Beijos boêmios babados

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Coisa assim, tão natural: amilase salivar. Já parou pra pensar que a quebra do amido começa na boca? Talvez jamais, talvez sim, mas num momento de profunda confusão com os processos digestivos humanos. Claro que não, quem se lembra dessas aulas de biologia? Tudo tão cru e verdadeiro, como salivar diante de qualquer coisa quando se está com fome.  Acontece e ninguém sabe exatamente o porquê e a resposta mais confortável é “deus”.

Que será que estava pensando Ele em colocar baba em nossas bocas? Que ideia! Imaginar um copo de suco refrescante de laranja, um refrigerante gelado que desperta o desejo de consumo ou um drink colorido preparado segundo receitas velhas mantidas por barmans. Pode ser também quando se vê a cerveja gelada caindo cadenciosamente num copo americano umedecido, formando um impecável fio de espuma. Enfim, quem não gosta de uma água gelada que desce pela garganta assustando todos os músculos enrijecidos pela secura.

Pavlov pensou nisso tudo quando colheu aquela baba canina? Esse psicólogo russo resolveu estudar como o comportamento pode ser condicionado e associou um barulho à comida, fazendo cães salivarem quando o som tocasse. Depois, tirou a comida, oferecendo pratos vazios e o mesmo barulho. Os cachorros então salivaram à espera.

São reflexos, mas não dizem tudo, nem indicam apenas desejos fabricados. É o próprio fio de saliva que se rompe em dois que indica como o desejo funciona após um beijo atrapalhado. É intenso, chega a ser inconsciente que nem se percebe a animalidade que os envolve. Você perdoa o vexame. Depois limpa o canto da boca como se ela estivesse anestesiada e seus movimentos involuntários, nota-se: ninguém tem culpa e nem nojo um do outro.

Por outro lado, nada mais asqueroso. Ver gotículas suspensas no ar e depois sentir levemente a sensação gelada e asquerosa na pele evapora todo o encanto e a vontade de se estar ali. A normalização do álcool em gel alivia o asco pela certeza da desinfecção – “não acredito que aquele cara babou em mim”. Babar involuntariamente é tão constrangedor quanto deixar a comida escapar da boca ou derrubar alguma coisa em alguém. Esquece.

O que conta mesmo é a saliva de desejo bom, a que só você nota. É quase imperceptível por ser involuntário, mas o excesso de baba na boca se torna inconfundível: você deseja e não pode negar, apenas dissimular.

Um litro gelado e uma mesa de bar sem companhia é capaz de me fazer pensar assim, o resto de bebida formando desenhos no vidro suado. Já está calor, a cadeira bamba me deixa alerta, um olhar que cruza o meu sugere o depois que o bar fechar. Deixa. Nunca oferecerei nada para esquecer aqueles beijos boêmios e babados. A lembrança molha a memória e o corpo. Viro o copo de novo.

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