A cabra e os Manuscritos do Mar Morto

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Um jovem árabe estava pastorando as suas cabras nos montes de Khirbet Qumran, localidade na margem norte do Mar Morto, na Cisjordânia. Muhammed Edh-Dhib, o nosso beduíno, sentiu falta de uma cabra e foi procurá-la. As cabras sobem pelas pedras, de monte em monte, a nossa cabra estava no seu elemento. Muhammed ouviu um barulho e viu um buraco entre as pedras: jogou uma pedra e ficou ouvindo o eco ou, talvez, a sua cabra. Ouviu barulho de cerâmica quebrada.

No dia seguinte, contou a um primo e foram juntos procurar a cabra na caverna escondida. Se tinha até cerâmica, deveria haver uma caverna. Encontraram várias jarras de barro com pergaminhos guardados ou escondidos dentro. Pegaram alguns pergaminhos e levaram para vender na cidade. Assim começa a história dos Manuscritos do Mar Morto. Não me esqueço da data, 1947, porque foi o ano em que eu nasci.

Teriam sido escritos de dois a quatro séculos antes de Cristo até um século depois. A Bíblia hebraica foi organizada lá pelo ano 80 D. C. Era escrita a maior parte em hebraico, apenas alguns em aramaico e outros poucos em grego. Não havia textos do Novo Testamento. É provável que uma das cavernas tenha sido habitada pelos essênios, virtuosos ascetas judeus que viviam em uma comunidade ascética. Há teorias que João Batista e o próprio Jesus Cristo teriam sido educados no conhecimento bíblico pelos essênios.

Os pergaminhos encontrados em Khirbet Qumran comprovam a veracidade dos textos bíblicos. São os originais mais antigos da maior parte dos textos da Torá – os cinco livros do Pentatêuco: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Incluem ainda os livros de Isaías, comprovando que foram escritos por uma equipe, ao longo de mais de três séculos, além de Reis e Salmos, obras bíblicas não-canônicas (isto é, não autorizadas como verdadeiras) e um regulamento da comunidade que escreveu os manuscritos. Foram encontradas salas das mais diversas, nas cavernas, incluindo uma que os pesquisadores chamaram de scriptorium, com mesas, tinteiros e outros objetos usados para elaborar os pergaminhos.

Foram descobertas dezessete cavernas com documentos valiosíssimos. Muitos anos depois, em 2017, foi descoberta uma décima oitava caverna. Os primeiros documentos acabaram indo para os Estados Unidos, de onde o ainda recém-criado Estado de Israel tratou logo de adquirir. São os registros da história do seu povo, como viviam, como passaram a acreditar num Deus único, como foram dirigidos com sabedoria pelos juízes, pelos profetas, pelos reis, como foram escravizados, como voltaram sempre em busca da terra prometida, como lutaram por essa terra sempre com presença de Deus a seu lado. Um Deus guerreiro? Um Deus cruel? Um Deus misericordioso? Um Deus assassino? O povo de Deus é que mudou e viu Deus de uma forma ou outra.

Um dos mais influentes críticos literários e pensadores do nosso tempo, Edmund Wilson, autor de “Rumo à Estação Finlândia”, tem um livro sobre o assunto, chamado justamente “Os manuscritos do Mar Morto” (ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras). Outro é Harold Bloom, falecido recentemente, conhecido por ser o criador do “Cânone Ocidental”, e principalmente por antes ter chamado a atenção para “A angústia da influência” que acomete todos os criadores, que apesar de criadores, ou por isso mesmo, carregam um vasto lastro cultural nas costas. Os manuscritos do Mar Morto são uma descoberta importantíssima para o nosso pobre tempo.

Há uns dez anos escrevi um poema evocando os manuscritos do Mar Morto. Como não há novidades a serem ditas, foquei o meu poema na cabra responsável pela descoberta dos manuscritos. Além disso, os pergaminhos em que foram escritos eram feitos de pele de cabra. Por isso o meu louvor à cabra, meio em tom de brincadeira, no poema que fiz sobre a sua história heroica.

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A CABRA DE KHIRBET QUMRAN

O beduíno perseguiu a cabra até as grutas
das ruínas de mancha cinzenta
com suas jarras de barro
e seus pergaminhos de cabra.

A cabra é o animal mais apto para a poesia
e para a sabedoria.

A palavra de Deus nas patas da cabra
na pele da cabra
na língua da cabra.

A cabra devorou os manuscritos do Coélet
e do Sirac.

Sobre as pedras a cabra ainda rumina
o Livro da Revelação.

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Imagem: escultura da cabra, de Pablo Picasso. Um detalhe: em tamanho natural. Vi uma foto da cabra com Picasso montado em cima.

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