Das neuroses da pandemia – O Mato que Cresceu na Sacada

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Na pandemia, assim como muita gente, adquiri novos hábitos. Comecei a cozinhar com mais frequência, graças aos canais de YouTube da Rita Lobo, Mohammad e Chef Taico. Virei pai de pet como muita gente também – e o Dedé tem alegrado a casa nesses dias difíceis. Porém, dessas novas atividades, a que talvez seja a mais surpreendente (ou diferente) do que eu já tenha feito seja a de cuidar de plantas.

Primeiro, porque nunca foi algo que me interessou. E olha que, na infância, morava numa casa com quintal bem grande. Ainda que houvesse pés de limão, guaraná e maracujá, nunca me interessei por tirar uns galhos, limpar o terreno, plantar outros frutos. Via-me ausente daquele espaço, e só entrava nele para procurar as gatas de casa que, procurando refúgio, guardavam seus filhotes em algum buraco naquele espaço de terra. Também ouvia dizer muito do “ter mão boa para cuidar de plantas”. Com certeza as minhas, canhotas as duas desde nascença, não haviam de ser para o cultivo.

Descobri, durante a quarentena interminável que se iniciou em 2020, que a questão não é bem ter aptidão para a coisa (talvez alguns tenham isso de forma natural), mas sim entender o que se está fazendo, estudar um pouco o assunto. E mais uma vez o professor foram os vídeos do YouTube. Desde então, a sacada do meu apartamento se viu repleta de diferentes espécies de planta, sejam elas nascidas de semente de frutas ou compradas no CEASA, sempre respeitando as condições do ambiente – meia sombra, por favor.

O assunto dessa crônica, porém, não é exatamente sobre os hábitos adquiridos na pandemia. Mas a digressão era importante para chegar ao assunto. Numa tarde qualquer, ao checar como estavam as “prantinhas”, observei um pequeno tronco em um vaso abandonado. Achei estranho, pois havia me esquecido de jogar fora a terra daquele vaso, que outrora abrigou uma maranta pavão. O tronco daquela planta nasceu bem rente ao parapeito, e por conta disso não notei a sua presença. O que era “aquilo”?

Chamei minha esposa, tiramos uma foto e perguntamos num grupo de Facebook a especialistas na área. Alguns responderam que poderia ser um pé de amora, e logo pensei que algum passarinho poderia ter sido o artífice excrementicial da planta; porém, a maioria das pessoas apontaram outro nome científico. Ao pesquisar no Google pelas imagens, cheguei à seguinte conclusão: “isso aqui não passa de um mato”.

Deixei o mato lá, do jeito que ele estava. Na manhã seguinte, vi que estava meio cabisbaixo, murcho, desejando um pouco de água.

Atendi ao seu desejo.

E tem sido assim, desde então. Um ou dois dias sem água, e o mato parece que vai morrer. E eu, que não o fiz nascer (a não ser pelo descuido com a terra no vaso), despejo água nele todos os dias. Diante desse dilema insolúvel, não me resta outra coisa a não ser abastecê-lo de vida todas as manhãs, enquanto ouço no noticiário as mais de quatro mil mortes de brasileiros pela Covid-19. Concluo que, enquanto ele quiser viver, vou jogar um pouco de água em seu tronco, e assim iremos seguir, cada qual em seu canto, enraizados em certos vasos.

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