Carolina Maria de Jesus

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“Quarto de despejo”, de Carolina Maria de Jesus, foi publicado em 1960. Eu morava em Igaraçu do Tietê, mas em 1959 tinha ido para o Seminário da Consolata, em Jaú. Lá por 1961 ou 1962 (não mais, depois a minha família já tinha retornado para Dois Córregos, nossa terra desde sempre), eu tinha treze ou quatorze anos de idade, em umas férias encontrei um exemplar de “Quarto de despejo” em casa. Minha mãe gostava de ler, apesar de ter morado boa parte de sua vida no Matão, região rural de Dois Córregos, e ter estudado muito pouco. Minha tia Cila, sua irmã, deve ter lhe trazido o “Quarto de despejo” de São Paulo.

O livro já estava judiado, caindo a capa, cheio de dobras, folhas se soltando, desgaste, marcas de sujeira. Pode não ter agradado muito, mas foi muito bem aproveitado. Eu não era um bom leitor ainda, tinha sido alfabetizado em escolinha de sítio, com muita dificuldade de aprendizagem, mas o livro já me encantava. Assim, eu penetrei naquele “Quarto de despejo” cheio de expectativas. O que seria esse livro, quem seria essa autora, por que esse título? Esse livro me chamou tanto a atenção que não esqueci até hoje a sensação que me causou. É um livro para não ser esquecido.

Aos poucos fui descobrindo que havia ali um novo mundo. Havia uma autora negra, pobre, favelada, que denunciava a situação sub-humana em que vivia. Como a sociedade permitia que existisse um ambiente como esse? Como uma escritora podia ser degradada a tal ponto? Vi que havia erros gramaticais naquelas páginas, mas havia sobretudo denúncia de uma situação degradante ao extremo de um ser humano. O governo era cego? Era conivente com a miséria absoluta de homens, mulheres, crianças e velhos? E uma dessas personagens, uma mulher quase analfabeta deixava explodir a sua revolta contra essa situação aviltante.

O mais bonito de tudo isso foi que esse livro foi uma das portas de entrada da literatura para mim. Por essa época eu li “A aldeia sagrada”, de Francisco Marins (que morava aqui pertinho de Bauru, em Botucatu, e morreu há alguns anos, em 2016, com seus 94 anos de idade). Esse livro me apresentou o ambiente sofrido, degradante também, de Canudos. Quando li “Os sertões”, de Euclides da Cunha, li apreciando, me enlevando com a beleza da linguagem, de que todos reclamam ser tão difícil. A história, a miséria do ambiente, isso eu já conhecia.

Agora eu aprendia, com o “Quarto de despejo”, que a literatura não precisa ficar nas alturas, com uma linguagem inacessível ao comum dos mortais. A linguagem, não apenas do povo, mas do povo mais miserável, também é própria para a literatura. Carolina Maria de Jesus inovou mais do que poderia imaginar, mostrou que a miséria e a revolta que ela carrega também são matéria de literatura.

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