O homem nu

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O homem nu andava de um lado para o outro. Dois jovens observavam sentados na frente de uma loja. Acompanhavam, divertidos, cada gesto do homem nu. Que punha a mão na cabeça, como se refletisse muito seriamente sobre algum assunto, ou como se se lembrasse de algum outro, depois abanava as mãos, dava dois ou três passos antes de parar novamente.

Não era o homem nu do Fernando Sabino, que tinha vergonha, etc. e tal. O meu homem nu não tinha vergonha. Não viemos todos nus ao mundo? Não, não era isso que ele pensava. Não pensava em coisa alguma, embora eu tenha sugerido que fosse um pensador. Um pensador não se mexe – como o de Rodin – e o meu se mexia como o diabo. Tirava a camisa, olhava-a pensativo – o meu pensador, enfim, resolvera pensar? – e esfregava-a na bunda, como se se limpasse.

Já se viu que o meu homem nu não estava inteiramente pelado. Estava calçado com sapatos sociais pretos e meias brancas, vestia uma cueca zorba cor de rosa e de bosta – segundo os meus dois observadores – e, ainda, uma camisa branca social – igualmente manchada de bosta.

Por que a polícia não faz nada?, dirão os senhores. Calma, eu direi, a polícia ainda não havia chegado. Não chega sempre atrasada, a polícia? Por que chegaria em tempo para atender a um homem nu cagado?

Pois o homem nu estava cagado e se preocupava muito com o caso. Não com o caso da nudez. Mas da caga… Caga o quê? Não existe a palavra cagadez. Que outra usar? Não sei se o homem se preocupava com esta ou aquela palavra, isto é para os poetas. Os cagados se preocupam com a bosta.

Eu já disse que o homem não tinha vergonha. Não tinha mesmo. Parou quinze vezes – talvez nove, ou dez, vá lá, mas foram muitas as vezes em que parou diante da imobiliária ali perto, passou e passou a camisa nos cabelos, depois na bunda, ou vice-versa, sem vergonha das duas funcionárias que olhavam encabuladas.

Quando por fim chegou a polícia, a moto de um dos rapazes que se divertiam com o espetáculo do homem nu já tinha desaparecido. Não foi um comparsa do homem nu, o rapaz faz questão de frisar no dia seguinte, deu no jornal que o cara tinha problemas mentais.

Mas o que você queria? Que ele fosse normal? Nós somos normais? Normalidade por normalidade, é conveniente ficar de olho no que é nosso – a moto, a bicicleta, o carro, a carteira. Afinal, o sol nasce e se põe para todos.

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(A crônica de Fernando Sabino deu tão certo que virou filme três vezes, com Cláudio Marzo em 1966, Roberto Santos em 1968 e Hugo Carvana em 1997.

A foto é de Paulo José no filme de Roberto Santos.)

 

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