O BUKOWSKI DE BAURU

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Abro a primeira página do livro do Cláudio Domingues, “Memórias de Blimmer”, e a primeira frase que leio, do prefácio, é “O garçom do Universo”. Lembrei-me do poema de Oswald de Andrade “Venceu o sistema de Babilônia/ e o garção de costeleta.” O sistema de Babilônia é o mundo poemático que Cláudio inaugura. É o fim da poesia bem comportada.

Para contrabalançar Oswald lança aquele “garção de costeleta”. Uma tentativa de abrasileirar a palavra francesa, não só de Oswald, Machado de Assis já usava “garção”. Esse “garção de costeleta” soa tão antigo, tão fora de época. Enquanto “o sistema de Babilônia” é a descrição perfeita dos poemas do Cláudio, não tanto em si, mas de como ele vê o mundo, confuso, degenerado, fora dos trilhos, da ordem.

Ao ler uns poucos poemas me veio de pronto na cabeça: Charles Bukowski. Isso é a cara do Bukowski, pensei. Fui reler alguns poemas de Bukowski e não vi nada de Cláudio Domingues. Tem a revolta contra o mundo capitalista sujo, é a mesma visão conturbada. Mas a poesia de Bukowski surpreendentemente é muito equilibrada diante dos poemas do Cláudio. Como se Cláudio Domingues tivesse um mundo mais selvagem pela frente para desbravar.

Tenho que convir que não errei de todo. O mundo perturbado de Cláudio Domingues lembra o mundo de Charles Bukowski. Os dois são, de certa forma, da mesma família. Os dois combatem esta sociedade desajustada em que vivemos. Desajustada para eles, mas quem poderá dizer, em sã consciência, que estão errados? A fraternidade existe de fato? A empatia de um ser humano pelo outro é um fato?

Parece que estou purificando demais a imagem de Cláudio. Vamos dar uma olhada rápida nos seus poemas: “Eu tive de dizer adeus dentro de um cubículo escuro”, é o título de um poema, e é forte como um poema, mais forte que o poema correspondente em si. Como “Os lampiões iluminam as batatas cravadas na terra”. Que lindo isso. E com a minha cabeça meio torta que me leva a ler “baratas”, fico com duas imagens contundentes, a minha, mais à Clarice Lispector, e a dele, mais pura.

Desde o primeiro poema, somos assaltados por títulos assim contundentes. Até mais contundentes que os poemas. “Luzes mais, luzes menos, os artistas serão descobertos pela polícia”. Querem mais pureza? “Trate de me emprestar seus olhos.” Ou: “O corvo é um bom companheiro!” Ou ainda: “Vejo pirâmides por cima das grades”. Talvez: “O endereço do menino gavião”. Ou este título mais longo que muitos poemas: “Essa reunião está prestes a acontecer simultaneamente dentro da abstração de meio milhão de corações isolados”. Não é mais um do mesmo. Podem ter certeza: estamos diante de um poeta nada convencional.

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