A lenda do Cristo Sofrido

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(Trecho do capítulo: “Carregamento da Cruz”)

(…) O Faustino tinha terras que iam daqui até Agudos, e junto com outros cafeicultores da região, dizimaram a tribo Caingangue que vivia aqui. E por falar em Caingangues… Faustino era um homem público, presidente da Câmara Municipal de Lençóis Paulista. (…) Além de convocar a Igreja para catequizar os índios, participou de chacinas desses nativos. (…) Agora que entra a lenda: Esta terra que estamos, houve a matança que terminou de exterminar os Caingangues do interior, uns foram mortos com arma de fogo, outros com varíola, isso por volta de 1850. Diz a lenda que os nativos, antes de morrerem, rogaram uma praga que nenhuma criança vingaria neste chão. Verdade ou não, depois da construção do casarão para a cultura de café, todos os recém-nascidos e crianças das fazendas vizinhas, tanto os filhos dos donos de escravos, quanto os filhos de escravos, começaram a falecer por doenças misteriosas.

(…) Entre arfadas e suor, ambos alcançaram no terreno da antiga capela que adornava o morro: uma estrutura completamente maltratada pelo tempo, em vista de seus tijolos adobe estarem à mostra; portal alto e singelo – sem sinal dos batentes ou as folhas dos portões; a fachada do teto era uma simulação tosta de uma catedral, com uma ruça cruz em seu pináculo; seu tamanho era minúsculo, tanto que havia em sua arquitetura apenas uma nave e um rudimentar presbitério. Seu telhado, parte ruído por ação do tempo, recebia um manto artificial azulado trazido pelas universidades, além das estruturas metálicas em torno da construção que indicavam uma gana de revitalizar o lugar.

A vista do horizonte era o que compunha o Centro-oeste paulista: colinas que se entrelaçavam entre o respiro de mata nativa e o sufoco de monoculturas de cana-de-açúcar e eucaliptos.

Javier gotejava de suor.

– Agora eu entendo porque fizeram esta capela tão longe, para que os fiéis já paguem os pecados antes de chegar à missa.

– É quase isso – afirmou Clementino, também suado, mas esbanjando ânimo – Agora irei contar a história: Este casarão pertenceu ao Faustino Ribeiro da Silva, um magnata de Minas Gerais que veio fazer a vida no interior paulista, por convite de José Teodoro de Souza, que “descobriu” – Fez questão de sinalizar as aspas com seus dedos – essas terras. O Faustino tinha terras que iam daqui até Agudos, e junto com outros cafeicultores da região, dizimaram a tribo Caingangue que vivia aqui. E por falar em Caingangues… Faustino era um homem público; presidente da Câmara Municipal de Lençóis Paulista. Por conta disso, recebia inúmeras queixas de fazendeiros que tinham suas posses atacadas por –soltou uma ironia novamente– “selvagens”. Além de convocar a Igreja para catequizar os índios, participou de chacinas desses nativos. Não é à toa que não vemos qualquer sinal desses indígenas nas cidades aqui perto hoje em dia. Agora que entra a lenda: Esta terra que estamos, houve a matança que terminou de exterminar os Caingangues do interior, uns foram mortos com arma de fogo, outros com varíola, isso por volta de 1850. Diz a lenda que os nativos, antes de morrerem, rogaram uma praga que nenhuma criança vingaria neste chão. Verdade ou não, depois da construção do casarão para a cultura de café, todos os recém-nascidos e crianças das fazendas vizinhas, tanto os filhos dos donos de escravos, quanto os filhos de escravos, começaram a falecer por doenças misteriosas. Para conter o avanço da “praga”, o Faustino fez primeiramente esta capela chamada “capela do Cristo Sofrido”, com o intuito de rezarem pelas almas das crianças e eliminar a maldição.

Aparentemente, Deus ouviu as suas rezas e crianças não morreram mais. Faustino, por gratidão, começou a doar terras à Igreja para construírem capelas, onde vão surgindo as primeiras cidades do interior, como Piratininga e Agudos.

– E onde entra o Aleijadinho nisso? – Questionou o cativado homem.

– Como Faustino era mineiro, ele admirava as obras sacras espalhadas por Ouro Preto e Mariana. Alguns documentos encontrados neste casarão afirmam que o Faustino comprou uma estátua de pedra-sabão que fora cunhada em Congonhas, mesma cidade que estão os famosos doze profetas e a via-sacra do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos. Nas notas não diziam quem é autor da obra, apenas diz que foi trazida com muito esmero até este espaço. O que alguns estudiosos de arte barroca estão dizendo é que a estátua que está aí dentro é a primeira concepção da figura de Cristo quando ele está carregando a cruz…

– Carregamento da cruz… – Javier inocentemente interrompeu a fala ao receber a imagem da obra de Aleijadinho em sua mente, artes consumidas em seu ciclo acadêmico – Mas as esculturas foram feitas em cedro em Minas Gerais. Por que esta seria em pedra-sabão?

– É o que os acadêmicos estavam discutindo: a posição de Jesus é pouco diferente do original. Estão especulando que esta obra foi sua primeira tentativa e foi logo abandonada. Alguém a encontrou e a vendeu. E aqui está.

E saiba que você está sabendo disso em primeira mão, viu? Tudo o que eu disse ainda não foi sequer publicado em qualquer lugar. Então, bico fechado! – Exclamou o ufano senhor.

– E por que estamos aqui fora discutindo? Vamos logo ver ela! – Os olhos cintilantes encobriam por fim toda tragédia que seu pobre coração sofrera em pouco tempo. (…)

Alencar di Paula

Alencar di Paula

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