Eu acuso! – Quem matou o último lobo do cerrado?

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Não resisti. Tinha que usar a mais famosa manchete da história como título da minha coluna. “J’Accuse!” era o título do artigo de Émile Zola, o criador no romance naturalista, na primeira página do jornal “L’Aurore”. Tinha um subtítulo: “Carta ao Presidente da República”. Acusava o presidente e o próprio Exército de leniência no caso Dreifus, oficial acusado de espionagem, mais perseguido pelo fato de ser judeu: “Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu.”

Dizem que meu amigo Lázaro Carneiro morreu de depressão. Quem não é próximo vai dizer simplesmente que ele morreu de covid. Sim, ele estava tão abatido pela depressão, tão sem forças, que não aguentou quando a covid chegou. Mas o buraco é mais embaixo. Tenho que falar, tenho que acusar que Lázaro foi assassinado. Não vou acusar o presidente ou o governador por essa morte. O buraco continua sendo mais embaixo. Quando criança, no lugar onde eu morava, para qualquer lado que olhasse eu via cafezais. Era uma riqueza deslumbrante de verde e vermelho dos pés de café. Hoje, para onde quer que se olhe veem-se canaviais, a monocultura desse verde angustiante domina. Eu morava num lugar chamado Matão, bairro rural do município de Dois Córregos, SP.  Eram várias fazendas de café prósperas, depois veio o “progresso”. Então, não foram o governo federal e o governo estadual os culpados pela falência do ecossistema. Foram, também. Mas vêm antes a ganância, o lucro desenfreado, os grandes empreendedores do comércio e da indústria. Essa falha no sistema vem de há muito tempo. Vem desse “progresso”, que precisa ser colocado entre aspas. E o nome “sistema” tem uma conotação negativa.

Lázaro era o “Poeta do Cerrado”. Morreu defendendo o cerrado, que a sanha do lucro destruiu. A sanha do lucro confunde-se com o sistema. Lázaro foi destruído por essa sanha infernal, sem nada de humano. Foi assassinado pelo progresso, tão necessário, mas tão destruidor em sua sanha de devorar mais e mais. “O que eu tenho com isso?”, diria um outro. Nós todos temos tudo a ver com isso. Nós somos responsáveis, nós somos culpados pela destruição do meio ambiente, que é a destruição do próprio homem. Essa política de tirar o corpo fora é criminosa. Principalmente quando se tem o poder de frear essa destruição, refrear ao menos. Essa política de tapar o sol com a peneira é igualmente velha e criminosa. A pandemia que mata milhares de pessoas, o fogo que destrói milhares de árvores. A ganância que rouba milhares de árvores, que elimina o ar que respiramos. Tantos pobres pelo caminho, tantas pessoas morrendo de fome. “Mas não fui eu.” Os pobres sempre existiram e sempre existirão. Querem que eu seja culpado de todos os males do mundo? De todos não, mas é no mínimo indecente tirar o corpo fora. É falta de humanidade demais. Essa sanha destruidora do progresso é no mínimo assassina. Lázaro que o diga. Como sobreviver? Como viver? É como se Lázaro entregasse os pontos. Perdi.

Lázaro foi um caipira que se negou a abdicar da sua condição de caipira. O seu primeiro livro foi “O caipira que leu Nietzsche”. Ele deve ter penado para escrever o nome desse filósofo. Ele penou para ler muita filosofia e poesia. Sem abdicar da sua posição de caipira. Lázaro levou ao extremo a sua autenticidade. Foi caipira até fora d’água, até fora do seu elemento. Não se importava de aprender pontuação ou ortografia, tinha muito mais do que isso: a autenticidade do ser caipira. O seu último livro chamou-se “Entre eucaliptos e canaviais ouviu-se o grito do último lobo do cerrado paulista”. É um título longo, mas necessário como o ar que os eucaliptos e canaviais e a cada ano mais e mais o fogo vêm tirando da nossa terra. Vêm exaurindo a nossa terra. Bauru foi grande produtora de café, hoje tem terra exaurida, que sufoca, já nem pode mais gritar por socorro. O livro mais conhecido do alemão e humanista Hermann Hesse é “O lobo da estepe”. Nós não temos estepe aqui, nós temos cerrado. Quem mais vai encampar essa luta? Quem mais vai querer lutar até o último suspiro? Quem vai abraçar essa luta inglória? Lázaro foi talvez o último humanista. O seu livro poderia chamar-se “O último lobo do cerrado”. Lázaro foi o último lobo do cerrado.

Não teve tempo de ver o livro pronto. Com capa dura, amarronzada, perdendo a cor como a terra. Traz a imagem de um lobo guará, o lobo do cerrado, em extinção como o próprio cerrado. Mas é a imagem do lobo guará da nota de dois mil reais. Põe-se a foto de um personagem morto numa cédula de dinheiro, como uma homenagem a esse personagem. Morto. Quer dizer: mataram o lobo do cerrado. Não me lembrem que outros animais já foram homenageados. Porque também já foram condenados.

A apresentação do livro foi muito bem planejada. As primeiras páginas com algumas patas de lobo guará marcando território. Ao final do livro vão clareando até desaparecer, como desapareceu o território do lobo guará. Observaram como os animais estão invadindo as cidades? Errado. Nós que invadimos o seu território.

O livro apresenta poemas equilibrados cantando a beleza do cerrado, depois vai perdendo esse equilíbrio, até se apresentar em forma de prosa, e por fim em forma de pequenos poemas que vão se extinguindo como o cerrado já se extinguiu. Lázaro dialoga com os maiores poetas, um Manoel de Barros ou um Drummond. De Manoel de Barros, a linguagem no estado mais puro, sem a gramática ou outros ademanes que enfeitam e enfeiam a língua. De Drummond justamente o “Lobo José”. Está mexendo comigo, que sou José. Apesar do poema de Drummond, é um poema lindo. Lembrando bem o ritmo do “José” de Drummond. “E agora, guará?/ O cerrado acabou.” Poderia ser o fim do poema: “O cerrado acabou”. Mas o poema precisa soltar o seu grito de protesto. E termina mais forte ainda: “E agora guará, pra onde você vai?/ E agora guará? Pra onde é que eu vou?”

O Facebook costuma ser meio cego. Quando aparece uma foto minha, logo sugere a marcação: “Lázaro Carneiro”. A mesma cabeça branca nos dois, só isso. Fomos confrades na Academia Bauruense de Letras, que perdeu um de seus maiores nomes. Já comentaram que nós dois falamos do cerrado, somos os poetas defensores do cerrado. Quisera eu. Já fui acusado de imitar Manoel de Barros, talvez quando a minha poesia tinha mais natureza do que ideias sobre o tempo, o efêmero das coisas. Mas não sou defensor do cerrado. Apesar de ter nascido no mato, eu fui embora, “vivi, estudei, amei e até cri”, como disse Fernando Pessoa e eu repito, mas sou quase ignorante das coisas da terra. Lázaro leva esse estandarte com ele. Salve, Lázaro. Salve, último lobo do cerrado.

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Em tempo: – O meu texto com maior número de leituras no meu blog “poesiacrônica”, quase 14 mil acessos, foi justamente “O lobo guará” (do “Livro dos bichos”, prêmio Jorge de Lima, da UBE-Rio, 2011). Vou deixá-lo aqui como homenagem ao meu amigo Lázaro.

 

O LOBO GUARÁ

 

O lobo guará me olha de soslaio,

disfarça, com os olhos afogueados.

Estranha o medo humano em minha face

e se embrenha entre as pedras da Canastra.

 

O lobo marcha, alerta, no cerrado.

É senhor deste mundo, uiva, anuncia.

É sua a solidão da noite escura

marcada por seu cheiro e por seu uivo.

 

Quem vê o lobo fica sem palavras

pelo inaudito viso: tanta força,

beleza e astúcia nele conjugadas.

Saem chispas de fogo de seus olhos.

 

Quem sou ou serei para que me enfrente?

Por que enfrentar uma fraqueza de homem?

Quem tem, como ele, o dorso de um cavalo?

Quem tem, como ele, a força do leão?

 

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