Neutro é sabonete ou sobre como não há como não se sujar em uma guerra

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Eu sempre tive dificuldades com conflitos. Filha de pais com temperamentos opostos e combativos, ser conciliadora foi resultado de uma história de vida.

Em alguns momentos, sei que meu intitulado equilíbrio me serviu como fuga de certas responsabilidades. Quem nunca subiu no muro que atire a primeira pedra! Em outros tantos, a característica me foi motivo de orgulho, especialmente num tempo em que estar certo parece mais atraente do que humanizar o outro.

Ok ok, eu estou dizendo tudo isso para quê, afinal? Para explicar que eu, mais do que ninguém, entendo a vontade incontrolável de subir no muro quando tudo parece ruir ao redor. E, então, falo com propriedade: não é possível se isentar no Brasil de hoje! Simplesmente não dá! Não há espaço para neutralidade em terra de meio milhão de vidas ceifadas. E nem é mais caso de dizer que não se quer escolher um lado. Se você não escolhe, o lado te escolhe. Simples assim!

Foram quatro ministros da saúde em pouco mais de um ano de pandemia. Negação veemente de orientações científicas, defesa de medicação ineficaz, recusa de oferta de vacinas – de vacinas, veja só, aquelas que salvam vidas – vociferação de asneiras ininterruptas e repúdio àquilo que de melhor já construímos nesse país: diversidade, democracia, inteligência, compaixão.

Aprendi aos trancos que quando não nos levantamos para combater o que nos mata, damos força para a morte nos levar, sob o pretexto de que a briga não nos envolve e, portanto, não precisamos nos sujar com ela. A questão é: já estamos sujos por demais, todos nós. Os nossos estão nos deixando, não há lágrima suficiente para esse cotidiano de asperezas.

 

Hoje quem não se levanta contra o governo Bolsonaro, assiste a vida se esvair com um sorriso blasé no rosto. E eu sinto informar: não há fim mais triste do que esse!

 

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