A covid-19 e os gordinhos

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Definitivamente, a covid-19 não tem trazido felicidade alguma ao mundo. Muitos perderam pessoas próximas, outros tantos tiveram seus cotidianos afetados por outros vários motivos sociais, econômicos, culturais. Dentro do contexto dos considerados grupo de risco, e para representar a ação do vírus nas relações humanas, faço um recorte bastante específico: a situação dos gordinhos* diante da pandemia.

Ninguém é obrigado a ser nada, mas fato é que os gordinhos são comumente responsáveis por transmitir alegria. Espera-se deles uma piada, um sarcasmo, uma tirada genial. E, quase sempre, os gordinhos não decepcionam. Nesse novo contexto, porém, os gordinhos têm estado com o sorriso frouxo, a atenção em outra coisa: o número de pessoas obesas que vem a óbito e/ou internadas por conta do coronavírus é maior, se comparado às pessoas com o IMC dentro dos padrões.

Este cronista, pertencente ao grupo dos gordinhos (ainda que nem sempre tão alegre quanto), tem percebido certo olhar de apontamento e comiseração das ruas em relação à minha condição. “Olha lá, aquele gordo ali corre risco!”. Em diálogos com amigos e parentes, é comum o pedido “cuide-se” muito mais contundente e preocupante que o usual. E sim, por acompanhar as notícias e por não pertencer ao grupo dos negacionistas, tenho redobrado os cuidados.

A preocupação toma conta dos gordinhos: o riso, além de estar abafado pelas máscaras, surge mais contido, discreto; isolados, não conseguem manifestar a sua alegria comum, e ao mesmo tempo nem sempre conseguem demonstrar ao outro esse receio que estão do destino. Tendem, inclusive, a caminhar de forma ainda mais solitária: atravessar a rua quando se deparam com alguém, frequentar o supermercado em horários alternativos, demorar-se menos no cumprimento a vizinhos e conhecidos.

Todo cuidado é pouco. Cada passo é milimetricamente calculado – não pelo sedentarismo, mas sim por conta do medo. Deixou-se de exigir deles aquela alegria prosaica e genuína de outrora, e dessa forma tudo em volta fica um pouquinho mais carrancudo, mais triste. Enfim, a esperança é que a ciência (com a vacina e demais tratamentos) possa devolver a tranquilidade ao mundo. Inclusive aos gordinhos, que não veem a hora que a vida possa voltar a uma aparente normalidade para transmitir um pouco mais de alegria, ousadia e gargalhadas.

*poderia usar outro termo como obeso, gordo, balofo, mas preferi adotar um conceito mais carinhoso e menos pejorativo.

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