisa além delas mesmas.

__ Sim, sim, sinto muito. __ balbuciou Lilitih sem sentir muito de verdade. __ Tenho certeza que deve saber o que é renascer, não? Já que quer dar uma de heroína brilhante.

Ela fez que não com a cabeça. Ao longe Atlas começava um alvoroço com um ogro prateado duas vezes maior que ele. Vê-lo apanhar seria mais interessante do que reencontrar as amigas.

__ Falando sério agora, querida. __ sussurrou Lilitih segurando seus ombros. __ Altruísmo não lhe veste bem. Não sei se sabe o que está fazendo, mas é suicídio. As Eras vão estar lá e os guardas também. São reais. Podem e vão comer você viva. Não vale a pena.

__ Espera um segundo. __ Ela desvencilhou-se. __ Vocês sabiam da Profecia? Quantas pessoas mais eu vou encontrar que sabe dessa merda e que não quer fazer nada a respeito? Todos vivem reclamando do apocalipse, da natureza queimando e das pilhas de mortos, porém quando possuem uma chance de alterar isso simplesmente viram as costas e enchem a cara! Podem dizer que eu enlouqueci, talvez tenha mesmo, mas não vou ficar assistindo. Não vou fazer o que fiz a minha vida inteira. Irão me ajudar?

Houve um grito. O Perdido foi arremessado em cima da mesa. As mãos gigantes do ogro apertavam seu pescoço. A bruxa soltou um breve suspiro. Não era tão legal ver ele se debatendo quanto ela pensou que seria. Caminhou até eles devagar, pegou uma garrafa pesada no bar e quebrou na cabeça do cinzento. Distração o suficiente para Atlas passar as pernas em volta da cabeçona do oponente o imobilizando em alguns árduos segundos. O barulho do corpo caindo no ladrilho a lembrou de um terremoto que devastou a Costa Sul do Brasil quando ainda existia Brasil.

__ Obrigado. __ agradeceu o Perdido. __ Devia alguns verdinhos para ele.

Ela riu. Estava possessa e estava rindo.

__ Um show e tanto. __ comentou Morgana. __ Mas devo pedir que se retirem imediatamente!

Cerrou os punhos.

Jade apitou. Um apito firme e melodioso que fez os convidados, exceto a bruxa e o rapaz, caírem em um sono profundo. Seu rosto impassível iluminou-se com uma luz esverdeada que davam um tom mais notável aos cabelos e a suas vestes nudes.

__ Iremos ajudar. __ disse utilizando toda a força que tinha.

A palavra da amiga era lei. As outras duas apenas nadavam no poder por causa dela.

__ Morg, prepare o ritual. __ mandou Lilitih. __ Perdido, me ajude a tirar os dorminhocos daqui.

__ Não tem um feitiço para isso?

__ Tem, mas, não sei se você notou, a minha cara irmã mais velha acabou de limitar todo o meu poder para dizer duas péssimas palavras.

As horas seguintes foram banhadas de agitação, preparações e um silêncio grudento. O salão do bar logo transformou-se em um palco perfeito para feitiçaria. Um círculo de pedras encantadas foi feito com maestria no impecável ladrilho branco acompanhado de velas azuladas que sussurravam um fogo de proteção. As irmãs sentaram juntas em um canto do cômodo de olhos fechados murmurando palavras ininteligíveis enquanto a bruxa santificava uma adaga de ouro puro com cabo de rubis. Ela sabia que atravessar um portal exigia uma série de procedimentos, no entanto, era um pouco gritante o modo como as amigas estavam levando aquilo. Atlas, por sua vez, parecia extasiado, o que era irritante demais para seu gosto.

__ Encontrei um pouco de água e um croissant recheado de mofo. Quer? __ disse ele deixando-se cair ao seu lado.

__ Huuumm, delicioso!

Antes de entregar a garrafa à ela, o rapaz encarou as marcas que tecia em seus braços com a ponta da lâmina por um longo segundo.

__ Essas coisas são mesmo necessárias? __ murmurou, enfim.

__ Sim e não… __ A bruxa espantou a dor com um suspiro. __ Prevenções, eu acho. Em uma viagem como a que vou fazer você pode acabar perdendo um membro no caminho caso não tome o devido cuidado. Além do mais, as meninas adoram magia de proteção.

__ É perigoso, não é?

__ Não é como se nossa existência neste planeta também não estivesse sendo perigosa. __ retrucou. __ A propósito, irá me acompanhar?

__ Vou ter que ganhar rasgos na pele?

A bruxa sorriu.

__ Não. __ Ela bebeu um breve gole de água que passou pela garganta como ácido. __ Terá que tomar um tônico e eu acrescentarei mais uma marca…Mas você não precisa, Perdido. Não precisa ir até lá. Esta jornada é minha por escolha e estou indo de mãos abanando, entende? Não faço ideia do que é renascer. Nem toda proteção do mundo que minhas amigas criarem vai me fazer fugir disso. É por isso que acham que eu enlouqueci. Porém, eu sinto na minha alma que não há tempo para esperar por respostas que talvez nunca cheguem. Então, vou te perguntar de novo, tem certeza que irá me acompanhar?

Atlas encarou as próprias mãos, a onda de incerteza traspassando por ele era palpável e incômoda. A jovem não pode evitar desejar que o rapaz tivesse um pingo de sanidade no cérebro e que sua decisão fosse ficar ali em terra firme.

Não podia haver mais Tutti’s.

__ Eu vou com você. __ Ele acariciou a bochecha dela tranquilizando o medo que a instalava. – Você foi a melhor coisa que apareceu em minha vida e não vou permitir que escape por entre meus dedos apenas porque quer se jogar no espaço-tempo, esquentadinha.

Tão charmoso como todos os Perdidos. Queria muito não se afeiçoar à ele. Doeria menos caso o chão desabasse sob seus pés.

Morgana gritou desgrudando toda a concentração da sala.

__ Fiona acabou de me enviar uma mensagem! __ berrou. __ É horrível! Gigantes vermelhos estranhos dotados de fogo e fúria acabaram de destruir Hogar. Queimaram cada centímetro onde pisaram. Não restou nada e…E estão vindo para cá! Não vai demorar para chegarem em Encantamento.

Eras dormirão o sono dos justos pincelados de sonhos com máquinas de vingança e o fogo cintilante da justiça que recairá sob o lar dos perversos.

Agora elas acreditam, pensou a bastarda, agora a situação ficou séria demais para não acreditarem.

__ Os últimos argentinos Perdidos moravam em Hogar… __ sussurrou o rapaz com pesar.

__ Sinto muito, garoto. Espero que obtenham sucesso na loucura que estão fazendo ou vamos acabar como eles. __ falou Lilitih.

Automaticamente a mente da jovem se encheu de imagens de Giselle. A pequena Giselle nas mãos de gente estranha. Sua única filha nas mãos de gente estranha talvez para sempre. Talvez até o fim. Seu coração martelava o peito quando concluiu rapidamente a última marca aproveitando a dor para se martirizar. Levantou-se enchendo os nervos de uma coragem inventada naquele instante.

__ Não se preocupe, querida, chutarei as bundas das Eras com precisão. Agora, vamos começar.

Elas assumiram suas posições em volta do círculo, deram as mãos e se entreolharam compartilhando uma energia profunda e mística.

__ Fogo. Terra. Água. Ar. __ evocaram em uníssono.

O chão tremeu. Fecharam os olhos trocando o mantra por palavras eruditas que deveriam convencer o portal a se abrir de forma segura. Conforme o feitiço ficava mais encorpado maior era o número de rachaduras no ladrilho do lado de dentro do círculo. No entanto, as portas de Terreno Neutro eram difíceis de serem escancaradas. Velhas. Teimosas. Exigiam certo jeito e insistência que as deixariam exaustas.

Houve um clique.

A bruxa sentiu as marcas em seus braços começarem a queimar.

Abriram os olhos.

Era a hora.

As velas apagaram de uma vez.

O ladrilho explodiu em mil pedaços jorrando um brilho doentio de dentro do espaço vazio que ficou.

Morgana pegou uma taça e habilmente a banhou na luz do portal. Em seguida entregou a Atlas que a entornou sem pensar duas vezes.

__ Dê a mão para bruxa e não solte em hipótese alguma.

Ele obedeceu prontamente. A jovem absorveu o aconchego que a palma da mão dele contra a dela transmitia e depois descartou com um aceno de cabeça.

Concentre-se.

__ Prontos? __ perguntou Lilitih trazendo um pânico nos olhos.

Não estava pronta. Não estava pronta desde o minuto em que saiu do calabouço com aquela missão. E sabia, no fundo das suas entranhas, que nunca estaria. A questão não era mais estar pronta.

Era ir.

A bastarda pulou no portal com Atlas grudado a si.

Caíram.

Vibraram.

Seus corpos revolveram-se. Viraram do avesso e encaixaram os pedaços.

Então ela atingiu o chão com um baque surdo.

Entreabriu os olhos enxergando uma espécie de céu de areia cheio de trequinhos incandescentes. Tinha volume e movimento. Era familiar mais ao mesmo tempo não tanto. Espreguiçou-se batendo os dedos em algo escorregadio e palpável. Ergueu a mão cheia do mesmo conteúdo amarelado do céu. Não era areia. Não. Era ouro.

Puro ouro no céu e na terra.

Mas nada do traiçoeiro.

__ Atlas? __ chamou.  __ Atlas?

Ele não estava em lugar algum. Devia tê-la soltado. Devia ter quebrado a única regra que o manteria inteiro.

Por quê?

Ela deu um soquinho na própria cabeça.

Porque você permitiu que ele viesse.

__ Ora, ora, ora.

__ Um pequeno camundongo!

Escolheu-se lançando um olhar desconfiado na direção que vinha a voz grossa e sonora. Teve que aguçar a visão para finalmente vê-los. E eles eram notáveis. Gigantes. Árvores gigantes cobertas de musgo sentados em tronos de pedra dispostos um de cada lado de um portão de ferro retorcido.

__ Viram meu amigo? – perguntou aos seres.

__ Amigo?

__ Amigo? – repetiu o outro.

A bruxa revirou os olhos e ergueu-se cansada de joguinhos.

__ Quem são vocês?

Se estes eram os famosos guardiões estavam executando um péssimo trabalho.

__ Sou Servero.

__ E eu sou Servero.

__ Ótimo. __ Ela estendeu as mãos. __ Prazer em conhecê-los. Podem me dizer aonde posso encontrar as Eras?

Eles se entreolharam com seus olhos ocos escavados nos cascos.

__ Gostei dela, Servero. Direta feito flecha de caçador. Pois bem, minha jovem. Atravesse o portão, responda seu teste e encontrará o que procura.

__ Que teste?

O monstro inclinou-se para ela como se fosse lhe confidenciar algo.

__ Qual é sua sina, bastarda?

Sua voz reverberou até nos ossos da bruxa que chocou-se ao não fazer ideia da resposta.

__ Rápido. __ resmungou o outro Servero. __ Atravesse o portão.

Ela fez, dando uma última olhada para trás antes do breu a engolir.

Nada? A sina dela seria nada? Porque era o que tinha do outro lado. Não. Não seria tão fácil. Três sombras surgiram. No começo tímidas, depois com holofotes próprios iluminando suas capas negras. Estavam paradas a poucos metros dela. Silenciosas. A garota preparou-se para tudo, mas não para o que se seguiu.

Os capuzes deslizaram de seus rostos revelando suas identidades. Ou melhor a identidade dela. Eram ela. Os traços dela. Versões dela mesma lhe encarando com sorrisos lotados de uma malícia estarrecedora.

__ Não. __ grunhiu. __ Não, isto não!

Deu um passo cambaleante para trás. Tinha que ir embora. Tinha que desistir. No que estava pensando? Aquilo era mesmo loucura.

Então o viu. Atlas. Ao longe, deitado no chão em um sono profundo. Correu até ele sentindo uma necessidade absoluta de tê-lo perto. Mas nunca chegou. Não importava o quanto corria, nunca chegava. Não conseguia, a distância entre eles sempre ampliava como parte de uma piada sem graça. Parou, o coração pulsava em sua garganta pedindo socorro. Olhou ao redor desvairadamente para as três ela que assistiam a cena com uma petulância estampada. Escolheu uma a esmo e jogou-se de encontro a ela. Proferiu um soco no meio do seu rosto contente e enviou uma onda de eletricidade cruel para o cérebro falso dela. E nada.

Nada aconteceu.

A versão apenas chacoalhou a cabeça e voltou encara-la sem nem um arranhão. Pareceu dizer é minha vez antes de empurra-la para o chão com uma força sobrenatural. Faltou-lhe o ar, porém não teve sequer tempo de acha-lo, sua oponente já estava puxando seu braço em um ângulo estranho provocando uma dor aguda que a estimulou chuta-la para longe. Entretanto, logo outra apareceu, dando tapas estalados em suas costas sem nenhum pingo de piedade.

Ela caiu.

Revidou.

Caiu.

Fez uma manada de trufulos pisoteá-las.

E nada.

Não importava o que usasse, elas continuavam ali de pé. Sorrindo. Atlas continuava distante demais. E ela sentia. Tudo. Cada estilhaço de dor imunda que atravessava sua pele. Cada feitiço. Cada risada maléfica a humilhando. Tudo.

Estava desabando.

Rendeu-se de joelhos, arfando. Tinha certeza que dias haviam passado, talvez anos. Talvez vencer não importasse mais porque talvez não houvesse pelo que vencer.

Seu rosto estava inchado, com cortes profundos e rasos assim como o resto do corpo. Hematomas surgiam sem descanso e haveria mais caso não parasse. Afinal, não conseguia vencer ela própria.

Abaixou a cabeça.

Desistiu.

Ficaria daquele jeito para todo o sempre.

Nunca deveria ter brincado com a sorte. Nunca deveria ter saído daquele calabouço.

__ Qual é sua sina?

Suor e sangue escorriam por ela, grudava nas suas vestes rasgadas e nos seus pensamentos.

__ Qual é sua sina, BASTARDA?

A voz era dela. A pergunta era dela. Levantou a cabeça encarando não seu próprio rosto. Mas os olhos. Os olhos que ardiam em chamas.

Não sabe que vocês bruxas possuem uma única serventia?

Sina.

Colocou-se de pé. Conjurou uma bela fogueira. Reais. E a princesa, é claro. Não poderia se esquecer da pomposinha. Por fim, chamou o fogo que acendeu a pilha de madeira sem pressa.

__ Me queime! __ disse a bruxa e depois mais alto. __ Me queime!

Entrou nas chamas. As labaredas a devoraram. Uma parte por vez. Não havia demora. Suas roupas, sua pele, seus nervos, seus ossos, seus átomos e até sua alma. Misturando seu ser ao ar. A resumindo em pó.

Do pó ao pó.

A plateia ia à loucura, suas versões gargalhavam enquanto também eram consumidas e a pomposa repetia e repetia as mesmas palavras entre dentes. Confio em você para queimar.

Ela não retraiu-se. Recusou a dor. Apenas queimou como o destino tanto queria desde o início.

__ Qual é sua sina? __ um lampejo de sussurro a atingiu.

De repente vermelho vivo tingiu-lhe os olhos. O gosto amargo em sua boca foi substituído por algo adocicado assim como o cheiro primaveril que a envolveu. O tempo estagnou. A fumaça cessou.

Não sentia-se ela.

Não sentia-se.

Qual é sua sina?

__ Minha sina é renascer. __ respondeu com uma certeza absoluta.

Houve um estouro.

Renascer das cinzas.

Renascer do pó.

Seus pés descalços tocaram folhas secas e gosmentas.

A bruxa abriu os olhos.

Diante dela havia uma vasta mesa de pedra onde seres estruturados de eras e flores murchas descansavam suas cabeças. Cabos pretos estranhos saiam de suas costas e espalhavam-se pela grama amarelada e pelos troncos de árvores pelados. Mas nada disso era estarrecedor. Pelo contrário, lembrava seu lar. Caos e somente caos. O que fez a jovem afastar-se foi a enorme forma de mulher feita de fios negros embolados parada em uma posição de dança com os braços e cabeça voltados para o céu acinzentado. Das suas mãos ardia o fogo mais alaranjado e quente que ela virá.

Estremeceu.

Mas, felizmente, Atlas estava lá para diminuir o pavor que cobria seu âmago. Estava lá, inteiro, encostado em uma máquina da época dos tempos tecnológicos que fedia a enxofre. A bruxa andou até ele meio desconfiada. Cada passo que dava parecia mais pesado, como se algo a tivesse puxando para o chão. No entanto, chegou. Jogou-se nos braços dele sem reservas assim que seus olhos abriram. As mãos do garoto percorreram suas costas enviando ondas calmas que espantaram o cansaço que se apossava dela.

__ Você está aqui! __ exclamou ela. __ Está aqui!

__ Sim, esquentadinha. Como você está? Diz que bem, por favor!

__ Estou bem. Pensei que tinha te perdido.

__ Eu sou um Perdido. Faz parte do meu encanto.

Ela sorriu permitindo-se abaixar a guarda. Descansou a cabeça no ombro dele por alguns minutos antes de ajudá-lo a levantar. A situação ruim voltou a se assomar sobre ela quando encarou as Eras. Precisava agir. E rápido.

__ Atlas, estamos no lugar certo, eu sei. Tem alguma ideia de como tirar este treco ai de cima? Tenho certeza que é ela que está causando os transtornos. Talvez se eu cortasse esses cabos… Era deste jeito que funcionava nos anos da minha tataravó, sabe, ela vivia cortando ou desplugando os cabos do meu bisavô. __ Ela riu diante da recordação. __ Ah, tive um momento estranho. Uma espécie de teste. Aconteceu com você também? Eu acho que…

Então ela o olhou e se calou. Não gostou do que viu. Havia um brilho nos olhos dele. Aquele mesmo brilho que habitou as íris do velho tarado antes dele sucumbir ao veneno. Mas Atlas não sucumbiria.

A bruxa arrastou-se para trás, cautelosa.

__ Linda, não é? __ disse o rapaz. __ A cena diante de nós, quero dizer. Digna de um museu, esquentadinha. Sabe o que é um? Meu tataravô contou sobre eles no diário que me deixou. Porém, tinha muito mais coisa ali do que arte. Devo dizer que ele ficaria orgulhoso se soubesse que acabei de enterrar os restos mumificados de um certo príncipe das trevas deveras tóxico neste belo lugar santificado.

Anakias.

Não quero ser rude, Lorde. Mas poderia me integrar o que vim buscar.

A mala.

A maldita mala que ele usou como escudo no casebre e não soltou mais.

A mala que estava descansando aberta alguns centímetros dali.

Não. Admitir uma coisas dessas era cruel demais, como ser perfurada por mil cortes de agulha só para depois ser perfurada novamente.

__ O que você quer dizer com isso?

__ Ora, por favor, não se faça de burra. Nós dois sabemos que você não é uma. Até te subestimei no início, acredita? Não dei nadinha por você quando lhe vi pela primeira vez e ainda menos quando apareceu na porta do jardineiro. E pelo jeito foi recíproco, não? Acontece, os homens costumam não levar as mulheres a sério e as mulheres costumam não levar os homens a sério. É normal perante a sociedade…Mas, enfim, estamos aqui! Sugiro que quebre os padrões e comece a me levar a sério. Porque tenho a honra de dizer, queridinha, que a baboseira da Profecia das Eras a qual você se agarrou com tamanha força é uma farsa. Somente um escrito bonito que prontamente me serviu de inspiração. Sim, eu sou o responsável. Eu orquestrei o fim do mundo.

Ela queria reagir. Nunca quis tanto. Queria massacra-lo. Entretanto, não conseguia se mexer. O choque a consumiu de dentro para fora. Como ele pode? E como ela pode acreditar nele? Como ela pode se entregar daquela maneira atropelando seu sexto sentido que dizia para mantê-lo longe?

Cerrou os punhos. Atlas estava errado, ela havia sido burra.

Mas não seria mais.

Reuniu uma força que não tinha para correr até ele e conjurou, no processo, uma onda de ácido. Porém não obteve sucesso. Espantou-se quando o poder não saiu de suas mãos. Espantou-se por perceber que não achava aquele calor intenso que sempre esteve presente em seu interior. Foi o suficiente para o rapaz lhe derrubar com uma rasteira hábil. A bruxa respirou fundo engolindo uma fumaça pútrida que encheu seus pulmões provocando ânsia de vomito. Tossiu sangue na grama. Lutou para manter-se ereta, para continuar, entretanto, seu corpo não obedecia, como se uma espécie de imã a grudasse ali.

Tinha que concentrar-se.

Tinha que acabar com a raça daquele maldito traiçoeiro.

__ Se poupe, por favor. Estamos em Terreno Neutro, sua magia nojenta não funciona aqui e a atmosfera tende a comprimir os místicos. Não é incrível?

Ele deu uma risada aguda que ecoou pelo lugar.

__  Antes eu era como você está agora. __ continuou Atlas. __ Uma bostinha abandonada as traças. Daí ouvi boatos sobre uma Profecia e confesso que não dei nenhuma atenção. Então o destino me presenteou com a bela Tutti e aquela vontade imensa que ela tinha de me encher com as histórias em relação ao fim do mundo. Me irritei tanto que pareceu digno tornar a Profecia real, porém ao meu estilo. Do jeito que as páginas do diário do meu tataravô diziam. Juntei umas máquinas, magia negra, um velho tarado e umas bruxas loucas por dinheiro e quando pisquei já tinha conseguido acesso completo a este paraíso.

O Perdido estendeu os braços e lançou um olhar para a bruxa que devolveu com sua melhor cara de tédio.

__ Criei um código capaz de controlar os guardiões e depois, antes que as Eras pudessem levantar suas bundas, dei a luz à essa obra prima caótica. Meu malware para o lar dos perversos. Voltei para buscar o elemento que faltava para destruição final, o que durou anos devido a periculosidade do príncipe das trevas. Quando o jardineiro finalmente o encontrou, não me pergunte como já que não houve tempo para explicações, você apareceu toda petulante na casa dele. E lá veio o destino de novo. Não é que a poderosa bruxa queria ir exatamente para o local que eu tinha que retornar! Foi divertido embarcar nessa com você e suas amiguinhas. Principalmente, com você, é claro. Por ser tão atenciosa a mim resolvi te premiar com uma aventura completa. Desliguei meu controle de entrada possibilitando que sobrevivesse ao seu próprio teste. Teve sorte ou não? Na verdade, não sei o que aconteceu. O que importa é que está aqui. Meus parabéns, estará um pouco viva para ver seu mundo ruir!

A bastarda ergueu os olhos.

__ Tenho mesmo que ficar escutando seus delírios de grandeza? __ cuspiu.

Observou uma raiva cobrir Atlas. Uma raiva que não combinava com ele. O papel de vilão definitivamente não lhe caia bem. Era muito pequeno e movido a ideia de um velho morto à séculos. Não, ele não era um vilão e a bruxa jamais o trataria como um.

Ele era um louco.

Apenas um louco que havia sofrido bastante nas mãos de vilões de verdade. No fundo, era um pouco como ela.

__ Engraçado, a pobre Tutti também foi irônica antes de eu cala-la eternamente com uma lâmina afiada.

Tutti.

Viu o rosto frio da amiga naquela vala tingir a sua mente.

Tutti.

Ódio a colocou de pé. Ela tremia. Ainda estava fraca. O Perdido, notando seu estado, esgueirou-se para perto dela. Automaticamente, a bruxa abraçou sua própria cintura a procura de algum conforto invisível. Não podia permitir que aquele imundo a tocasse, não após todas as provações que havia enfrentado. Estas que ele próprio ocasionou. Apertou ainda mais as mãos entorno de si, querendo encolher ao ponto de tornar-se inalcançável. Então sentiu, com as pontas dos dedos, algo duro e frio em seu cinto. Algo guardado em uma hora divergente daquela.

Uma esperança fúnebre.

__ Você realmente não entende que o mundo precisa disso, não é? __ sussurrou o traiçoeiro perto de seu ouvido. Perto demais. __ O mundo precisa voltar a ser um pouco como era antes. Nunca deveriam ter cedido a essa idade das pedras, esquentadinha. Tínhamos tecnologia a disposição, democracia e não precisávamos de seres como você que estavam escondidos em cavernas sendo extintos entre seus dejetos. A nomenclatura Perdido não precisava existir, porque nosso direito de ir e vir não encontrava-se nas mãos de uma vaca com sua vaquinha a tira colo… consegue imaginar o quanto a existência no planeta era melhor ou sua vidinha de merda a cegou?

Enxergando apenas o próprio umbigo até um assassino em série estaria certo, pensou a garota.

__ Me informe como pretende sustentar um mundo novo sem oxigênio, água, alimentos ou súditos, gênio? Que eu saiba suas máquinas não fabricam milagres como estes. Pelo contrário, geralmente elas tendem a proliferar a destruição, como aconteceu quando tivemos que ceder a idade das pedras.

O Perdido sorriu, não era a reação que ela gostaria de ver nele.

__ Esqueceu que o programador agora sou eu. Não falho. Além disso, somos seres altamente adaptáveis. Darwin, um importante da antiguidade, tinha uma lei para isso. A lei da seleção natural. Basicamente diz que a sobrevivência é a do mais forte, meu amor.

__ Quem foi que disse que você é o mais forte?

A bruxa tirou a adaga de ouro do cinto e dessa vez atacou seu oponente com maestria. Atingiu o braço dele com a lâmina o fazendo cambalear, surpreso, e gritar de dor. Seu rosto virou uma máscara demoníaca reluzindo as chamas que decoravam o céu. A distração foi o suficiente para a jovem arrastar-se até as Eras afim de puxar os cabos que pendiam de suas costas. No entanto, ele agarrou sua capa a desequilibrando. Viu sangue ao bater a cabeça na mesa de pedra. Sangue e uma leve tontura. Sacudiu-se na tentativa de impedir que o imbecil a tocasse, mas o rapaz era teimoso demais para desistir. Felizmente, ela também era. Arranhou seu rosto com gosto recebendo uma carranca vingativa como resposta.

__ Acho que ninguém vai te querer como novo governante, Atlas. Olha só para você. É patético! – provocou entre dentes.

A vingança logo veio. O Perdido a tirou do chão sem dificuldade e quando a pôs de volta foi com toda a insanidade que possuía. Ela arfou e teve que rir, pois amava um inimigo à altura. A última vez que tinha brigado daquele jeito com alguém real havia sido com o traste do ex-marido.

Não acabou bem para ele.

Atlas não aguardou suas divagações. Apenas, sem piedade alguma, envolveu seus cabelos com as garras e a obrigou olhar para a máquina.

__ Não se preocupe, esquentadinha, este é o novo governante!

Esta luta estava muito longa. Boas lutas também deviam chegar ao fim, ainda mais quando seu ilustre oponente adora tagarelar. Como uma ótima dama, deixou que o rapaz fizesse a primeira jogada. Ele juntou as mãos firmes no pescoço dela, apertadas cruelmente como as versões de si mesmas apertaram naquele teste. Estava acostumada. Era a sua vez. Desferiu um chute no meio das pernas do sujeito com a força das três ela juntas.

Xeque Mate.

__ Então ajoelhe-se diante dele, querido. __ O empurrou e depois montou nele. __ Ah, não, acho melhor mostrar um respeito maior, não? Deitado aos pés de seu governante soa dramático o suficiente para você? Acredito que é extremamente artístico!

Sentia o coração pulsando, a cutucando. Instigando ela a cometer atos ruins com flashes de imagens de Tutti, da natureza em chamas e da pequena Giselle nas mãos da criaturinha suja da realeza.

__ Fique no chão! __ berrou com fúria enquanto socava a bela cara dele. __ Fique no chão, seu desgraçado assassino!

__ Isto. __ O Perdido cuspiu sangue escuro nela. __ Me mate. Mostre seu valor, bastarda.

Suas mãos estacionaram no ar.

Lembranças a golpearam fervorosamente. Lembrou dos reais invadindo aldeias com forcados e provas inventadas. Lembrou das histórias da tataravó sobre a época em que seres humanos saqueavam uns aos outros e corrupção ardia feito lei. Lembrou-se ainda dos pobres animais na floresta presas fáceis de si próprios assim como toda a natureza que ruía aos poucos. Natureza esta que dava poderes as bruxas. Que as mantinham fortes. Vivas. Uma natureza ornamentada de maneira diferente dos preceitos requintados de violência gratuita dos seres humanos e místicos.

Quem era ela? Quem era ela para decidir pela morte daquele embuste? Uma mera poeira no universo tentando salvar o mesmo, pois os outros deram as costas. Uma poeira que acreditava em uma profecia.

E se acreditava, ela era.

Ela era o renascer.

Havia renascido.

Renascido como a natureza.

Abaixou as mãos.

__ Eu não sou como você. __ disse pegando os cabos para prender Atlas. __ Pronto, já que gosta tanto de sua tecnologia ficará enrolado nela.

__ E agora? __ perguntou ele com uma expressão divertida. __ Vai correndo para a realeza informar que trouxe o traidor, mas não teve a capacidade de acabar com o espetáculo dele? Porque, lamento te desapontar, eu não acrescentei nenhuma cláusula para impedir a minha profecia, docinho.

__ Ah, ainda está me subestimando. Que coisa feia! __ Ela retirou a adaga do braço dele se deliciando um pouco com o gritou que ecoou. __ Vou fazer do meu jeito. E vai ser muito divertido! Como as obras magníficas nos museus, esta também será quebrada.

A bruxa arremessou a lâmina na máquina que estalou e imediatamente começou a soltar uma fumaça negra podre. Então, sem perambulo, iniciou o processo de arrancar os cabos conectados nas Eras.

__ A propósito. __ comentou encarando o ser de fios que tremia. __ Deveria tê-la feito na forma de um homem. Deste jeito, como mulher, me sinto uma vaca por gostar de vê-la neste estado. Não que você se importe.

A malware caiu convulsionando violentamente. Por sua vez, o fogo apagou-se no exato instante em que as Eras mexeram as cabeças em sincronia. Arregalaram os olhos profundos e as belas flores que decoravam seus corpos ganharam cores exóticas. Houve um minuto de incerteza que retumbou sobre a garota. O monstro, tremendo por inteiro, jogou-se para fora da mesa e estendeu as mãos equipadas de chamas crepitantes em sua direção, lhe oferecendo apenas a oportunidade de proteger-se com os próprios braços. Esperou pela sensação que havia experimentado a algumas horas. A sensação de ser queimada viva. Porém, ela não veio. Ao invés disso, espantou-se ao notar que um tipo de escudo invisível impedia que fosse machucada. As labaredas estavam ali a poucos centímetros dela, no entanto, nem sequer conseguia sentir sua quentura. A senhora construída de fios parecia confusa, tanto quanto uma criatura sem rosto com formas indefinidas era capaz de expressar confusão. E foi com este sentimento meio indeterminado que a figura se desmanchou em uma pilha emaranhada. Flashes de seres gigantes desabando como ela, que em outro momento assolavam aldeias, polvilharam a mente da bruxa com uma intensidade vitoriosa.

De repente as frontes dos anciãos ergueram-se para o céu impecável e conseguintemente abriram sua bocas soltando um grito fino seguido por uma luz cristalina. Menos uma delas, esta flutuou para perto da jovem a observando como se quisesse agradecer. Uma paz cálida inundou seus membros cessando seus ferimentos e aflições. Satisfeita, a anciã continuou seu trajeto até um ponto no cenário. Levantou suas mãos trazendo sutilmente os restos de Anikias para cima da terra. Ela o fuzilou por tempo suficiente para que a múmia explodisse. Antes da Era voltar para seu posto a bastarda jurou ter visto um sorriso triunfante naqueles lábios ocos.

O ambiente a seu redor sacudiu. As árvores, outra hora decrépitas, se encheram de folhas e a grama logo retornou ao esverdeado saudável de sempre. O ar estava livre de toxicidade, exceto pela presença de Atlas, assim como a bruxa.

Um portal estendeu-se em um canto, convidativo, pronto para expulsa-los o mais rápido possível. A garota também estava mais do que pronta para ir embora.

Do outro lado, um exército de reais com armas em punho a esperava. Ela deu um suspiro e empurrou o traiçoeiro desgraçado aos seus pés afim de descontar a frustação.

__ Guardas, descansar.

Era a princesa andando entre eles com um rebolado exagerado trazendo Giselle em seus braços. A bastarda nunca pensou que ficaria tão feliz em ver alguém da realeza como ficou naquele fatídico dia.

__ Mama! __ gritou a menininha ao vê-la.

Ela pegou a criança em seu colo e, à apertando de encontro a si, jurou jamais solta-la novamente. Beijou sua testinha com um carinho que não imaginava que era capaz de sentir. Não acreditava quando diziam que a saudade era o sentimento que mais afligia um ser, mas naquele instante foi levada a considerar que ela tratava-se do maior inimigo que alguém poderia ter. Entretanto, quando finalmente vencida, a saudade transforma-se em algo fantástico demais para ser descrito.

Conferiu com cuidado a pedra do colar pendurado no pescoço da filha assegurando-se que aumentaria os encantamentos de proteção assim que fosse possível. Talvez chamasse as amigas para o momento, elas com certeza adorariam.

__ Vencemos? __ perguntou a pequena majestade com dúvidas estampadas em seus olhos.

A bastarda contou toda a verdade a ela, evidentemente não dando muita importância ou evidência ao estrume jogado no chão.

__ É uma história e tanto. __ comentou a princesa por fim, deixando claro que não colocava a mão no fogo pelos detalhes. __ Obrigada, meu povo agradece.

__ Não pense que isto faz de nós melhores amigas. __ resmungou ela abraçando a filha como reflexo das palavras seguintes. __ Não gosto nem admito suas atitudes e da sua mãe para com o meu povo. Saiba que o tempo de ficar quieta acabou.

Não iria mais colocar uma venda nos olhos e passear pela floresta fingindo que a vista era arco-íris quando, na verdade, frequentemente era sangue.

__ Certamente. __ A criaturinha sorriu. __ Então nos veremos de novo.

__ Sim, pomposinha, muito em breve.

Ela virou-se para ir para casa com ecos de novas palavras martelando seu cérebro. Livre era a mais gritante delas. As outras mostravam os danos na natureza que ainda eram presentes no caminho e que a jovem sabia que perdurariam por anos. Tratava-se do recomeço. E recomeços eram árduos e lentos. As vezes banhados de sacrifícios. Entretanto, recomeçavam. O exemplo disso já se evidenciava atrás dela. Os vidros do prédio alto com a insígnia da rainha forjada em um logo antigo refletiam os brandos raios solares que iluminavam o céu azul claro como nunca. E o ar, o doce e leve ar, havia ganhado um aroma familiar e persistente chamado esperança.

 

Thalita Cristiane da Silva

Thalita Cristiane da Silva

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