Afinal, o que é uma crônica?

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Crônica não é o que o autor quer que seja crônica. A sua liberdade consiste em voar com as asas que Deus lhe deu; pode arrastar-se como uma minhoca ou pular de galho em galho como um sagui, mas na hora certa. Às vezes o relógio está quebrado e o cuco canta rouco e gago: tem que ser assim.

Rubem Braga publicou um interessante “Conto de Natal” como uma de suas crônicas; o texto tem tudo para ser um bom conto, mas fica bem entre as crônicas.

Há crônicas que se parecem com contos, outras com poemas, e outras enfim que só se parecem com crônicas mesmo.

O escritor, qualquer escritor que se preze, não os senhores da sabedoria, mas os que não sabem, mas tiram leite da pedra, para depois maravilharem-se – Ah, era uma pedra! –, o escritor sabe que todo novo texto é uma nova aventura, é um salto no escuro, sabe que tem capacidade, e que à sua frente está o escuro. Que aterroriza, que apavora, mesmo aos mais preparados.

E a crônica é o salto no escuro que se repete sempre e sempre. Deve ser simples, comunicativa, que o leitor a pegue de um estalo, e sinta a necessidade de lê-la.

A crônica não deve ser feita como literatura. É a comunicação imediata. O oposto da literatura. Se, com o tempo, não for só papel de jornal, que nem para embrulho serve. Se sobreviver, será literatura. Não quando o escritor a escreve. Quando a pátina do tempo escorrer de suas ranhuras. Se sangrar. Se uma aurora brotar no seu horizonte.

O problema é escrever para o lixo, o lixão do tempo. Se nem o tempo a devorar, será literatura. Será arte. Coroada com o emblema do eterno. Mas é escrita para hoje. É notícia. Somente será arte se escapar do efêmero para o perene.

O escritor escreve a crônica como jornalista – trabalhador do efêmero – na esperança (quando tem essa esperança) de que um sublime e fortuito acaso a eleve do limbo dos dejetos perdidos ao altar da arte perene.

Talvez o sublime da crônica esteja mesmo no seu caráter de objeto perecível. Cumpre a sua função. Dá a notícia. Encanta. Comove.

Não move montanhas nem caminhões; não é a sua função. Tem a leveza nos lábios. Se tivesse lábios – e tem, como uma obra de arte, que se recusa a ser.

Gozado, se recusa a ser arte, e a sua glória é quando se torna arte.
O cronista deve escrever uma crônica como se fosse um poema, um conto, uma sonata até, tudo disfarçadamente. Que ninguém saiba desse ladrão que entra às escondidas, às apalpadelas, no seu íntimo – como se apenas nos visitasse de leve os olhos distraídos.

Cuidado com o cronista! Ele não quer nada, mas rouba a vossa alma. Talvez não tenhais alma, é que algum cronista já a roubou. Cronos é um deus implacável e o cronista é o seu lacaio mais solícito. Ele vos levará os chinelos, os pijamas, talvez a cueca, talvez o coração ou a alma, como se realizasse a mais inocente das tarefas, espanar os móveis e os bibelôs fúteis de vossa vidinha.

***

Hoje a crônica cedeu lugar à coluna. Não há mais lugar para o cronista-poeta como Rubem Braga. Os jornais ou revistas querem o colunista – que discorra sobre um ponto de vista, para defender uma ideia, com arte ou desastre.

Por outro lado, insistem em que a crônica é narrativa. O cronista deve narrar uma experiência, um caso acontecido ou não. Porque ninguém espera que os saborosos casos de Luís Fernando Veríssimo, hoje, ou de Stanislaw Ponte Preta, ontem, tenham acontecido.

Qual a diferença de um conto? Simples: o peso. Estou me lembrando do título do romance de Aline Bei: “O peso do pássaro morto”. O conto ou o romance têm mais peso, mais consistência. Têm personagens. Na crônica, temos tipos.

Nenhum demérito para a crônica. O escritor quer se valorizar e diz que escreve contos, não apenas crônicas. Rubem Braga é um dos maiores escritores brasileiros e só escreveu crônicas. (Algumas se parecem com contos, têm mais peso. Ou leveza, porque o peso pode disfarçar-se de leveza.)

Machado de Assis foi um romancista enorme, mas outros dizem que foi maior ainda como contista, e ainda há quem o veja superior como cronista. A questão é vencer o tempo.

O conto nasceu ao pé da fogueira, os nossos ancestrais contando histórias. Essas histórias foram se desenvolvendo quase ad infinitum, e nasceu o romance.

A crônica nasceu com os nossos ancestrais fazendo o relatório de como tinha sido o seu dia.

O escritor não escreve para o prazer do leitor? Certamente terá muito mais leitores escrevendo crônicas.

A crônica nasceu prima-irmã da história. Ou da História como maiúscula, se quiserem, se for preciso ser mais claro. Todo bom reino que se prezasse tinha o seu cronista oficial. Era ele o responsável pela sobrevivência dos fatos mais importantes.

Depois viria um Camões e transformava a triste história de Inês Pereira em um canto elegíaco d’“Os Lusíadas”. E seu marido, D. Pedro I, seria chamado de Cruel e Sanguinário porque demonstrou muito tê-la amado, vingando-a.

Quando os jornais passaram a registrar os fatos do dia-a-dia, foi importante a presença dos cronistas – que iriam tratar esses casos de maneira leve, jocosa muitas vezes, e séria ou dolorida, por que não?

Muitas vezes o cronista tem tanta destreza que a sua crônica se transforma num conto, com personagens agindo e sofrendo como em poucos dos melhores contos. Estou me lembrando aqui de “O afinador de pianos”, de Fernando Sabino, com personagens de peso, com grande carga humana, e não meramente tipos.

Um outro caso, também de Fernando Sabino, é “O homem nu”. Era como se estivesse escrevendo o script do filme divertido em que de fato se tornou. E nasceu apenas como um caso do cotidiano.

Hoje se usa e abusa do termo narrativa. Tudo que acontece ou deixa de acontecer está sujeito à sua narrativa. É onde o conto, o romance e a crônica se irmanam: estão da mesma forma sujeitos à narrativa.

O romance pode ser de ideias, o conto pode ser de atmosfera, a crônica pode ser poética, de ideias ou de atmosfera, vencendo nesse ponto de vista os outros dois, mas os três precisam ser narrativa.

Às vezes a narrativa mal se percebe, como nas linhas que você acabou de ler, mas é o eixo do texto.

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“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”, disse Rubem Braga. Aliás, a crônica é um gênero brasileiro. Os outros, ah, fazem um tipo de texto, com um nome ou outro, sem o sabor especial da nossa crônica.

Rubem Braga era desenhista amador, muito amador. Nem guardava o que desenhava. Geralmente autorretratos. Como o que ilustra esta crônica.

 

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