Os olhos cansados da pandemia

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Quando conheci Alba, achei-a muito generosa. Depois que a conheci como profissional, passei a admirá-la ainda mais. Ela é médica de família e comunidade, o que já diz um bocado sobre sua capacidade de olhar o próximo para além das formalidades dos jalecos e da assepsia dos consultórios.

Acabou que essa mulher admirável se tornou minha namorada. E durante uma pandemia! Entre notícias alarmantes, crise econômica, máscaras, beijos e abraços, fui conhecendo um pouco mais sobre sua vida – consequentemente sobre seu ambiente de trabalho. Mais do que entender o funcionamento de um posto de saúde, entendi a importância do SUS e dos profissionais que se comprometem com a vida humana, especialmente as vidas mais vulneráveis. Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, agentes comunitários, servidores administrativos, motoristas, psicólogos, assistentes sociais, dentistas, fisioterapeutas, servidores da limpeza – eu nunca tinha pensado na quantidade de vivências e saberes envolvidos no processo de assistência e cura.

Tenho acompanhado a luta que Alba está travando. Dia desses, ela me mandou um áudio dizendo que o oxigênio do posto estava acabando. Eu pude sentir o tremor em sua voz. Num outro dia, chamou o SAMU e soube que havia quatorze pedidos na frente, sem previsão de chegada para o atendimento de seu paciente. Quatorze, eu disse. O sistema está se estrangulando para sobreviver. As férias de 2021 de Alba foram desmarcadas e horário para chegar em casa já virou lenda.

Eu percebo, não sem tristeza, que muita gente precisa sentir a proximidade do caos para mudar de atitude. Quero então aproveitar esse espaço para dizer que minha namorada, essa médica tão especial, que acorda todo dia às 5 horas (e ainda leva pão para seus colegas de trabalho, que pessoa!), está com os olhos cansados. Eu deito ao seu lado e vejo pequenos globos castanhos se perdendo num mar de pequenos lutos. Abraço-a, pensando que as coisas vão melhorar. Elas têm que melhorar.

Hoje fazemos oito meses de namoro. Queria poder dar a ela uma palavra de esperança, ser abrigo para seu corpo esgotado da luta diária. Mas sei que não será suficiente. Reforço então minha autocrítica e uso os espaços aos quais tenho acesso para pedir incansavelmente: usem máscara, não aglomerem, lutem pela vacina, combatam o negacionismo. Os profissionais da saúde estão adoecendo, temos 300 mil mortos no Brasil, a responsabilidade é de todos nós. Pensem como sociedade, já está na hora de lidarmos com a pandemia sem desviar o olhar.  Sejamos melhores, é só o que pode nos salvar.

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