Existimos: a sina do LGBT em se provar vivo

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

Há um projeto em tramitação na Alesp, a PL 504/2020, que visa proibir a veiculação de peças publicitárias com diversidade sexual. No texto, a deputada Marta Costa (PSD) afirma que a presença de pessoas LGBTQIA+ em propagandas traria desconforto emocional a inúmeras famílias e que mostrariam práticas danosas às crianças. A proibição viria com intenção de evitar a inadequada influência na formação de jovens e crianças.

O projeto carrega percepções inundadas de desconhecimento e um nível aterrador de discriminação, mesmo para o Brasil – esse país de retrocessos. Primeiramente por tratar a homossexualidade como uma desordem, algo a ser combatido. Em pleno 2021, já devíamos saber que ser homossexual, bissexual ou transgênero não é problema, muito menos doença. Há 31 anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirava a homossexualidade da lista internacional de doenças – aliás, hoje é uma vergonha para a comunidade médica que ela um dia tenha estado lá. Mas em terras tupiniquins, todo dia é dia de ter que provar o óbvio.

Segundo: faz-se uma relação bizarra entre infância e uma suposta influência sexualizadora da comunidade LGBTQIA+. Há uma enorme distância entre educação afetiva e incentivo precoce à sexualidade. Nenhuma criança pode ou deve ser exposta a insinuações sexuais de qualquer tipo, sejam hétero ou homo. Ninguém está propondo isso. O que se pretende é famílias formadas por LGBT’s também sejam representadas, porque essas famílias existem.

Como uma mulher lésbica, cansei de ouvir insinuações sexuais em contextos totalmente absurdos. Isso quando não tenho que ouvir coisas como dois iguais não reproduzem, como se as relações estivessem unicamente condicionadas à reprodução. Estou bem convencida de que há uma maldade estratégica na hiper sexualização da comunidade LGBT. Ao nos apartar do afeto, da subjetividade e da expectativa de formação familiar, somos desumanizados. Logo, não existimos.

É sobre isso a PL 504/2020 e tantos outros projetos malucos que, hora ou outra, escorrem das valas conservadoras do Brasil. É triste que um tema importante  como proteção à criança – cuja relevância podia estar embasando discussões sobre abandono paterno, combate ao bullying, ampliação do acesso à educação e à cultura – venha servindo de manobra para que um grupo já vulnerável sofra ainda mais violência.

É preciso que paremos de reproduzir esse tipo de desinformação e estereótipo, e esse apelo serve principalmente aos heterossexuais, cisgêneros – aqueles que, de alguma forma, já têm seu espaço de representatividade garantida. Só unidos e realmente engajados poderemos soterrar aberrações jurídicas como essa PL, e alguns outros absurdos que, infelizmente, ainda veremos.

Outras publicações

Rolar para cima