A viagem de Kehinde

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp
Compartilhar no google
Google+
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

Millôr Fernandes disse que Um Defeito de Cor (Editora Record, Rio de Janeiro), de Ana Maria Gonçalves, é um dos dez romances mais importantes da literatura brasileira. Em 2006 ganhou o prêmio Casa de Las Américas, em Cuba. É a referência cultural e histórica da identidade brasileira.

Você pega aquele livrão, quase mil páginas e dá um passo atrás. Quando começa a ler, vê que a narrativa é envolvente e tem muito a lhe oferecer. É a história de Kehinde, a sua odisseia sem fim. Viu a mãe e o irmão serem torturados e mortos, foi capturada com a avó e a irmã gêmea, que morrem no navio. Chegando ao Brasil, nada até a terra para não ser batizada com um nome de branco, na luta para manter a sua identidade. “A viagem de Kehinde é a minha viagem para dentro de mim mesma, onde encontrei eco das histórias que pesquisei”, diz a autora, sobre o seu processo de busca da sua própria identidade negra.

Kehinde conta a sua vida como escrava na Ilha de Itaparica, na Bahia, os seus sofrimentos, as viagens pelo Brasil e a volta à África, em busca de um de seus filhos, sempre fiel a seus deuses africanos, como a reafirmar as suas raízes. A obra reconstrói o modo de vida dos africanos, portugueses e brasileiros no tempo da escravidão, como os escravos se organizaram para sobreviver e lutar pela liberdade no país.

Kehinde ou Luísa Mahin – a narradora muda de nome segundo a necessidade –, já centenária e cega, dita as suas memórias. Foi uma lutadora, para manter a sua identidade, para preservar a sua religião, matriz dessa identidade. Ana Maria Gonçalves diz: “Para quem é mestiça, como eu, e em uma sociedade na qual o racismo é estrutural, a identidade é uma identidade negociável. A literatura pode ser uma ferramenta importante, porque é capaz de provocar a empatia, a capacidade de se colocar no lugar do outro, de vivenciar outras histórias e outras experiências.

A história de Kehinde foi inspirada na vida de várias mulheres. Pode-se notar que Kehinde, ao ser retirada de sua terra para ser escravizada, passa a se estranhar, a viver em busca de seu eu, a ver na travessia o verdadeiro motivo do viver. É o fenômeno do eterno viajante, que vem desde Homero até Guimarães Rosa. É o dilema do estrangeiro: não pertencer a nenhum lugar.

Quando volta à África, descobre que lá também é estrangeira: lá não é vista como africana, mas como uma brasileira. Ao perceber que poderia não encontrar o filho, a narradora relata o que viveu para que um dia ele possa ter conhecimento da história da mãe e seja um herdeiro de sua identidade.

O título me intrigou logo de início. Por que defeito? No final da narrativa, vem a explicação: a cor era um defeito – quem não era branco não podia ocupar um cargo na administração pública, no exército, mesmo na Igreja. A pessoa podia ter todas as qualidades, mas tinha que permanecer ao rés-do-chão se não fosse branca. Infelizmente é o que, veladamente, às vezes nem tanto, ainda acontece hoje. O preconceito tem suas raízes.

O livro poderia ter outro título. O defeito de cor é uma acusação contra o preconceito, é a mensagem do romance. Parece um libelo contra o racismo, mas o livro é isso e é muito mais do que isso. O núcleo da narrativa é a história de Kehinde, a sua luta incansável para preservar a sua identidade. O título poderia bem ser: “A viagem de Kehinde”. A própria autora refere-se ao romance com esse nome. A história centra-se em Kehinde. Mas é sempre um grande livro. Um defeito de cor é um livro obrigatório: é a história das nossas raízes, da nossa identidade de brasileiros. Nós todos somos herdeiros de Kehinde.

 

Outras publicações

Rolar para cima