Com o pé no estribo ou A educação pela pedra

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“Escrevo com o pé no estribo.” Assim começa Machado de Assis uma sua crônica. Explica que o pé no estribo quer dizer que está para mudar de clima. Não estou com paciência para entender por quê. Aliás, não quero entender. A frase é tão boa: Escrevo com o pé no estribo. Por que abastardá-la com qualquer explicação?

Não interessa por que uma frase é boa. É uma questão de fenomenologia da linguagem: ser ou não ser, eis a questão. Poderia tomar outra com a mesma sintaxe: Escrevo com o coração na mão. Resultado: uma frase sentimental, piegas. A questão não é de sintaxe, está se vendo, mas de cavalgadura. A palavra parece grosseira, mas é isso mesmo que eu queria dizer: ou o cavalo da linguagem marcha com nobreza, com graça, desenvoltura, com ritmo, às vezes parece que está dançando, outras, que é seco, ou pisa em pedras, machuca as patas, sangra; ou não marcha, emperra como um burro chucro.

Escrevo com quatro pedras na mão. Quatro, uma vai ferir o leitor. É preciso que o leitor seja tocado pela palavra. Escrevo com quatro pedras na mão. Não é todo dia que se encontra uma frase assim. Não há um porquê. A frase é perfeita: nem explicação não tem. Já disse que explicações abastardam, e desta frase eu sou o pai, como daquela o é Machado de Assis.

Rubem Braga, o cronista-poeta, interrogava-se sobre os mistérios da poesia. Por que o verso de Camões – “a grande dor das coisas que passaram” – é um grande verso?  Perguntava-se: por que tanta poesia nessa frase simples? O que faz uma frase ser poética?

Gosto de lembrar a historinha que Manuel Bandeira contava, do português que dizia da placa “Península Fernandes”: “Fernandes porque é o meu nome e Península porque eu achei bonito.” É essa toda a explicação da poesia.

Escrevo com uma flor nos lábios. Já disse essa frase num poema. Talvez por isso seja uma frase boa: é uma imagem, o que já é meio caminho andado para justificar a frase. O outro meio caminho é não precisar de justificativa. É a frase valer por si só. Não por uma ideia, uma tese, qualquer esquema. O texto não pode ficar preso a um esquema.

As gramáticas da criação (George Steiner) são indecifráveis porque são poesia. O poema, mesmo o mais simples, veste a roupagem do mistério. O poeta apenas não é um criador como Deus porque não parte do nada: tudo que viveu influi na escolha das pedras da sua construção. Às vezes as pedras se encaixam umas às outras magicamente, outras nem se encaixam, são pedras de tropeço, mas necessárias. A pedra e a flor, a mágica e o tropeço fazem parte da poesia.

O poeta faz poesia como quem respira. Esta é uma frase bonita: parece uma frase feita. As frases feitas são perfeitas; toda frase deveria soar como uma frase feita, que já estava assim, é assim porque é. Nem precisam dizer coisa alguma. Por isso vou explicar a minha respiração: os pulmões trabalham muito, mas ninguém percebe.

O poema é fruto de muito trabalho, que não deve transparecer. É transpiração, que para o leitor deve soar imperceptível como a respiração. Às vezes a respiração é pesada, presa, difícil, sufocante; muitos poemas, também.

Valéry disse que o poeta se esquece do trabalho que o poema deu. Muitos querem escrever sem trabalho algum, por um passe de mágica; não são poetas. O mágico aprende trabalhosamente os seus passes de mágica. Eu disse acima, ou em qualquer parte, que a poesia parece vir de um passe de mágica; não disse que vem milagrosamente, gratuitamente.

O poeta se esquece do trabalho que o poema deu. É uma boa frase. Mas é preciso lembrar o que é trabalhar um poema. Não é procurar a palavra perfeita, a rima, o verso com  métrica ou não; isso é questão de técnica; você pode dominar a técnica e não fazer poesia nenhuma. Bastasse a técnica, qualquer um seria poeta.

O poeta é como o mágico: faz e não ensina o segredo da sua mágica. Qualquer um pode aprender a fazer mágica? Teoricamente, sim. Teoricamente qualquer um pode fazer poesia.

O mágico faz mágicas; o poeta, mágicas com as palavras. Às vezes, a mágica é imperceptível. Mas sabemos que existe, que naquele texto ali as palavras se amaram de tal forma que pariram poesia. Não é questão de encaixar as palavras em tal ou qual esquema. É quando as palavras fogem de qualquer esquema.

É até possível ensinar o caminho das pedras: como uma se encontra com a outra e produz uma faísca, uma iluminação a que chamamos poesia. Aprender são outros quinhentos. Continuar nesse caminho pedregoso é para poucos. Não foi o que João Cabral disse no poema “A educação pela pedra” – mas a poesia é uma educação pela pedra.

***

Imagem: ilustração de “Morte e Vida Severina” – animação, que lembra bem a face do autor, João Cabral de Melo Neto. Essa animação deveria agradar-lhe bem, pela sobriedade, na apresentação dos diálogos, sem música, de acordo com a secura do ambiente da peça.

 

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