A montanha mágica

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“A Montanha Mágica” (Companhia das Letras, São Paulo) é um clássico da literatura alemã, em que Thomas Mann renova a tradição do Bildungsroman — o romance de formação — a partir da trajetória do jovem engenheiro Hans Castorp, que se relaciona com uma gama de personagens enfermos onde se refletem os conflitos espirituais e ideológicos que antecedem a Primeira Guerra Mundial.

Thomas Mann tinha se revelado um grande escritor já com Buddenbrooks, de 1901. Publica “A Montanha Mágica” em 1924. Em 1929 ganha o Prêmio Nobel de Literatura.  Em 1947 publica a sua obra de maior impacto, “Doutor Fausto”. Em 1912 tinha publicado “Morte em Veneza”, uma de suas obras mais conhecidas, tratando do tema da morte como em “A Montanha Mágica”.

Ler “A Montanha Mágica” é aprender a morrer. Quem vive está morrendo um pouco, e nessa montanha se vive muito devagar. Narra-se a história de Hans Castorp, um jovem sem muitas qualidades, que o autor apenas não quer chamar de medíocre. Estava um pouco esgotado, ao término de seu curso de engenharia. Antes de assumir um alto cargo na firma dos parentes, vai para um sanatório na montanha para repousar por quinze dias, com o pretexto de visitar o primo tuberculoso. Os médicos descobriram que ele trazia a doença embutida, e fica interno também. Então opera-se uma transformação nele, paulatinamente, à medida que vai vivendo nesse lugar em que parece que o tempo não existe.

No breve retrospecto de sua vida pregressa, é interessante notar o paralelo entre sua biografia e a de Thomas Mann, que também ficou sem pai (distante, no Brasil) e, embora tivesse mãe, entregue à indiferença dos parentes. Falando no paralelo biográfico, vamos notar já o inacreditável capítulo sobre o passeio na praia – isto na montanha, num lugar que vivia coberto de neve, mesmo no verão – como se a mãe do autor, brasileira, de Paraty, deixasse nele esse sentimento atávico do mar.

Vai conhecendo os hóspedes da clínica, que parecem não ter nada de extraordinário. São de fato pessoas comuns que pegaram uma doença incurável, na época, e convivem com ela da melhor maneira possível. Quanto melhor é essa convivência, quanto mais parecem normais, mais ganham profundidade psicológica, mais vamos conhecendo quanto de humano pessoas comuns carregam dentro de si.

Como não poderia deixar de ser, há a discussão religiosa – na pessoa de duas das personagens mais interessantes, mais complexas, um escritor e um jesuíta, dois pândegos a princípio, que vão crescendo e dominando a cena. É a cidade de Deus e a cidade dos homens em luta, ambas carregadas de erros, tentando justificar-se e impor-se. O desenlace dessa disputa será o clímax do romance.

Sem vencedores, mas com perda e desengano. No entanto, a vida continua. Hans Castorp conhece ou pensa conhecer o amor. Não percebe que quem vive nas suas condições não tem direito de amar. Como se dissesse que, quem vive nas condições em que todos nós vivemos a vida, não tem direito a amar.

É às vésperas da 1ª Guerra Mundial, quando o mundo vai transformar-se. Hans Castorp amadurece de repente – isto é, falamos que ali o tempo não existia, mas é tão vagarosamente que se passam as transformações nas pessoas que, quando veem, já são outras. Como se fosse de repente. Nada poderia ser de repente num livro de 800 páginas. Nada poderia ser mais surpreendente num livro de tantas páginas, em que não acontece nada, e que nos deixa presos àquele mundo cheio de humanidade, que sangra sem que se perceba, que morre – e olha-se com galhardia a morte –, enquanto vamo-nos enriquecendo interiormente. Não é apenas Hans Castorp que cresce ao longo do romance. Não são apenas as personagens – sem grandeza como nós – que crescem ao longo do romance. Somos nós também.

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