Me tornei irmã da minha filha

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Quando descobri a gravidez há quase 22 anos fiquei sem chão. Não namorava e, convenhamos, naquela época a ideia de ter um filho sozinha era bem diferente de hoje. O mundo era diferente: preconceito, dificuldade de encontrar um emprego, pai e mãe inconformados, além do pai da criança que fugiu dos compromissos. Bem, hoje em dia geralmente ainda é assim. Não tinha tutorial nem grupo de apoio em redes sociais. Foi bem difícil lidar com tudo.

Pois bem, encarei da minha forma. As vezes ficava triste, outras amava os chutes na barriga. Me descobria a cada dia e, quando vi aqueles olhinhos observando tudo logo quando saiu da minha barriga, foi mágico. A primeira coisa que pensei foi: ela tem a minha sobrancelha!

Passado muitas lutas e reviravoltas, entre livrinhos lidos incansavelmente toda noite e brincadeiras na cozinha de mentirinha, já na fase da adolescência, percebi que se não me aproximasse da minha filha de uma forma diferente do que as mães de suas amigas, eu a perderia para coisas como drogas, gravidez, depressão, más companhias, entre outras.  Então criei um elo entre nós. Aprendi a falar a língua dela. Eu acompanhava-a em festinhas, fazíamos maquiagem juntas, tingíamos os cabelos, maratonávamos dois ou três filmes no cinema num mesmo dia. E ficamos próximas, nos tornamos amigas. Ela me contava sobre os namorados e paqueras e eu também.

Hoje me tornei irmã da minha filha. Fazemos quase tudo juntas. Ela da pitaco nos meus textos e poesias. Eu a ajudo na faculdade com provas. Somos confidentes. Vemos Pica Pau juntas, dormimos no mesmo quarto. Observei que o autoritarismo muitas vezes não leva a nada. Impor algo ao filho com rispidez e castigos só afasta ele de você. Falo a língua dela.  Corro junto com ela. Se ela quiser fumar, mostro os riscos, se proibir, bater, xingar, ela vai me detestar e continuar fumando. Não adianta tentar colocá-la numa redoma de vidro, não vai funcionar. O que funciona é rir junto, ir a um baile funk junto (melhor do que ir sozinha), é acolher os problemas, tentar resolver contando as experiências de vida, as boas e as ruins, mostrar o que é belo no mundo e como é possível sobreviver à vida adulta. Falar a mesma língua, esse foi o modo que encontrei de superar a criação de uma filha sozinha. Não digo que dá 100% certo, mas consegui dessa forma fazer com que ela se tornasse uma mulher forte, determinada e segura de si. Ser uma mãe chata e mandona, muitas vezes, só leva a discussões desgastantes, no qual sempre o prejudicado é o filho. Tentar uma aproximação diferenciada me fez uma mãe mais confiante e madura. Hoje nossos diálogos são incríveis e o laço que nos une é mais forte.

Sou uma mãe grata por ter uma filha dedicada, à faculdade, ao estágio. Sou uma mãe moderna como os amigos dela me chamam. Não me importo de as vezes falar uma gíria, beber uma cerveja ao seu lado ou falar das frustrações da vida amorosa. Lógico que ela não faz o que quer da vida. Existe uma hierarquia. Ela ainda pergunta se pode fazer algo, pede minha opinião e se eu falar não, há respeito. Nos respeitamos, cada uma no seu espaço. Mas gosto de ser sua irmãe. De vez em quando rola uma treta, dormimos de mal, mas no outro dia volto ser a Jabu dela e ela volta a ser minha vida.

Um rímel, um café e um textão é a coluna semanal de Juh Hunzicker

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