A mulher submersa

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Quando começo a ler um livro quero primeiro saber quem é o autor, quais são suas obras, e dentro dessas, qual é a sua praia. O seu gênero ou forma em que se espraia melhor. Pois bem. A mulher submersa (Editora Urutau, 2020) é de Mar Becker (Marceli Andresa Becker), gaúcha de Passo Fundo, com formação e especialização na área de filosofia. Mora em São Paulo. Este é seu primeiro livro publicado. Mas, em uma editora pequena, vendendo apenas pela internet, nesta pandemia, já vendeu 1250 exemplares, uma venda extraordinária para livros de poesia no Brasil. Vendeu outro tanto na Europa, com o lançamento em Portugal.

Depois quero entender o porquê do título. Muitas vezes o título é o nome de um dos poemas, ou de um dos contos, ou de um personagem, no caso de um romance. A mulher submersa é dividido em quatorze partes, ou “cadernos”, nesta simplificação da linguagem que será uma das características da autora. O quarto caderno será “as mulheres submersas” e terá três poemas dedicados a Safo, que se atirou de um penhasco, a Virgínia Woolf, que entrou no rio Ouse com os bolsos do casaco cheios de pedras, e Ana Cristina Cesar (que disse em um poema: “não posso ainda acreditar na vida”) que se jogou do apartamento de seus pais, num oitavo andar, na praia de Copacabana. Obsessão pelo suicídio? Eu também tenho uma espécie de obsessão por essas mulheres, mas não pelo suicídio. Mar Becker tinha uma famosa história de suicídio em casa, a avó Manoela que teria se suicidado, segundo ensinavam, quando na realidade foi assassinada pelo marido. A avó será a primeira e grande mulher submersa da vida de Mar Becker.

Um livro é bom quando começa bem. Não é uma regra, mas é preciso começar bem. Começa com o enunciado: “sou uma cidade submersa”. Querem mais? Toda suavidade da poeta está nessas poucas palavras. Toda incisividade, cortante como um bisturi, mas suave, muito delicada. E você percebe, logo nas primeiras palavras, que está diante de uma poeta forte, e mais, de exceção. Você nem sabe que está diante de uma poeta que faz poemas de amor, e nem sabe, ou não se importa. Amor não a alguém, mas ao desejo, ao corpo, que é o que há de mais concreto nessa coisa abstrata que é o amor. A poeta não precisa ter fé, tem consciência de que “toda palavra dita soa como oração”.

O início do segundo caderno é um lamento: “como é difícil te perder”. Este é um livro de perdas. A poeta, depois de tanta perda, conclui: “amar como quem estivesse à beira de um lago, os pés descalços”. É a mulher submersa molhada ainda das águas da manhã inaugural.

O livro todo é um lamento por uma casa em ruínas (“na casa fabula-se outra casa, em ruínas”). É de tal modo diferente, em sua delicadeza. É um livro que não veio para se impor, em sua maestria, em sua grandeza. Não: este é um livro de coisas pequenas, pura sensibilidade. Este livro se impõe em sua pequenez. É um lamento por tantas coisas perdidas, dá vontade de chorar. A poeta se sabe escritura e se sabe esquecimento – “sou escritura/ mas sou também esquecimento”. Que beleza, dói de tão belo: “o ideal de um livro é que seja escrito numa asa”.

Era preciso recriar a mitologia familiar, a avó Manoela pairando sobre tudo. A mãe sabe da presença contagiante dessa avó, sabe com o corpo: “pálida como uma estrela que aos poucos se extingue. mãe viva vinda de dentro da mãe morta”. Como não cantar essa mulher que nem é uma mulher, mas uma ausência, “um não-corpo/ uma não-voz”. A poeta torna-se uma “boca luminosa de dizer teu nome, maria manoela/ tuas mãos a anos luz”. E como não se tornaria?

A poeta diz: “as mulheres são todas iguais”. Era preciso falar, ou sempre se esteve falando, da condição da mulher no mundo. Não é porque “as donas de casa vêm todas de uma história de infância muito parecida”. Pelo contrário, em sua inocência “a impressão que se tem é de que são cúmplices de um crime”. Uma mulher são todas as mulheres: o mesmo corpo, nome, voz. Fiquemos atentos ao aviso sibilino: “a rebelião virá”.

Eu não disse ainda o porquê do título? Precisa? Poderia ser a mulher que Mar Becker traz dentro de si, ou todas as mulheres, ou a mulher que irromperá de todas as mulheres. Para quê? Para dominar o mundo. Para ocupar o seu lugar no mundo. O leitor que conclua. Uma porta fechada precisa ser aberta. Um poema precisa levar o leitor, agora um poeta, a um estado de exultação. É o que faz este “A mulher submersa”. Sentimo-nos molhados do limo inicial. Conhecemos a condição da mulher além ou aquém das contingências do ser. Um poema precisa levar o leitor a sentir “o fim de um império”, voltar ao início mais primevo. Eu sinto na pele o barro de que somos feitos e grito e urro, em silêncio, de prazer e dor. Estou mergulhado no estado de exultação da poesia.

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