Das neuroses da Pandemia – O contrassenso das manhãs frias no apartamento

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Alguns mistérios que nunca haveria de conhecer foram revelados com a pandemia e o maior tempo dentro de casa. Por exemplo, no apartamento onde moro, as manhãs são muito mais frias que as noites. Nunca havia reparado nisso porque saía para trabalhar, e não acompanhava a dinâmica que acontecia aqui. Ainda que o sol que desponta pela manhã tenda a aquecer todo o ambiente, não é suficiente para dar cabo das baixas temperaturas da noite. O frio é perspicaz e taciturno, e opera sem pressa, desaquecendo a concretude do prédio com muita habilidade. O resultado se vê pela manhã: as paredes, geladas, emitem sinais de resistência, qual tiririca nascendo no asfalto; o piso, tão débil quanto as paredes para conservar o calor do dia, esfria a que tudo toca: o sofá, os armários, a cama, os pés.

E já que estamos falando dos pés, o frio escala os pés e vai tomando de assalto outras partes do corpo, como os calcanhares, a tíbia, o estômago, o fio dos cabelos e, por fim, a consciência. É hora de procurar paliativos para abrandar o frio, como o uso de roupas, mantas, galochas, tênis, bebidas quentes. Não, o frio não é psicológico. Lá fora, o Sol cumpre o seu papel de fotossintetizar o mundo, faz a temperatura aumentar e aos poucos começa a derrotar o relutante frio, que por sua vez persevera. A vitamina D contra a vitamina da noite, o bem contra o mal, o maniqueísmo barato que acolhe os pensamentos mais tacanhos. Há a transição para algo moderado, que se dá após as duas da tarde. Quando a noite retorna, cumprindo o papel de rotação do planeta Terra em torno do seu próprio eixo, o apartamento está novamente mais quente. Neste contrassenso, a temperatura começa a baixar lá fora, e tudo volta a ser como ontem foi: o quente lá de fora contrastando com o frio daqui de dentro, e vice-versa, conforme o dia passa.

O apartamento faz uma rotação no sentido contrário – ou, se preferirem, faz uma revolução à rotação. Sempre foi assim, e sempre será assim: enquanto existir esse prédio, enquanto existir essa cidade, enquanto existir esse planeta e seu satélite e a estrela que os aquecem, enquanto existirem as leis de gravidade. A pandemia foi responsável por essa grande revelação empírica e copernicana em minha vida, da qual tenho sido partícipe. Não sei até quando estarei aqui, seja pela pandemia ou pela entrega de chaves para ocupar um novo canto. Só sei que sinto frio, e vou pegar uma blusa.

Esse apartamento é frio pra cacete.

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