Bom descanso

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Caro leitor, antes de ler as primeiras palavras desta crônica, gostaria de perguntar algo bastante íntimo, se me permite: você teve uma boa noite de sono antes de começar essa leitura? É imprescindível pensar nisso, ainda que a resposta seja (ou não) conclusiva. Entro nesse assunto porque, dias atrás, li uma reportagem sobre habitantes de um prédio em São Paulo que não conseguem dormir por conta do barulho de uma grelha solta no meio da 9 de Julho, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Ou seja, como o movimento de carros é intenso mesmo na madrugada, os moradores não conseguem ter um momento de paz, de silêncio. E a prefeitura é chamada, vai lá, conserta o troço solto, e dias depois o negócio se desprende de novo, os ruídos tornam a tirar a paz dos moradores.

Enfim, fiquei pensando muito nessa situação e nessas pessoas que não conseguem dormir, descansar. Não tenho sono leve, mas qualquer luminosidade ou barulho recorrente atrapalham meu sono (o travesseiro, se for muito alto, também). Quando mudei de casa há dois anos e fui morar num apartamento próximo à rodovia, demorei um pouco para acostumar com o vaivém dos automóveis na madrugada. Achei que nunca mais teria uma noite de sono tranquila. Com o tempo, o som distante/presente dos carros deixou de ser um problema. Aliás, em alguns momentos parece que até embala – o ruído servindo como ponto fixo da hipnose, ou um mantra.

Mas, voltando ao caso dos habitantes daquele prédio em São Paulo: como será o dia seguinte dessas pessoas, após brigar com a grelha e com os carros, xingar a prefeitura, procurar um canto mais silencioso dentro do apartamento? Quem já viveu dia cheio após uma noite mal dormida sabe como tudo fica distante, anuviado, incompreensível, até. Ao ler essa matéria, lembrei-me de O Som ao Redor. Ainda que o filme tenha tantas camadas interpretativas possíveis, a parte sonora também chama a atenção: cachorros, janelas, elevadores, máquina de lavar, música alta, o tanto que todos esses elementos urbanos corroem o silêncio e podem trazer até paranoia ao nosso cotidiano. Por fim, a conclusão que se é possível chegar é que o ser humano, além de produzir lixo em excesso, também existe para criar ruído. Que possamos viver em paz com o som ao nosso redor. Após ler a matéria citada nessa crônica, valorize sua próxima noite de sono. Bom descanso¹.

¹ Enquanto termino a crônica, ouço: música, marteladas e máquina aparadora de grama

 

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