Paulina Chiziane, a contadora de histórias

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Soube de Paulina Cheziane quando ela ganhou o Prêmio Camões de 2021. Logo tive o prazer de vê-la e ouvi-la num vídeo recebendo a notícia e agradecendo. Simpatia a toda prova, é um encanto a mulher. Apresentou-se ao pé do fogo, de chinelos, como uma velha contadora de histórias, bem à vontade, deixando-nos também à vontade. Como só agora a conheci? Já esteve no Brasil, espalhou a sua simpatia pelas escolas de Belo Horizonte. Parece que Bauru é o fim do mundo. Ela é de Moçambique, ali, na curva da esquina, ou na curva da língua. Aliás, fala um português bem parecido com o nosso. Tem uma fala e um sorriso cativantes.

Paulina Cheziane começou devagar, publicando por conta própria, lá na sua Maputo. Um editor de faro, naqueles tempos em que os editores tinham faro, a descobriu. Levou-a para Portugal e o mundo. A Companhia das Letras publica seu “Niketche: Uma história de poligamia”. O nome já diz tudo: o tema é a condição da mulher em Moçambique (ou no mundo, Chiziane diz que o contato com o Brasil tornou a sua linguagem mais reinvidicativa, mais feminista. Foi quando sentiu mais a necessidade de protestar, diretamente.) O romance conta a história de uma mulher que descobre que o marido tinha outras mulheres. Não apenas algumas outras, mas sessenta outras mulheres. Então parte para a luta: reunir todas contra o amor comum, que se transformou no inimigo comum.

Li o seu “Ventos do Apocalipse” (Sociedade Editorial Ndjira, Grupo Leya, Maputo, 2010), um romance de histórias evocativas, melodiosas. Começa assim: “Escutai os lamentos que me saem da alma. Vinde, sentai-vos no sangue das ervas que escorre pelos montes, vinde, escutai repousando os corpos cansados debaixo da figueira enlutada que derrama lágrimas pelos filhos abortados. Quero contar-vos histórias antigas, do presente e do futuro, porque tenho todas as idades e ainda sou mais novo que todos os filhos e netos que hão-de nascer. Eu sou o destino. A vida germinou, floriu e chegamos ao fim do ciclo. Os cajueiros estão carregados de fruta madura, é época de vindima, escutai os lamentos que me saem da alma, KARINGANA WA KARINGANA.”

Karingana wa karingana, isto é, era uma vez. Parece que apenas “era uma vez” é muito pouco para tantas histórias que vêm depois, mas o nosso “era uma vez” também não é tão simples assim, remete-nos a um mundo de fantasia, rico de imaginação. “Era uma vez” é a entrada para o mundo dos sonhos. Estamos no mundo das histórias contadas ao pé da fogueira, mas as histórias de Paulina Chiziane são contadas por vozes roucas, já cansadas. São vozes de quem viu mais sofrimento do que podia aguentar, quase não tem forças para contá-las ao pé da fogueira. São vozes que anunciam os ventos do Apocalipse, os ventos do fim do mundo.

O livro começa por uma espécie de prólogo em que são contadas três histórias, por narradores muito simples. Os contos “O marido cruel”, “Mata que amanhã faremos outro” e “A ambição de Massupai” dão o tom do romance. É quando aconteceu a guerra pela libertação de Moçambique. A miséria imperava, o trabalho que restava era ir para a guerra. As aldeias ficavam vazias de homens. Às vezes mesmo as mulheres escolhiam o caminho da guerra, como Paulina Chiziane escolheu.

A história de “Ventos do Apocalipse” é essa, são essas histórias tradicionalmente contadas ao pé da fogueira. A segunda e a terceira partes são a continuação dos contos, como uma vila tenta inutilmente sobreviver diante da guerra que se aproxima, como é destruída e como os sobreviventes partem em busca de um novo lar onde pudessem continuar a sua jornada na vida. Há uma luta entre a tradição e a modernidade, uma e outra sucumbindo sob os ventos do Apocalipse.

Como diz Paulina Chiziane: “As minhas memórias mais remotas são das noites frias à volta da lareira, ouvindo histórias da avó materna.” Da memória da escritora vem a sua habilidade de contar histórias. Cada frase sua apresenta uma ou várias metáforas, estamos diante de uma linguagem essencialmente metafórica. Admira como se mantém em pé a música da sua poesia diante de tanto sofrimento.

Paulina Chiziane mantém viva a voz dos aldeões, a continuidade da tradição, apontando para o movimento cíclico da vida.

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Paulina Chiziane se apresenta:

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