A perseverança em Até o Fim

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

“13 de Julho, 16h50

Sinto muito…

Sei que não quer dizer muito a esta altura, mas eu sinto.

Eu tentei.

Acho que todos concordam que eu tentei… ser verdadeiro, ser forte, ser gentil, amar, estar certo.

Mas eu não estava. E sei que sabia disso, de todas as formas.

E sinto muito.

Tudo está perdido aqui, exceto pela minha alma e corpo — isto é, o que sobrou deles — e alimento para meio dia.

É imperdoável, eu sei disso agora, como pude demorar tanto para admitir que não tinha certeza, mas demorou.

Lutei até o fim. Não estou certo se valeu apena, mas lutei.

Sempre esperei mais para todos vocês.

Sinto muito.”

É com essas palavras que Até o Fim (All is Lost, 2013, Dir. J. C. Chandor) tem início e, se considero esse discurso demasiado comovente, é porque ele remete a uma sincera carta de suicídio, o que não deixa de ser uma ironia num filme que acompanha as aventuras de um personagem sem nenhuma predisposição aparente para se deixar levar pela morte.

Depois de ter seu veleiro atingido e danificado por um contêiner à deriva, o protagonista (seu nome jamais é revelado), interpretado por Robert Redford, passa a enfrentar uma série de dificuldades envolvendo infiltrações de água e tempestades que, pouco a pouco, vão despedaçando a embarcação e diminuindo suas chances de sobrevivência. Isso consiste em basicamente tudo o que poderia ser dito sobre a história do filme, mas se você estiver suficientemente sensibilizado, poderá se identificar com o protagonista, mesmo que inconscientemente.

Existe algo de poderoso nas narrativas com total ausência de falas. Em geral, são filmes que exigem um olhar mais atento do espectador. Se, por um lado, Até O Fim pode ser visto sem qualquer profundidade, limitando-se a uma desventura marítima, por outro, carrega subjacentemente uma metáfora comovente sobre aqueles que batalham até o esgotamento das suas energias.

A recitação da carta logo na abertura do longa não deixa de ser uma pista do por que esse sujeito se atirou a uma aventura dessas — mesmo sabendo que, por vezes, sentimos a necessidade de distanciamento, aventurar-se sozinho no mar aberto soa como uma viajem de renovação, justificada por uma enorme frustração experimentada na vida ordinária do aventureiro.

A metáfora do filme, a meu ver, consiste basicamente em ilustrar a maneira como somos assolados por problemas e traumas que consomem nossas energias. À medida que o filme avança, as dificuldades enfrentadas pelo protagonista vão se aprofundando, inclusive em função do cansaço que acumula após cada incidente por jamais ter tempo suficiente para se recuperar por completo.

Eu ainda diria que os momentos mais tocantes não são aqueles em que o herói se encontra em plena batalha, mas sim quando ele deixa transparecer seu cansaço, seja ao deitar-se na cama ou acuado dentro de um bote em meio a uma tormenta como se dissesse Isto é demais para mim. Cada empecilho, cada desventura que o protagonista encontra na sua trajetória parece flertar metaforicamente com problemas que enfrentamos na vida (com especial atenção para o momento em que ele tenta chamar a atenção de um navio que passa ao seu lado sem ser visto por ele, simbolizando a forma como pessoas que pedem ajuda são sumariamente ignoradas, seja por que motivo for).

Assim como ocorre no filme, o destino pode nos testar em demasia, nos levando, eventualmente, ao limite do que julgamos ser suportável, e o longa chega a ser poético ao nos mostrar numa narrativa sóbria que superar problemas profundos é uma questão de perseverança combinada com paciência.

Victor de Almeida Daud

Victor de Almeida Daud

Outras publicações

Rolar para cima