A galinha de Maupassant

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Guy de Maupassant tornou-se um dos maiores contistas universais, foi um mestre nessa arte, tanto que se fala do conto como “a arte de Maupassant”. Mas ninguém nasce escritor. Há todo um processo de aprimoramento, que só se consegue a duras penas. Maupassant teve a sorte de ter uma educação esmerada, que a mãe lhe propiciou – e depois o apresentou ao mestre dos mestres na arte de escrever, Gustave Flaubert, seu parente, que o introduziu no mundo literário, pondo-o em contato com os principais escritores da época, mas antes à arte da escrita. Proibiu-o de publicar qualquer coisa que não estivesse perto da perfeição. Como a perfeição não existe, devia buscar a exatidão. Só há um modo de exprimir uma coisa. Nada a mais nem a menos. Buscar a palavra exata, nem mais nem menos do que se quer expressar. Como se houvesse um só modo de escrever uma frase, de narrar um fato, de descrever um detalhe, que podia ser essencial para a história. Como se cada palavra do conto nunca tivesse sido usada antes. Um conto é específico, único, nunca genérico.

Para concluir o aprendizado (a maioria das pessoas não quer entender que escrever requer um longo aprendizado), Flaubert passou-lhe a última lição, como se fosse o seu trabalho de conclusão de curso. Depois disso, Maupassant poderia seguir seu próprio caminho. O mestre mandou-o descrever uma galinha atravessando a rua. Depois disso estaria comprovada a sua técnica de economia de estilo, como se a escrita fosse um ato natural, aparentemente sem esforço.

Já imaginaram? Descrever uma galinha! É coisa simples? Você já tentou? Não é fácil, não. É preciso descrever cada detalhe, minuciosamente, mas não tão minuciosamente que canse o leitor. O que é preciso descrever, o que é preciso narrar, quais gestos? É tão simples, imagine só: uma galinha. Só isso. Como criar uma página sobre esse ser tão sem importância. Porque ninguém dá grande importância a uma galinha. O que eu vou dizer? A cor da penas, por exemplo, é importante? O que é preciso mostrar para tornar essa galinha singular?

É tarefa tão importante que uma Clarice Lispector realizou em dois ou três contos. Sempre há mais a dizer sobre esse serzinho desprezível. Não é desprezível? Certamente é desprezado. Mas um dos contos mais importantes do começo do Modernismo Brasileiro é “A galinha cega” (1931), de João Alphonsus. Fui relê-lo para comprovar: é excelente. Como é excelente “A galinha degolada”, de Horácio Quiroga (mais ou menos da mesma época de João Alphonsus), que usou como contrabalanço da sua história quatro irmãos retardados, os “donos” da galinha.

João Cabral de Melo Neto não descreveu uma galinha, mas fez mais difícil: descreveu o ovo da galinha. Fez quatro poemas descrevendo externamente o ovo, como um objeto perfeito, que se pode manusear, observar por todos os lados – e pensam que é fácil? Todos os lados são iguais. João Cabral descreveu uma cabra, também em vários poemas, externamente, sem nenhum toque emocional. Deve ter escolhido a cabra (além, claro, de por ser comum nas paisagens do seu Pernambuco) porque não tem nenhum apelo sentimental. O que ele quer é mostrar que se pode fazer poesia sem nenhum sentimentalismo. Quando descreve o relógio, de bolso, apalpando-o por todos os lados, já tem mais perigo: impossível falar do relógio sem falar do tempo, inextricável, fonte de mil preocupações metafísicas. Ele o faz, percebe-se a preocupação com o tempo, subentendida, mas o que se observa é o manuseio de uma coisa concreta.

Escrevi, no começo deste ano um poema meio longo (umas dez páginas) sobre uma galinha atravessando a rua. Mas não descrevi propriamente a galinha: no início ela está atravessando a rua, acontecem mil coisas na vida do homem, e no final ela termina de atravessar a rua. Tinha já escrito a história de uma galinha manca atravessando a rua. Por mais que eu não queira, há um apelo sentimental. Mas eu já fui mais ousado: descrevi, num conto, uma galinhona preta dando voltas no quintal depois de uma pedrada na cabeça – um urubu. O personagem é um menino de uns dez anos que fica vigiando as mantas de carne-seca expostas ao sol pelo pai e dá uma pedrada no urubu. Foi a minha “galinha de Maupassant”:

“O Chico empunhou o estilingue, escolheu a pedra maior que tinha no embornal, uma pedrona azul, não, mais que azul, pretona, tão pretona que até brilhava, pretona que nem o urubu. Esticou o estilingue, apontou, mirou bem, e zás! A pedrada voou direto no meio da testa do urubu. Um som oco. O bichão nem tugiu. Caiu no chão que nem um saco. O merdento parado no chão, de pescoço esticado, que nem morto.

         O Chico até perdeu o equilíbrio, quase caiu lá do alto do seu posto. Ficou dependurado com os bracinhos finos. Se deixou escorregar para baixo, esfregando os olhos assustados. Os olhos arregalados, que nem o sal incomodava mais. E o defuntão preto lá no meio do quintal. Um segundo, uns dois segundos só. O bicho ergueu o pescoço, ergueu uma perna, se apoiou numa asa, tentou ficar de pé, e nada. Caiu para o outro lado. Mas estava vivo. Um defuntão preto vivo. A baba preta caindo do bico. Credo!

         O urubu firmou as duas patas, ficou de pé. Meio bambo, mas estava de pé. Caminhou em direção do Chico. Todo torto. Mal deu um passo, e caiu. Mas ficou olhando para o Chico.

         Ficou de pé, uma perna de cada lado. Apoiado com o bico no chão. Um esforço, e ergue o pescoço, que gira no ar. Um peru bêbado. Os olhos anuviados.

         Cai, e olha o Chico ora com um olho, ora com o outro. Abre o bico, como se quisesse falar qualquer coisa.

         Olha o chão. Uma minhoca põe a cabeça de fora, põe todo o corpo de fora, dança no ar. O urubu olhando.

         O urubu olha o Chico. Levanta num pulo. Dá um passo, dois, três em direção do Chico. Gira o pescoço no ar.

         O Chico seria capaz de apostar que o urubu estava rindo. Tinha readquirido forças. Filho da puta. Vinha vindo direto para cima do Chico.

         O Chico treme de medo.  Corre para cima da escada. Sobe dois degraus. A tábua do terceiro degrau cai. O Chico rala o joelho numa farpa da madeira. Olha o sangue, olha o urubu. Será que o urubu iria querer o sangue dele?

O urubu marcha altaneiro, no centro do terreiro. Anda meio de banda, mas mete medo. Está lambuzado de terra, de sal, de sangue. O sal da carne-seca, respingado no chão. O sangue também da carne-seca, ainda um tanto verde? Ou do urubu, ele mesmo, dando golfadas de sangue preto pela boca?

O Chico se encolhe no alto da escada. O urubu dá um passo, e olha em volta, dá outro passo, e olha para o Chico. Desembesta, avança feito doido para o Chico. E cai. Fica estatelado no chão.

Ergue só o pescoço, gira o pescoço no ar. O Chico corre para dentro de casa. Mãe, mãe! Agora que se lembrou da mãe, que não está em casa. Também, não iria ter coragem de mostrar para a mãe o urubu estrebuchando no quintal.

É. O urubu estava estrebuchando no meio dos varais de carne seca. Tinha feito um círculo de sangue, e ele, o demônio nojento, no meio, dançando uma dança macabra.”

 

 

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