Com a palavra, o editor

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Em fevereiro de 2019, eu criava a Editora Mireveja. Ela nascia originalmente da necessidade de publicar meu quarto livro, Buenos Aires, livro aberto, depois de dez anos como autor do grupo editorial LeYa e mais de vinte anos atuando como jornalista. Mas a LeYa passava por dificuldades financeiras, como muitas grandes editoras, e desistiu de dar sequência à série de guias literários que vínhamos publicando desde 2011.

Buenos Aires, livro aberto – a capital argentina nas pegadas de Borges, Cortázar e cia. veio ao mundo neste contexto, já com o selo da Mireveja. Bom… vou deixar para outro momento os detalhes dessa grande aventura que é abrir uma editora no Brasil de hoje. Entenda esses dois primeiros parágrafos como uma introdução ao motivo de eu estar aqui falando de edição de livros com você.

O fato é que, desde 2019, editei dez livros. É pouco, eu sei, mas aceitei o convite para fazer essa coluna porque acredito que conhecimento, seja pouco ou seja muito, precisa ser compartilhado. Essa é a ideia dos textos da Editor Aprendiz, que vai tratar do processo de feitura do livro, de pensar um livro desde o arquivo original, no Word, no PDF, até ele se materializar em celulose e pigmentos.

Mas vamos lá. Comecemos por um conceito que tenho levado a todos os autores que procuram a Mireveja: livro é coletivo. Talvez para um editor experiente isso pareça óbvio (ou não, como diria Caetano), mas, aos que almejam publicar pela primeira vez, temos aqui um pressuposto importante, muitas vezes ignorado, e que, a meu ver, garante uma obra de qualidade. Afinal, a edição vai muito além do texto que a origina, de seu manuscrito, e necessita de muitas mãos para se concretizar.

Reforço essa ideia com uma frase que li, recentemente, num texto da pesquisadora Ana Elisa Ribeiro, da Universidade Federal de Minas Gerais, presente na obra Livro – edição e tecnologias no século XX:  

“autores produzem textos e editores, livros”. 

Tal conceito, que, segundo Ana Elisa, teria sido amplamente difundido pelo historiador francês Roger Chartier, um estudioso da leitura e do processo de edição, resume algo sobre o que eu vinha refletindo há tempos. Para deixar meu pensamento mais claro, recorro a uma pequena adaptação na frase:

autores produzem textos e editoras, livros.

Faço isso para não personalizar o nascimento de um livro exclusivamente na figura do editor, mas para deixar claro que uma publicação necessita de muitas mãos além das do escritor. Preparação, revisão e projeto gráfico são etapas que pretendo abordar em breve.

Mas o que faz um editor? Na minha opinião, cabe ao editor, primeiramente, entender como a obra se encaixa no mundo (se é que se encaixa) e, claro, como se enquadra no mercado editorial. O editor também pensa o objeto livro a partir da relação imprescindível entre forma e conteúdo. Isso, por si só, já implica em uma série de mudanças, cortes, sugestões, recortes e outras questões suscitadas na leitura dos originais.

Recentemente, um autor de primeira obra me procurou para publicar um livro com 164 poemas. Logo na primeira lida, foi possível perceber que ali havia um amontado de temas que se embaralhavam e soterravam o que existia de mais interessante em sua poesia. E é aí que entra um ponto indispensável para que o processo não se interrompa: o autor precisa confiar no editor. Felizmente, foi o que aconteceu, e acabamos de produzir um livro (que sairá em breve) com 85 poemas que traduzem de forma poderosa a mensagem que ele queria passar aos leitores.

Para finalizar o primeiro texto desta recém-criada coluna, sugiro a leitura de outro livro importante sobre o processo de edição, que me encantou desde o momento em que rasguei a embalagem do serviço de entregas: A marca do editor, de Roberto Calasso, lançado em 2020 pela Editora Âyiné. A obra subverte o próprio objeto livro e suas regras: não traz o título na capa, como seria usual, mas, sim, na quarta capa (ou contracapa). O que se vê na capa é somente uma pintura que, aparentemente, diz pouco sobre o conteúdo – a trajetória de grandes editores, entre eles o próprio autor, que esteve por muitos anos à frente da prestigiosa casa editorial europeia Adelphi.

Ou seja, Calasso deixa claro, como sugere no título, que o papel do editor é imprimir sua marca, tal como sugere no título, de forma que a obra encante (e surpreenda) seus leitores, como aconteceu comigo.

Nisso reside a beleza desse ofício, que será, a partir de agora, o tema de nossos encontros aqui no portal Bauru Literatura. Aguardo você.

 

Referências:

Livro: edição e tecnologia no século XXI / Ana Elisa Ribeiro. Belo Horizonte, MG: Moinhos; Contafios, 2018. Coleção Pensar Edição.

A marca do editor / Roberto Colasso. Belo Horizonte, MG: Âyiné, 2020.

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