Fado Português

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Li aos trancos e barrancos o “Fado Alexandrino”, de António Lobo Antunes. A primeira observação que me faço é de que Lobo Antunes nos revela, mais uma vez, que não se lê um romance para descobrir o que acontece no final, mas para saborear o que acontece a cada passo. Lê-se pelo prazer de cada frase, de cada imagem, da movimentação das cenas, como quando se viaja e se tem prazer no próprio ato de viajar, não em chegar a determinado lugar.

A segunda observação é o quanto é risível a tentativa de unificar a língua portuguesa, por decreto. Anotei em algumas páginas palavras portuguesas que nenhum decreto tornará brasileiras. A ortografia é a mesma, apenas. Você saberia me dizer o que são “cagufas”? Como você logo viu que o autor gosta de palavrões, teria aí embutido algum palavrão? E o que serão “mirones”, “miúfa”, “espalhanco”, “som mate”? Alguém poderia me dizer? Algum dicionário de Portugal, talvez, nunca uma nova ortografia.

Às vezes a expressão é inteligível pelo contexto: entendo que “grosso” é bêbado, “caraças” é caralho. “Não se aguentava nas canetas” posso entender o que é. “Paneleiros” e “bicha” já me contaram, e não têm nada a ver uma com a outra. Leio “assaloiado” e me lembro do “Sargento de Milícias” em que a personagem era “salóia”, talvez por proceder de tal ou qual lugar, e por ser velhaca.

Mas nem maiores nem menores explicações encontro para “à rasca”, “tareia”, “esparregado”, “chiça”, “garranas”, “laracha”, “camandro”, “arrecuas”, “pantanas”, “sarrabulho”, “sanitas”, “rebaldaria”, “alcofas”, “pagelas”, “magalhas”, “badagaio”, “pataleta”. É bem verdade que algumas dessas palavras estarão no meu dicionário. Encontrei “alcofas”, tipo de cesto de vime. Mas alguém poderia me dizer o que é um “roberto de feira”? Conheço o nome próprio Roberto, sei bem o que é uma feira, mas me diga – com todas as reformas ortográficas! –, o que será um “roberto de feira”?

Por isso falei que li “aos trancos e barrancos” o “Fado Alexandrino” de António Lobo Antunes. Não sei se os portugueses entenderiam a expressão “aos trancos e barrancos”. Eu não entendo boa parte das setecentas páginas do grande António Lobo Antunes, que é um grande escritor, repito, mas muitas vezes incompreensível para os pobres brasileiros. E nenhuma reforma ortográfica vai nos aproximar da beleza da sua linguagem.

António Lobo Antunes sabe que escreve difícil, e não lhe apetece dar trabalho ao leitor. Como menospreza o Nobel, que não ganhou, como menospreza José Saramago, que ganhou. Admira Tólstoi, Dostoievski, Dickens, esses são escritores, Saramago não. Refere-se a Saramago com um palavrão. A prosa de Saramago é superficial, com um sabor a ranço, a uma linguagem do século anterior, com uns laivos de modernidade para enganar.

Eu diria que Saramago é maniqueísta, divide o mundo entre bons e maus, enquanto António Lobo Antunes vê o homem em toda a sua complexidade. Devido a essa complexidade de sua visão, a sua linguagem é complexa ao extremo, ao limite, é uma corda distendida a ponto de arrebentar.

A dificuldade para ler António Lobo Antunes, já se vê, vai muito além do vocabulário bem português. António Lobo Antunes é difícil para os portugueses também. A dificuldade de se ler António Lobo Antunes está na complexidade da sua linguagem, de tal modo que os sentimentos e convulsões mentais só se traduzem como elucubrações de alto teor poético. Ler António Lobo Antunes é penetrar em outro universo, que a língua domina e não domina.

O seu primeiro romance, “Memória de elefante”, é uma obra-prima. Como se o escritor tivesse nascido pronto, completo. António Lobo Antunes serviu no exército português em Angola, como médico, e as atrocidades que testemunhou vão ser a argamassa que sedimenta a sua obra, que dá um nó no pescoço do leitor, ou no seu cérebro, tal a sua complexidade.

O seu editor francês disse que “Memória de elefante” é o melhor romance que já leu. António Lobo Antunes diz que esse elogio vale mais do que um Prêmio Nobel.

“Memória de elefante” como “Fado Alexandrino” têm por fundo a guerra colonial, mas mesmo quando uma obra sua parece tratar de outro tema, a violência do exército português é o sangue que lhe corre nas veias. Sim, veias, e veias abertas, jorrando, sufocando.

António Lobo Antunes é o maior escritor português vivo. Desconhecê-lo é perder muito do que a literatura nos oferece como prazer, apesar da dificuldade, e como enriquecimento cultural.

*

Imagem: capa da edição portuguesa de “Fado Alexandrino”, da Publicações Dom Quixote, que eu tenho, mais agradável. Há uma edição brasileira, da Record, com uma capa que me parece mais pesada, mas, afinal, de acordo com o romance.

 

 

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