O poeta do não (e do sim)

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Não.

Não. Nada. Ninguém. Nunca, núncaras. Nenhures. Nenhures, nenhum lugar.

Estou apresentando o livro “Os poemas de entrega”, de Límerson Morales (Editora Medusa, Curitiba – 2020) e Límerson é o poeta do não. É o poeta do silêncio. Límerson  é um performer. Performer do silêncio. Encara o público com os olhos esbugalhados, ou pior, com um não-olhar. Você espera a palavra e a palavra não vem. E você não fica decepcionado. Fica paralisado por aquele olhar e por aquele silêncio.

O leitor, por outra, pode ficar decepcionado com essa poesia do silêncio. Esperamos, ao abrir um livro, ler um grande poema, ter o prazer, o encantamento de descobrir um poeta digno desse nome. Não que Límerson não seja digno desse nome. Mas a sua poesia, como não poderia deixar de ser, é uma poesia do não. É uma poesia que, embora se sirva de muitas palavras, não diz muito.

Mas o poeta não deve dizer muito? Depende. Límerson é o poeta do silêncio, portanto silencia. É o poeta do nonsense. Portanto, não procurem sentido na sua poesia. “Não procureis qualquer nexo naquilo / que os poetas pronunciam acordados”, disse Jorge de Lima.

O silêncio é essencial para a poesia. Assim como a palavra, porque poesia se faz com palavras (não com ideias, muito menos com sentimentos), já nos ensinava Malarmé. Examinemos, por cima, o silêncio e a palavra na poesia de Límerson.

“Não haver silêncio algum entre os chapéus caía bem”, diz no poema “Síntese do escuro”, título que já diz tudo. “Mas era um poema fotoverbivocal abafado”.

“O movimento do calor em silêncio é de vento”, lemos em “A mesa dos objetos”. As coisas são mais importante, os objetos, em lugar do sujeito. Nada de subjetivismo, nada de sentimentalismo. “Hoje começou a fome danada no interior das coisas novamente”. Das coisas, e não de nós, pessoas, sujeitos.

“Não fortalecer o mau hábito que sai / da boca silenciosa naufragando”. Não seria mau hálito? O poeta lembra em seguida: “Não sussurrar o mau hálito que sai”. A vida é um eterno aprendizado. De quê. Dela mesma. “Aprender a gritar oceano”.

“A ausência de silêncio na beleza”, diz, no início do livro. A beleza vai nortear os poemas de Límerson. “Mas tudo o que sei dos reflexos / está correndo igual cachorro / vermelho igual coelho / por incompletude amorosa”. Vejam que beleza de imagens. Isso é poesia concreta. Imagens com elementos concretos. Fuga e distância.

“Depois de todas as finalidades / Silêncio e sumiço de tudo”. Está terminando o livro, diz: “Escrevo poesia e faço a publicação disso/ adiante de pessoas buscando risadas”. E as risadas não vêm. Vem o silêncio. O nonsense. Tem muito nonsense na vida, cara pálida.

Diz: “você desperta o silêncio / da ausência em silêncio”. A ausência perpassa o livro: “você desperta todas as tentativas de silêncio”.

“O silêncio fala pela tua boca”, “tua boca fala pelo silêncio”, “tua boca pelo silêncio cala”, “o silêncio boca pela tua fala”. Está dado o recado. Silêncio. A poesia não existe para dar recados.

“Dá um passo e desaba igual silêncio no palco”. O silêncio por tudo. E lembremos que a vida é um palco, um picadeiro. A palavra é necessária. “Circula entre os músculos sem a palavra óbvia”, já no título do poema, que termina reafirmando: “Sem a palavra óbvia onde a música alcançasse.”

“Queimadura dessas palavras em fibra”, já no título do poema a necessidade da palavra. “A palavra retorno/ na placa”, diz no poema “Prova concreta”. E reafirma: “Existe retorno da palavra”. Para concluir: “existe a curva da palavra”. O homem – que nunca deixa de ser poeta – sempre retorna à palavra.

O poema seguinte – “Textura de inseto para chuva” – reafirma o “poder de palavra e vazio de imagem na voz”. Tenho dito.

Afinal: “acabou a minha paciência / junto com meia dúzia de palavras”, diz no poema “Quem é a minha terra”, em que pergunta com muita originalidade justamente: “E quem é a minha terra?” Não podia ser mais inusitado.

Sempre “escuto a palavra ‘esqueça’”, diz no poema “Esqueça”. Não é à toa que toma uma “Decisão”: “É uma palavra que corta” e “Essa palavra não diz mais nada”. Mas até quando? Sabe que é preciso continuar.

No poema “Cavalos” exibe um de seus mais fortes achados: “Cavalos mordem as maçãs do rosto.” Poesia pura, grande poesia. Depois disso é natural, já não nos surpreende a síntese da imagem que lemos adiante: “Nos trotes de algumas palavras/ cavalos mastigam as maçãs nas lagunas.” Eu quero um assento cativo nesse banquete.

No poema “A graça daquela palavra” lemos com naturalidade: “É a graça daquela palavra na realidade”. Sabemos que estamos não apenas no reino do nonsense, mas da poesia mais pura.

De que precisa o poeta? Precisa urgentemente de “Uma palavra de ordem”, diz no poema “Um homem invisível por dentro”. Aliás, é a coisa mais normal que o homem é invisível por dentro, mas é totalmente original dizer isso na poesia. Límerson é mais original do que parece.

É verdade que o poeta nos dá um nó na cabeça com os seus hologramas. Nós concluímos que os hologramas podem ser físicos ou apenas – apenas? – a imagem que a poesia cria. “Sonhei com hologramas desse tipo/ Atravessando o holograma da palavra/ “Palavra” para sobrar sem palavra.” Ficamos sem palavra.

Límerson dialoga com uma das peças mais conhecidas de Pirandello: “Seis personagens à procura de um ator”. Para o poeta torna-se: “Seis personagens à procura de uma dor”. O t e o d são parentes, são consoantes linguodentais, podem mais facilmente confundir-se quando ouvidas. Pirandello é um autor do teatro do grotesco e do absurdo, bem de acordo com a poesia de Límerson.

Enfim, todos os grandes poetas (desde Santo Agostinho, que não era poeta, mas fez poesia fina nos seus livros filosóficos, Shakespeare, São João da Cruz, Camões, Drummond, até João Cabral de Melo Neto) trataram dos temas do tempo e o seu correlato, a morte. Límerson Morales não poderia ficar de fora: “quem respira morre”, diz no poema “Ouvido e poro”.

Em “Planta primata” volta no tempo em busca da poesia mais pura: “De volta aos tempos da pedra”. Diante desse poeta assim esquivo, sempre em sua concretude, até a dor foge, embora para morrer: “A dor fugiu de mim para morrer.” É o que lemos no poema “dor fugidia”.

“Para o pulmão bater asas” é a poesia original já no título. Mas vamos lendo, e continuamos a nos admirar: “o amor é um pulmão/ sendo respirado/ vivo ou morto”, e enfim, “para o pulmão bater as asas/ vivo ou morto.”

No poema “Morte”, a conclusão: “Morreremos no mar que é devorado pela alvorada.” Justamente, sabemos que a morte não combina com a alvorada. Gostaria de escrever: Toquem trombetas quando eu morrer! Límerson não estranharia, com orgulho tocaria trombetas.

Toquemos as trombetas para este poeta que arrebenta os portões da alvorada.

 

*

 

Imagem: é, naturalmente, a capa do livro, mas não poderia faltar a cara de espanto do poeta. O livro pode ser encontrado na editora, nas boas casas do ramo como Extinção ou Clepsidra e com o autor (que pode ser contatado pelo facebook ou Instagram).

 

 

 

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