Notas para uma oficina de contos

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

 

  1. Por que escrever contos? Machado de Assis cita Diderot: “Façamos contos, assim o tempo

passa e o conto da vida se acaba.”

  1. Esqueçam toda a Teoria da Literatura! Vamos falar da prática do conto, de como o contista

faz seu conto. Sem teorizar, sem explicar. Se um cara não entende uma piada e você explica, ele pode vir a entender, mas a piada perdeu a graça. Aprender anatomia não ensina uma galinha a pôr ovos, disse T. S. Eliot.

  1. Dalton Trevisan: O conto é sempre maior do que o contista. A invisibilidade de Dalton Trevisan. O conto reduzido ao mínimo, o essencial.
  2. De onde nasce o conto? Relato de experiências de contistas, como surgiu a ideia, como se encorpou, como se tornou um conto.
  3. Por que o Vampiro de Curitiba? Que história se esconde por trás das histórias de Dalton Trevisan? É simplesmente o vampiro de almas, dos corações solitários, como ele diz? Lembro a sua decepção quando descobriu que tinha um irmão de outra mãe. Mas lembremos o que o próprio Dalton Trevisan já ensinou: somente o conto importa.
  4. A oficina de Tchekhov. O conto sem história. Quando não acontece nada. E está surgindo o conto moderno. A psicologia da personagem. A angústia. Enganosamente sem história.
  5. Hemingway está presente em todas as oficinas de conto. A frase curta e seca. O diálogo seco. O não-dito. O contista é o repórter que não escreve a reportagem, mas o conto. A dor subentendida. A fraqueza do homem forte.

É preciso ler e reler “Os assassinos”, de Hemingway. É uma oficina de contos.

  1. Em “Como ler”, Harold Bloom indica “Memórias de um caçador”, de Turgueniev, como imprescindível. Fui conferir, não me lembrava de Turgueniev como contista, e confirmei. Seguindo o método dos românticos de fingir que é um caçador escrevendo suas memórias, Turgueniev revela-se um escritor atual num livro que é uma lição de como escrever contos.
  2. A oficina de Machado de Assis. O contista precisa aprender com Machado de Assis. Ler e reler o velho bruxo, aprender as suas artimanhas, como ele escreve com aquela simplicidade de quem não usa artimanhas. Desde “Um apólogo”, que mais parece um apólogo do que o excelente conto que é. Parem de servir de agulha a muita linha ordinária. Até o inextinguível “O Alienista”, que mais parece uma novela do que um conto, pelo tamanho, mas tamanho não é documento.
  3. Falando em tamanho, a lição de Guimarães Rosa, que começou escrevendo contos longos como a obra-prima do conto universal “A hora e a vez de Augusto Matraga”, ou um conto que ficou tão grande que acabou virando o monumento “Grande Sertão: Veredas”, até chegar aos contos curtos – por isso, além de outros motivos pessoais, os chamou de “Primeiras estórias” – como o excepcional “A terceira margem do rio”.
  4. “As mil e uma noites” estão no início da história do conto. Sherazade contava uma história por dia para não morrer. É aí que está o busílis da coisa. Inventar histórias para não morrer.
  5. Dostoievski dizia que “somos todos filhos d’ ’O capote’, de Gogol.” Quem não leu, leia. Quem leu, releia. É a base, não só dos russos. Também da literatura moderna: o homem comum como protagonista.
  6. Gogol também escreveu “O nariz”, um conto precursor em todos os sentidos, do humor, da literatura fantástica, do nonsense, do surrealismo. Gogol, um escritor do Romantismo, se revelou um escritor à frente até do nosso tempo. É preciso ler e reler “O nariz” para não nos esquecermos de até onde a literatura pode chegar.
  7. O conto era chamado de “a arte de Maupassant”, tal a perfeição a que ele chegou. É o conto tradicional – começo, meio e fim. Por que temos medo hoje do conto que conta uma história? Lembrem-se: o conto que não conta uma história não é conto. Observo ainda que Maupassant escreveu contos longos que estão entre as suas obras-primas, como “Bola de sebo”, “A pensão Tellier” ou “Mademoiselle Fifi” (que Dalton Trevisan homenageou dando esse nome a uma cadelinha, em alguns contos), em que não deixa de haver uma contundente crítica social e moral.
  8. Tchekhov criou o conto moderno, sem início nem fim. O conto começa e termina no meio, no corpo. O leitor fica de boca aberta diante do fim de um conto de Tchekhov, como se dissesse: “Mas já terminou?” O conto é o fluxo de consciência, que revela o drama do personagem. Tchekhov corta o supérfluo em busca da perfeição formal e revela instantes únicos cheios de significação.
  9. Lembrar da Bíblia – belíssimas histórias desde a Criação, a árvore do Bem e do Mal, Caim e Abel, Abraão e Isaac, José e seus irmãos, Sodoma e Gomorra, o Dilúvio, Jonas dentro do peixe, todas histórias fantásticas.
  10. O romancista e o contista não se bicam? Dizem que o romancista não escreve contos, porque o conto é síntese ao contrário do romance. Verdade? Flaubert criou o romance realista com “Madame Bovary” e o romance moderno com “As tentações de Santo Antão”, depois publicou “Três contos”, que tem a belíssima história da infeliz Felicidade, que é uma suma de toda sua obra e ele mesmo julgou em uma carta: “Tenho a impressão de que a prosa francesa pode chegar a uma beleza de que mal se faz ideia”.

Sem falar de Machado de Assis e tantos outros romancistas e contistas ao mesmo tempo. Ser ao mesmo tempo poeta é mais difícil, embora o próprio Machado tenha 10 poemas antológicos.

  1. Ainda hoje se pergunta: Mas o que é um conto? Conto é o que o autor quer que seja conto, brincou Mário de Andrade. É mesmo? Brincadeira é brincadeira.
  2. É preciso a personagem. Captar o momento crítico da personagem. Chegar à sua epifania.
  3. Por fim lembremos Shakespeare: “A vida não é mais que uma história contada por um idiota”.
  4. Mas Macbeth completa: “cheia de som e fúria”. E aqui já entramos no romance de William Faulkner “Som e fúria”, que é a história de uma família contada pelo idiota de família, Benjy, e essa maneira de narrar agrada tanto o romancista que ele acaba narrando como um idiota todo o livro.
  5. Qual é a diferença entre o romance e o conto? O conto termina com a menina na ponta dos pés espiando a cena no interior da casa, isto é, termina onde começa o romance. São dois mundos distintos.

Outras publicações

Rolar para cima