Horário de verão (In memorian)

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O horário de verão teria terminado sábado (dia 20/02), o primeiro sábado após o feriado de carnaval que não existiu. Mas, como todos devem saber, o horário de verão também deixou de existir. Aliás, foi uma das primeiras ações do atual presidente desta republiqueta, pelo simples fato de “quero mudar isso daí”. E, desde 2019, não temos mais. O objetivo desta crônica não é, de forma alguma, suscitar a briga de torcidas entre os que gostam e os que não gostam de horário de verão: já temos a uva passa no arroz, o arroz por cima/por baixo do feijão e outras dicotomias toscas e insolúveis que dão cabo disso. A “cuestão” é mais existencial: nascido em 1984, não me lembrava de ter passado um ano sequer sem o horário de verão. E, pesquisando pela web, descobri que este horário diferenciado começou a ser adotado de forma ininterrupta no Brasil desde 1985, tornando-se decreto-lei em 2008. Ou seja, quando comecei a adquirir alguma consciência da vida, o sol estava a pino às sete da noite pelos meses de novembro e dezembro. Portanto, para minha existência o horário de verão sempre representou um ciclo essencial: quando ele chegava, as férias da escola estavam mais próximas, bem como o Natal, a ida pra praia, o futebol na rua até mais tarde. Enfim, se o planeta Terra necessita dos 365 dias e algumas horas pra dar a volta em torno do Sol, eu precisava do horário de verão para também estabelecer a minha translação. Lá para outubro/novembro de 2019, quando comecei a experimentar o primeiro ano sem esse momento diferenciado dos meses, confesso que estranhei bastante. Era como se o tempo não tivesse avançado, como se o ciclo não tivesse se encerrado. Entrou o ano de 2020 e fomos surpreendidos pela pandemia, também. E no meio desse processo todo, ainda há o presidente, que parece não nos levar para frente em aspecto algum. E a impressão que me fica é que estou preso em algum momento daquele ano distante da graça do nosso senhor de 2019, quando ainda havia um bocadinho de horário de verão, quando o presidente em questão não tinha cometido as diversas atrocidades que cometeu ao longo desse tempo, e a pandemia ainda não existia (que a gente saiba). É óbvio que as experiências são muito distintas (os apoiadores do presidente estão aí para provar, os que odeiam o horário de verão, também), mas fato é que o horário de verão tem feito falta por aqui, sim. Ao mesmo tempo, sei que aquele mundo que existia antes de pandemia/presidente/horário de verão talvez nunca mais venha a existir. Cabe a mim a adaptação, ainda que crítica e às vezes de luta, para fazer em mim um ciclo novo. Sigamos.

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