As vinte línguas de Bauru

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Graciliano Ramos, em carta a seu grande amigo J. Pinto da Mota Lima Filho, em 1926, diz: “Um sertanejo daqui foi o ano passado a Bauru, ao café. De volta, confessou-me que o que lá havia mais extraordinário era se falarem mais de vinte línguas difíceis, ‘principalmente a língua paulista e a língua japão’. Parece que são duas línguas realmente difíceis.” Graciliano estava perturbado com os novidades linguísticas e literárias que aconteciam no sul, Rio, onde seu amigo Pinto estava, e São Paulo, onde os tais modismos mais o espantavam.  Primeiro pede: “vê se me arranjas aí uma gramática e um dicionário de língua paulista, que não entendo, infelizmente.” Depois insiste, agora no campo da literatura: “E manda-me dizer se é absolutamente indispensável escrever sem vírgulas.” Graciliano estaria terminando de escrever o seu primeiro romance, Caetés, que seria publicado só em 1934. Logo iria provar para o mundo que o novo em literatura independe das modas exteriores no trato da língua e das sensações.

Quanto a Bauru, em 1926 ainda era considerada Boca do Sertão, ainda estava bastante afastada da civilização. É estranho para mim (que cresci numa fazenda de café, no bairro rural Matão, em Dois Córregos) pensar em plantações de café em Bauru – mas aqui houve (existe ainda, não produz mais, mas pode ser visitada) a Fazenda Val de Palmas, uma das maiores produtoras de café do país. Difícil é explicar a questão das vinte línguas. Mas, além da “paulista” (que Graciliano deveria ver, com razão, como muito diferente da língua do sertanejo nordestino), teríamos a dos japoneses, dos sírios, libaneses, italianos, espanhóis, austríacos, alemães, dinamarqueses, franceses, judeus, que vieram ajudar a formar esta cidade nas primeiras décadas do século.  Mais recentemente vieram argentinos, bolivianos, chilenos, palestinos, coreanos, mexicanos, siberianos, mongóis, tornando Bauru um dos municípios mais cosmopolitas do interior paulista, coisa que os moradores daqui quase nem percebem. Talvez o sertanejo amigo de Graciliano não tenha mentido ou inventado, apenas exagerado um pouco.

O meu primo Fernando Vasques proclama: “21, a gente, moleque, tinha uma língua bem própria. Você sabe o que é burca? O que é bolocados? O que intancar?” Era preciso resgatar a língua da nossa infância, bem ligada a brincadeiras que hoje nem existem mais, ou além disso, a uma vida bem peculiar que não existe mais.  Burca não era a vestimenta exigida pelo Taliban, mas apenas síncope de búrica. Aliás, “búrica” (ou burca e burquinha) é usada quase só em Bauru. A bolinha de gude (nome mais conhecido) é chamada também de baleba, bila, quilica, clica, fubeca, peca, pinica, etc. Para um alagoano como Graciliano seria ximbra. “Intancar” é simplesmente corruptela de “entancar” o riozinho com pedras e folhagens para fazer um lago onde nadar. A criança pronuncia diferente (vejam bem que é uma questão linguística, sem nada a ver com erro), como o povo pronuncia diferente, e é assim que evolui a língua. “Bolocados” parece mais difícil. Certamente vem do verbo embolocar, pôr a búrica na biroca (buraquinho cavado no chão de terra). Fica mais difícil mesmo se lembrarmos a expressão completa: “bolocados sem multa”. Seria preciso conhecer a regra do jogo, aqui e naquela época. Outra mais difícil é “estressalanova”, que o poeta Luiz Vitor Martinello me explicou: “estrear sela nova”, brincadeira em que os moleques ficavam de quatro e os outros pulavam por cima. Há um nome posterior, em que a palavra “estre…” sofreu uma epêntese, transformando-se em “estrela”, eliminando a ideia de estrear. Eu conhecia por um nome mais feio: pular carniça. O gostoso mesmo é ouvir a palavra estressalanova pronunciada de uma só vez com o sabor do moleque bauruense falando.

Manuel Bandeira, num dos seus mais famosos poemas, “Evocação do Recife”, de 1925, justamente falando da língua dos moleques do Recife, conclui: “Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil.” Queria o mesmo que Machado de Assis, em discurso de 1897, quando dizia dos deveres da Academia Brasileira de Letras: “… buscará ser, com o tempo, a guarda da nossa língua”, “defendê-la daquilo que não venha das fontes legítimas – o povo e os escritores.” É preciso resgatar a língua da infância, a nossa gostosa língua portuguesa falada pelas crianças, como o nosso povo fala.

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Imagem: Crianças brincando de “pula carniça” (imagem da Net), brincadeira a que se refere o texto com o nome de “estressalanova” (ou “estrear sela nova”), também conhecida como “pula sela” ou “pula mula”. É mais original, e belo, o nome “estressalanova”, de Bauru, de um tempo que pode ser chamado já de “antigamente”. Será que ainda se brinca “pula carniça” ou “estressalanova”?

 

 

 

 

 

 

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